Asclepio, Vol 71, No 2 (2019)

Museus, coleccionismo e viagens científicas em Portugal de finais de Setecentos


https://doi.org/10.3989/asclepio.2019.12

Ângela Domingues
Centro de História da Facultade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal
orcid http://orcid.org/0000-0002-9533-2504

Resumen


[pt] Este artigo centra-se no vasto e complexo processo científico e institucional ligado à recolha de artefactos e à formação de colecções científico-naturais, etnológicas e antropológicas, provenientes de vários espaços coloniais extra-europeus em Portugal durante a segunda metade do século XVIII. Faz ainda referência às instituições que albergaram estes materiais. Neste período em que a ciência era, por definição, útil e devia servir ao interesse público na prossecução do bem-estar, do progresso e da felicidade dos povos, os estudos produzidos tiveram como objectivo contribuir para um levantamento científico com pretensões enciclopedistas, destinado a produzir um conhecimento minucioso dos espaços imperiais através da identificação, recolecção e estudo das produções naturais e das “características físicas e morais” dos indígenas. A curiosidade científica que caracterizou os grupos sociais envolvidos neste processo permitiu a corporização dum conjunto de práticas que era pensado em Lisboa e implementado pelos vassalos da coroa em todo o império. Deste conjunto de práticas, quero destacar as viagens filosóficas, explorações científicas vocacionadas para a descrição física e económica dos territórios e para a inventariação dos recursos naturais, consideradas como instrumento de modernização política e administrativa do império numa altura em que a ciência e a técnica eram vistas como ferramentas imprescindíveis ao desenvolvimento do Estado Moderno.

Palabras clave


Estado Moderno; Viagens filosóficas; Colecções; Iluminismo; Museus e gabinetes de história natural

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