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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">Asclepio</journal-id>
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				<journal-title>ASCLEPIO. Revista de Historia de la Medicina y de la Ciencia</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Asclepio</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">0210-4466</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
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			 <article-id pub-id-type="publisher-id">asclepio.2017.19</article-id>
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				<subject>ESTUDIOS / RESEARCH STUDIES</subject>
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				 <article-title>“Estou no Hosp&#x00ED;cio, deus”: problematiza&#x00E7;&#x00F5;es sobre a loucura, o hosp&#x00ED;cio e a psiquiatria no di&#x00E1;rio de Maura Lopes Can&#x00E7;ado (Brasil, 1959-1960)</article-title>
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					<trans-title>“I’m in the Hospice, god”: problematizations about the madness, the hospice and the psychiatry in the diary of Maura Lopes Can&#x00E7;ado (Brazil, 1959-1960)</trans-title>
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				<alt-title alt-title-type="running-head">“Estou no Hosp&#x00ED;cio, deus”: problematiza&#x00E7;&#x00F5;es sobre a loucura, o hosp&#x00ED;cio e a psiquiatria no di&#x00E1;rio de Maura Lopes Can&#x00E7;ado (Brasil, 1959-1960)</alt-title>
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			<aff id="U1">Universidade Estadual do Oeste do Paran&#x00E1;</aff>
			
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				<corresp id="cor1">e-mail: <email xlink:href="yonissa.wadi@unioeste.br">yonissa.wadi@unioeste.br</email>
					ORCID iD: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://orcid.org/0000-0002-0224-8478">http://orcid.org/0000-0002-0224-8478</ext-link>
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				<year>2017</year>
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					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution (CC BY) Espa&#x00F1;a 3.0.</license-p>
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				<title>RESUMO</title>
				<p>A escritora Maura Lopes Can&#x00E7;ado circulou no mundo dos hospitais psiqui&#x00E1;tricos entre as d&#x00E9;cadas de 1950, 1960 e 1970. Em uma de suas interna&#x00E7;&#x00F5;es (1959-1960), a terceira no Centro Psiqui&#x00E1;trico Nacional, complexo hospitalar da cidade do Rio de Janeiro, escreveu um di&#x00E1;rio que foi posteriormente publicado como o livro <italic>Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; Deus-Di&#x00E1;rio</italic> I. A alian&#x00E7;a entre o vivido e a fic&#x00E7;&#x00E3;o, na qual transitou a narradora em seu di&#x00E1;rio, criou uma obra &#x00ED;mpar na perspectiva dos comentadores acad&#x00EA;micos e cr&#x00ED;ticos liter&#x00E1;rios. No campo da hist&#x00F3;ria da loucura e da psiquiatria, sua obra oferece possibilidades novas de compreens&#x00E3;o da configura&#x00E7;&#x00E3;o da assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica, das pr&#x00E1;ticas cient&#x00ED;ficas e terap&#x00EA;uticas e dos diversos sujeitos que circularam no mundo dos hospitais psiqui&#x00E1;tricos brasileiros, na d&#x00E9;cada de 1950, operando um deslocamento em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos lugares tradicionais de enuncia&#x00E7;&#x00E3;o que conhecemos. Neste artigo, escolhi observar as problematiza&#x00E7;&#x00F5;es de Maura sobre o cotidiano institucional e o pr&#x00F3;prio ato da escrita de um di&#x00E1;rio, que oscilam entre ensinar os outros e cuidar de si. Realizei portanto, uma an&#x00E1;lise enunciativa da narrativa, que valoriza as coisas ditas por ela como uma das verdades sobre o hospital psiqui&#x00E1;trico, a ci&#x00EA;ncia m&#x00E9;dica e suas pr&#x00E1;ticas, os loucos e a loucura.</p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The writer Maura Lopes Can&#x00E7;ado circulated in the world of the psychiatric hospitals between the 1950s, 1960s and 1970s. During one of hospitalizations (1959-1960), the third time in the National Psychiatric Center, a hospital complex in Rio de Janeiro, the writer wrote a diary that was later published as the book <italic>Hospice is God-Diary</italic> I. The bond between the live lived by her and the fiction, which the narrator transited in her diary, creating a unique work from the perspective of academic commentators and literary critics. In the history field of madness and psychiatry, this work offers new possibilities for understanding the configuration of psychiatric care, scientific and therapeutic practices and the various subjects that circulated in the world of Brazilians psychiatric hospitals, in the 1950s, operating a displacement in relation to traditional places of enunciation that are known. In this article, I chose to observe the problematizations of Maura about the institutional daily life and the fact of writing a diary, which oscillate between teaching others and the care of the self. Therefore, I did an enunciative analysis of the narrative, that values ​​the things that were said by her as one of the truths about the psychiatric hospital, medical science and its practices, the mad and the madness.</p>
			</trans-abstract>
			
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				<title>PALAVRAS-CHAVE</title> 
				<kwd>Maura Lopes Can&#x00E7;ado</kwd>	
				<kwd>di&#x00E1;rio</kwd>
				<kwd>loucura</kwd>
				<kwd>psiquiatria</kwd>
				<kwd>hospital psiqui&#x00E1;trico</kwd>
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				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>Maura Lopes Can&#x00E7;ado</kwd>	
				<kwd>diary</kwd>
				<kwd>madness</kwd>
				<kwd>psychiatry</kwd>
				<kwd>psychiatric hospital</kwd>
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		<sec id="S0">
			<title/>
						<disp-quote><p>Estou de novo aqui, e isto ____ Por que n&#x00E3;o dizer? D&#x00F3;i. Ser&#x00E1; por isto que venho? ─ Estou no Hosp&#x00ED;cio, deus. E hosp&#x00ED;cio &#x00E9; este branco sem fim, onde nos arrancam o cora&#x00E7;&#x00E3;o a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos: tr&#x00EA;mulo, exangue ─ e sempre outro. Hosp&#x00ED;cio s&#x00E3;o as flores frias que se colam em nossas cabe&#x00E7;as perdidas em escadarias de m&#x00E1;rmore antigo, subitamente futuro ─ como o que n&#x00E3;o se pode ainda compreender. S&#x00E3;o m&#x00E3;os longas levando-nos para n&#x00E3;o sei onde ─ paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensur&#x00E1;veis: Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; n&#x00E3;o se sabe o qu&#x00EA;, porque Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; deus.</p>

						<p>(Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.28)</p></disp-quote>

		</sec>
		
		<sec id="S1">			
			<title>ESBO&#x00C7;O DE UMA HIST&#x00D3;RIA</title>

			<p>A escritora Maura Lopes Can&#x00E7;ado, ent&#x00E3;o com 29 anos, adentrou os port&#x00F5;es do Centro Psiqui&#x00E1;trico Nacional (CPN)<xref ref-type="fn" rid="NOTE1">1</xref> pela terceira vez em 1959 (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 27). A ep&#x00ED;grafe po&#x00E9;tica deste artigo &#x00E9; o primeiro trecho da parte datada do di&#x00E1;rio que escreveu durante o per&#x00ED;odo desta terceira interna&#x00E7;&#x00E3;o (1959-1960). Logo abaixo dele Maura justificou porque estava de novo ali: </p>

						<disp-quote><p>Acho-me na Se&#x00E7;&#x00E3;o Tillemont Fontes, Hospital Gustavo Riedel, Centro Psiqui&#x00E1;trico Nacional, Engenho de Dentro, Rio. Vim sozinha. O que me trouxe foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo. (...) Havia l&#x00E1; fora grande incompreens&#x00E3;o. Sobretudo pareceu-me estar sozinha. Isto faria rir a muitas pessoas: eu trabalhava <italic>no Suplemento Liter&#x00E1;rio do Jornal do Brasil</italic>, onde me cercavam de grande aten&#x00E7;&#x00E3;o e muito carinho. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.28)</p></disp-quote>

			<p>A procura por compreens&#x00E3;o, a fuga da solid&#x00E3;o, apesar da aten&#x00E7;&#x00E3;o e carinho que recebia em seu local de trabalho, foram justificativas para a busca da interna&#x00E7;&#x00E3;o. Argumentos como estes j&#x00E1; haviam sido usados anteriormente por Maura, na busca volunt&#x00E1;ria por interna&#x00E7;&#x00E3;o em institui&#x00E7;&#x00F5;es psiqui&#x00E1;tricas, e seriam repetidos outras vezes depois desta terceira interna&#x00E7;&#x00E3;o no CPN. </p>

			<p>Maura circulou pelo mundo dos hospitais psiqui&#x00E1;tricos entre as d&#x00E9;cadas de 1950, 1960 e in&#x00ED;cio da de 1970, at&#x00E9; que em uma destas interna&#x00E7;&#x00F5;es, em 1972, matou uma colega de quarto. Absolvida, por ser “considerada incapaz de atender ao car&#x00E1;ter criminoso do fato que praticou” (Scaramella, <xref ref-type="bibr" rid="CIT30">2015</xref>, p.1081), mas destinada a cumprir medida de seguran&#x00E7;a por oito anos, Maura deixou a carreira de paciente psiqui&#x00E1;trica, para iniciar uma nova carreira em penitenci&#x00E1;rias comuns – sem acompanhamento psiqui&#x00E1;trico algum –, em virtude da inexist&#x00EA;ncia de um manic&#x00F4;mio judici&#x00E1;rio feminino que pudesse receb&#x00EA;-la. (Autran, <xref ref-type="bibr" rid="CIT02">1991</xref>). “O juiz decreta que at&#x00E9; 1980 eu sou louca. A partir da&#x00ED; cessa minha periculosidade. Por que esta onipot&#x00EA;ncia, esta onisci&#x00EA;ncia do Juiz? Depois o advogado grita que eu estou ilegalmente presa. Por que ent&#x00E3;o eu estou presa?”, disse Maura &#x00E0; jornalista Margarida Autran, que a entrevistou em 1977 na Penitenci&#x00E1;ria Lemos de Brito (Autran, <xref ref-type="bibr" rid="CIT02">1991</xref>, p.189). Em 1980 Maura foi colocada sob liberdade vigiada, passando a ser sustentada por seu filho Cesarion. Com crises quase cont&#x00ED;nuas, mudando constantemente de resid&#x00EA;ncia e passando por novas interna&#x00E7;&#x00F5;es, Maura planejava escrever mas n&#x00E3;o h&#x00E1; registros de que efetivamente tenha voltado a faz&#x00EA;-lo. Complica&#x00E7;&#x00F5;es respirat&#x00F3;rias, decorrentes de um enfisema detectado muitos anos antes, levaram a sua morte em 1993. (Meireles, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2016</xref>)</p>

			<p>Na &#x00E9;poca da terceira interna&#x00E7;&#x00E3;o de Maura o CPN, situado no bairro do Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro, era um complexo arquitet&#x00F4;nico com v&#x00E1;rias unidades. Principal herdeiro do Hosp&#x00ED;cio Nacional de Alienados, desativado na d&#x00E9;cada anterior, e de quem recebera a maioria dos internos, o CPN erigiu-se nos terrenos da antiga Col&#x00F4;nia de Alienadas, existente desde 1911, no referido bairro. (Jorge, <xref ref-type="bibr" rid="CIT19">1997</xref>). Foi institucionalizado em 1944, pelo Decreto-lei 7.055, como parte da estrutura do Servi&#x00E7;o Nacional de Doen&#x00E7;as Mentais, dentro da l&#x00F3;gica espec&#x00ED;fica para assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica na ent&#x00E3;o capital da rep&#x00FA;blica<xref ref-type="fn" rid="NOTE2">2</xref>. </p>

			<p>Como principal porta de entrada para as pessoas que necessitavam de assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica p&#x00FA;blica, no Rio de Janeiro, o atendimento no CPN estava dividido, conforme a urg&#x00EA;ncia e a especificidade, entre diversos setores e hospitais. Com a responsabilidade de oferecer os “primeiros atendimentos psiqui&#x00E1;tricos &#x00E0; popula&#x00E7;&#x00E3;o” (Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>, p.27), inicialmente havia uma triagem das pessoas a partir da atribui&#x00E7;&#x00E3;o de um diagn&#x00F3;stico pela equipe do Instituto de Psiquiatria, uma de suas unidades; por outro lado, quando havia necessidade de buscar pessoas que estavam em crise aguda, o Pronto Socorro Psiqui&#x00E1;trico enviava uma ambul&#x00E2;ncia aos locais onde estas se encontravam.<xref ref-type="fn" rid="NOTE3">3</xref> Diferentes locais eram destinados a quem entrava por uma destas op&#x00E7;&#x00F5;es: os casos derivados da s&#x00ED;filis eram encaminhados, ou ao ambulat&#x00F3;rio de Neuro-S&#x00ED;filis, ou para interna&#x00E7;&#x00E3;o no Hospital de Neuro-S&#x00ED;filis; crian&#x00E7;as eram encaminhadas ao ambulat&#x00F3;rio de Neuro-Psiquiatria Infantil ou ao Hospital de Neuro-Psiquiatria Infantil; ao Hospital Gustavo Riedel (HGR), cujo regime era de interna&#x00E7;&#x00E3;o mista, eram enviados os casos considerados subagudos; e os casos classificados como agudos eram enviados ao Hospital Pedro II, destinado a doentes mentais de ambos os sexos. Se no decorrer da interna&#x00E7;&#x00E3;o uma pessoa fosse considerada, pela equipe m&#x00E9;dica, como doente cr&#x00F4;nico era encaminhada &#x00E0; Col&#x00F4;nia Juliano Moreira. (Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>)</p>

			<p>Neste final da d&#x00E9;cada de 1950, o CPN era ent&#x00E3;o conhecido como um grande e moderno complexo hospitalar, destino da maioria das pessoas que necessitassem de tratamento psiqui&#x00E1;trico p&#x00FA;blico e no qual eram utilizadas as mais modernas terap&#x00EA;uticas no tratamento das doen&#x00E7;as mentais, na perspectiva da psiquiatria organicista, como o eletrochoque, o coma insul&#x00ED;nico e a lobotomia<xref ref-type="fn" rid="NOTE4">4</xref>, mas tamb&#x00E9;m a chamada psicoterapia de vi&#x00E9;s psicanal&#x00ED;tico. Apesar de sua modernidade vivia os cl&#x00E1;ssicos problemas das institui&#x00E7;&#x00F5;es manicomiais que o antecederam – problemas de todo intr&#x00ED;nsecos ao modelo de assist&#x00EA;ncia adotado, baseado em interna&#x00E7;&#x00F5;es de longo prazo em regime fechado –, como a superlota&#x00E7;&#x00E3;o, a falta de m&#x00E3;o de obra (da enfermagem &#x00E0; seguran&#x00E7;a), as dificuldades de transportes, entre outros problemas estruturais. (Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>)</p>

			<p>Por outro lado, um atributo que soa paradoxal identificava o grande manic&#x00F4;mio fundado nos anos 1940 como um lugar de explos&#x00E3;o de uma criatividade nunca vista e, por vezes, inacredit&#x00E1;vel, porque oriunda de pessoas consideradas loucas. Esta era manifesta em trabalhos feitos por internos que frequentavam alguns dos ateli&#x00EA;s do Servi&#x00E7;o de Terapia Ocupacional (STO). Fora justamente a cr&#x00ED;tica &#x00E0;s modernas terapias, consideradas por ela como extremamente violentas, que levara a psiquiatra Nise da Silveira, ao assumir a dire&#x00E7;&#x00E3;o do STO do CPN, em 1946, a transform&#x00E1;-lo em um local que diferia muito do que comumente caracterizava servi&#x00E7;os como este em diferentes hospitais.<xref ref-type="fn" rid="NOTE5">5</xref> Segundo Nise, o setor de terap&#x00EA;utica ocupacional sob sua coordena&#x00E7;&#x00E3;o “n&#x00E3;o visaria a produ&#x00E7;&#x00E3;o de utilidades para o hospital, mas teria por meta encontrar atividades que servissem de meios individualizados de express&#x00E3;o” (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>, p.55).<xref ref-type="fn" rid="NOTE6">6</xref> Neste sentido, o STO deixou de produzir roupas de cama e roupas para os internos, confeccionadas nos servi&#x00E7;os de costura, ou m&#x00F3;veis, nos servi&#x00E7;os de marcenaria, transformando-se em local de desenvolvimento de atividades recreativas (como jogos, passeios, festas, teatro) e atividades de livre express&#x00E3;o, desde os trabalhos manuais como croch&#x00EA;, tric&#x00F4;, bordado e tape&#x00E7;aria, at&#x00E9; a pintura, a cer&#x00E2;mica e a escultura. (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>; Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>). Abria-se assim, para “clientes” do CPN, “o caminho da express&#x00E3;o, da criatividade, da emo&#x00E7;&#x00E3;o de lidar com os diferentes materiais de trabalho” (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>, p.55)<xref ref-type="fn" rid="NOTE7">7</xref>, constituindo-se como uma verdadeira terapia para estes; e, para a psiquiatria, novas possibilidades de compreender e lidar com a esquizofrenia e outros transtornos mentais. </p>

			<p>A partir dos ateli&#x00EA;s de pintura e modelagem do STO erigiu-se o Museu das Imagens do Inconsciente (MII), inaugurado em 1952, que passou a reunir, cuidar e tratar das obras oriundas daqueles, muitas das quais foram consideradas por cr&#x00ED;ticos importantes da &#x00E9;poca, como M&#x00E1;rio Pedrosa, de grande valor est&#x00E9;tico. Seus produtores, os “clientes” do CPN, mantinham-se frequentando os ateli&#x00EA;s que funcionavam dentro dele, sob coordena&#x00E7;&#x00E3;o da psiquiatra Nise da Silveira. (Melo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2001</xref>; Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>; Mello, <xref ref-type="bibr" rid="CIT23">2014</xref>). Por&#x00E9;m, segundo alguns estudiosos, apesar do valor cient&#x00ED;fico das produ&#x00E7;&#x00F5;es gerados no STO, reconhecidas inclusive por Carl Gustav Jung (psiquiatra e psicoterapeuta su&#x00ED;&#x00E7;o que fundou a psicologia anal&#x00ED;tica), e do qual se tornara seguidora Nise, as inova&#x00E7;&#x00F5;es terap&#x00EA;uticas introduzidas por esta, e seus produtos art&#x00ED;sticos, mantiveram-se, em grande parte, ignoradas pelos m&#x00E9;dicos brasileiros seus contempor&#x00E2;neos (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>, p.55), como ali&#x00E1;s ocorria no mundo inteiro, pois, segundo Nise, </p>

						<disp-quote><p>...os psiquiatras em sua grande maioria recusam a aceita&#x00E7;&#x00E3;o do valor art&#x00ED;stico das pinturas e desenhos dos doentes mentais. Mant&#x00E9;m-se irredut&#x00ED;veis, repetindo sempre os velhos chav&#x00F5;es ‘arte psic&#x00F3;tica’, ‘arte psicopatol&#x00F3;gica’, arraigados a conceitos pr&#x00E9;-formados da psiquiatria, insistentes em procurar nessas pinturas somente reflexos de sintomas e de ru&#x00ED;na ps&#x00ED;quica. (Silveira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT35">2015</xref>, p.17)</p></disp-quote>

			<p>Fazendo uso de capacidades art&#x00ED;sticas surpreendentes, de sensibilidade e criatividade imensa, apesar de longos anos de internamento, muitos esquizofr&#x00EA;nicos frequentadores do STO produziram imagens bel&#x00ED;ssimas, algumas dram&#x00E1;ticas, outras harmoniosas e atraentes ao olhar. (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>, p.60) E, como acentuei antes, na perspectiva de Nise da Silveira, o mergulho nas artes significava um not&#x00E1;vel processo terap&#x00EA;utico.<xref ref-type="fn" rid="NOTE8">8</xref> </p>

			<p>Teria a escrita de Maura significado semelhante? Teria ela, por meio da narrativa no di&#x00E1;rio, exercido uma terap&#x00EA;utica sobre si mesma? Ou seu di&#x00E1;rio teria objetivo diferente, um objetivo pedag&#x00F3;gico de educar outrem sobre o mundo da loucura e da institucionaliza&#x00E7;&#x00E3;o? </p>

		</sec>
		
		<sec id="S2">
			<title>O CAMINHO ESCOLHIDO</title>

			<p>Nos par&#x00E1;grafos anteriores, considerando alguns dos recentes estudos historiogr&#x00E1;ficos sobre a institui&#x00E7;&#x00E3;o, tentei tra&#x00E7;ar um esbo&#x00E7;o do CPN que encontrou Maura Lopes Can&#x00E7;ado quando l&#x00E1; foi internada em 1959. Daqui em diante minha inten&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; adentrar este espa&#x00E7;o, pela perspectiva de Maura, densificando aquilo que o esbo&#x00E7;o propositalmente n&#x00E3;o realiza, em sua inten&#x00E7;&#x00E3;o provis&#x00F3;ria de apenas delinear. A seguir explico esta inten&#x00E7;&#x00E3;o.</p>

			<p>Vinda de Minas Gerais, Maura se estabeleceu no Rio de Janeiro no in&#x00ED;cio dos anos 50 e trabalhou no Minist&#x00E9;rio da Educa&#x00E7;&#x00E3;o e em jornais, como o Correio da Manh&#x00E3; e o Jornal do Brasil. Neste publicou v&#x00E1;rios contos em seu Suplemento Dominical, alguns dos quais posteriormente tornaram-se parte da colet&#x00E2;nea <italic>O Sofredor do Ver</italic>, publicada em 1968, e pela qual foi considerada a melhor escritora do ano (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1968</xref>; Musili, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">2014</xref>; Scaramella, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">2010</xref>). Mas este tempo de trabalho formal, parece ser apenas um interregno entre suas v&#x00E1;rias interna&#x00E7;&#x00F5;es<xref ref-type="fn" rid="NOTE9">9</xref>, cujo cotidiano institucional com os diferentes sujeitos que o habitavam – especialmente as mulheres loucas – e seus comportamentos, pr&#x00E1;ticas, desejos, animosidades, del&#x00ED;rios, constituem-se nos temas centrais de suas duas &#x00FA;nicas obras liter&#x00E1;rias, a colet&#x00E2;nea de contos e o livro <italic>Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; Deus - Di&#x00E1;rio I</italic>, publicado pela primeira vez em 1965, mas oriundo do di&#x00E1;rio escrito por Maura no tempo desta terceira interna&#x00E7;&#x00E3;o, como eu disse alhures.<xref ref-type="fn" rid="NOTE10">10</xref> </p>

			<p>A parte inicial do di&#x00E1;rio, que Maura chamou de “a metade do meu &#x00E1;lbum” e onde diz ter procurado apresentar “a mo&#x00E7;a de dezesseis anos, bonita, rica aviadora; sem futuro ─ mas uma grande promessa” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.26), foi escrita de forma cont&#x00ED;nua, como comumente se escrevem as autobiografias, sem data&#x00E7;&#x00E3;o alguma, ainda que haja men&#x00E7;&#x00E3;o ao tempo cronol&#x00F3;gico na descri&#x00E7;&#x00E3;o de acontecimentos relativos a sua inf&#x00E2;ncia e adolesc&#x00EA;ncia. Entre vinte e cinco de outubro de 1959 e sete de mar&#x00E7;o de 1960 – diariamente ou em saltos temporais de dias ou semanas – Maura escreveu o di&#x00E1;rio propriamente dito.</p>

			<p>Sem consenso em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; motiva&#x00E7;&#x00E3;o inicial para a escrita deste – teria sido incentivada pelos m&#x00E9;dicos como parte de sua “psicoterapia” ou apenas fruto de sua vontade ? –, os estudiosos parecem concordar que na narrativa de Maura h&#x00E1; a mistura de acontecimentos vivenciados – numa escrita marcada por met&#x00E1;foras e ironias –, com elementos ficcionais, num di&#x00E1;logo constante com refer&#x00EA;ncias liter&#x00E1;rias que cita ou comenta, como Fernando Pessoa, Clarice Linspector, Jean Paul Sartre ou Emily Bronte. Nas palavras de Telles, a narrativa de Maura </p>

						<disp-quote><p>...n&#x00E3;o se limita ao documental, &#x00E9; fic&#x00E7;&#x00E3;o liter&#x00E1;ria. A escritora cria a personagem Maura Lopes Can&#x00E7;ado. Esta, nascida em Minas Gerais, numa fam&#x00ED;lia tradicional e de posses, foi menina mimada. Aos cinco anos aprendera a ler sozinha e tamb&#x00E9;m conhecera o sexo. Mocinha, resolve ser piloto. Entra para o aeroclube, acaba destruindo o avi&#x00E3;o que a m&#x00E3;e lhe dera e logo se casa com um aviador. Teve um filho e antes de um ano descasou. O marido tentou intern&#x00E1;-la, dizem, mas ela conseguiu ir para o Rio de Janeiro, deixando o filho. Ali uma vida sem freios, de inicio divertida, logo tediosa. Tornou-se jornalista e escritora elogiada, trabalhava no suplemento liter&#x00E1;rio do Jornal do Brasil. Sem saber o que fazer, em turbilh&#x00E3;o ps&#x00ED;quico, pede para ser internada em uma casa de sa&#x00FA;de. Diz que precisava de amor e prote&#x00E7;&#x00E3;o e o sanat&#x00F3;rio lhe parecia rom&#x00E2;ntico. Come&#x00E7;a assim uma peregrina&#x00E7;&#x00E3;o de asilo em asilo que s&#x00F3; terminar&#x00E1; com sua morte. (Telles, <xref ref-type="bibr" rid="CIT36">2008</xref>, p. 5)</p></disp-quote>

			<p>A alian&#x00E7;a entre o vivido e a fic&#x00E7;&#x00E3;o, na qual transita a narradora, tamb&#x00E9;m personagem e autora, Maura Lopes Can&#x00E7;ado (Silva, <xref ref-type="bibr" rid="CIT32">2011</xref>), criou uma obra &#x00ED;mpar na perspectiva dos comentadores acad&#x00EA;micos e cr&#x00ED;ticos liter&#x00E1;rios, como o jornalista Francisco Assis Brasil, que acompanhou seu trajeto no Jornal do Brasil: </p>

						<disp-quote><p>&#x00C9; bastante curioso, do ponto de vista cr&#x00ED;tico, saber que um escritor do porte de Maura Lopes Can&#x00E7;ado tem um acervo existencial raramente encontr&#x00E1;vel em escritor brasileiro, sempre apegado a draminhas dom&#x00E9;sticos ou ligeiras crises passionais. Se seus di&#x00E1;rios tivessem sido publicados num outro pa&#x00ED;s, teriam elevado o nome de Maura Lopes Can&#x00E7;ado ao plano liter&#x00E1;rio internacional. (Assis Brasil, <xref ref-type="bibr" rid="CIT03">1973</xref>, p.105)</p></disp-quote>

			<p>J&#x00E1; se sabe atualmente que narrativas escritas, orais, pict&#x00F3;ricas, etc., gestadas dentro de institui&#x00E7;&#x00F5;es manicomiais, podem ter sido mais abundantes do que acredit&#x00E1;vamos tempos atr&#x00E1;s, isto gra&#x00E7;as ao um conjunto sofisticado de trabalhos que vem revelando e analisando tais escritos, procedendo assim a uma renova&#x00E7;&#x00E3;o da produ&#x00E7;&#x00E3;o no campo da hist&#x00F3;ria da loucura e da psiquiatria. Al&#x00E9;m deste tipo de produ&#x00E7;&#x00E3;o, em geral oriunda de pessoas infames, muitas pessoas letradas e com certa notoriedade, por sua inser&#x00E7;&#x00E3;o no meio art&#x00ED;stico, liter&#x00E1;rio e/ou jornal&#x00ED;stico, como Maura, foram capazes de produzir textos de grande significado e beleza sobre suas experi&#x00EA;ncias com a loucura, como o romance autobiogr&#x00E1;fico <italic>Todos os Cachorros s&#x00E3;o Azuis</italic> (2010) de Rodrigo de Souza Le&#x00E3;o, ou o famoso <italic>Di&#x00E1;rio do Hosp&#x00ED;cio; Cemit&#x00E9;rio dos Vivos</italic> ([1920] 2010) de Lima Barreto, para ficar s&#x00F3; nos exemplos relativos &#x00E0; produ&#x00E7;&#x00E3;o brasileira.<xref ref-type="fn" rid="NOTE11">11</xref></p>

			<p>Estes s&#x00E3;o textos similares, entre outras coisas, porque oriundos de pessoas que em algum momento viveram a experi&#x00EA;ncia da loucura. Por&#x00E9;m, ao mesmo tempo, s&#x00E3;o imensamente diferentes, desde as preocupa&#x00E7;&#x00F5;es que movem cada escrita, at&#x00E9; as formas e conte&#x00FA;dos narrativos que configuram cada obra. &#x00C9; certo que a maioria deles, como os citados acima, tem um tom mais ou menos acentuado de denuncia das mazelas relativas &#x00E0; experi&#x00EA;ncia da loucura e a seus tratamentos, inclusive a da interna&#x00E7;&#x00E3;o em verdadeiros ‘cemit&#x00E9;rios dos vivos’, na met&#x00E1;fora de Lima (Barreto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2010</xref>), ou numa “cidade triste”, nas palavras de Maura (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.31), onde n&#x00E3;o h&#x00E1; liberdade, pois “liberdade s&#x00F3; fora do hosp&#x00ED;cio”, como escreveu Rodrigo (Le&#x00E3;o, <xref ref-type="bibr" rid="CIT20">2010</xref>, p.23). Mas cada um deles revela aspectos inusitados destas experi&#x00EA;ncias constituidoras de sujeitos marcados por atributos diferentes de g&#x00EA;nero, classe, ra&#x00E7;a, etnia e gera&#x00E7;&#x00E3;o, circulando numa mesma espacialidade – a da cidade do Rio de Janeiro –, mas em temporalidades distintas. </p>

			<p>Neste sentido, cada um nos oferece elementos e possibilidades novas de compreens&#x00E3;o da configura&#x00E7;&#x00E3;o da assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica, das pr&#x00E1;ticas cient&#x00ED;ficas e terap&#x00EA;uticas e dos diversos sujeitos que circularam no mundo dos hospitais psiqui&#x00E1;tricos. Maura, por exemplo, escreveu suas impress&#x00F5;es sobre o espa&#x00E7;o de internamento nos anos finais da d&#x00E9;cada de 1950, com as marcas de sua posi&#x00E7;&#x00E3;o no mundo, como uma mulher jovem, branca, de classe m&#x00E9;dia alta, erudita, escritora profissional. Contraposta a outras narrativas, atrav&#x00E9;s de uma bibliografia de refer&#x00EA;ncia sobre o tema, a narrativa de Maura constitui-se como uma forma de ampliar nosso conhecimento, no espa&#x00E7;o e tempo correspondente, sobre rela&#x00E7;&#x00F5;es e configura&#x00E7;&#x00F5;es comumente descritas por discursos hegem&#x00F4;nicos sobre a loucura, as institui&#x00E7;&#x00F5;es, as pol&#x00ED;ticas, os sujeitos, como as dos saberes psiqui&#x00E1;trico e jur&#x00ED;dico, ou dos representantes do Estado. </p>

			<p>A narrativa que Maura construiu em seu di&#x00E1;rio torna poss&#x00ED;vel aproxima&#x00E7;&#x00F5;es diversas, discuss&#x00F5;es in&#x00FA;meras, an&#x00E1;lises em perspectivas variadas, como bem o demonstram os estudos que tomam seu di&#x00E1;rio como fonte principal.<xref ref-type="fn" rid="NOTE12">12</xref> Neste texto escolhi trilhar um caminho: o de suas problematiza&#x00E7;&#x00F5;es (Foucault, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2006a</xref>) sobre o cotidiano de uma institui&#x00E7;&#x00E3;o psiqui&#x00E1;trica e as pr&#x00E1;ticas de seus operadores, que constroem/instituem as loucuras dos sujeitos que se encontram na condi&#x00E7;&#x00E3;o de internos. Isto significa tamb&#x00E9;m adentrar em sua problematiza&#x00E7;&#x00E3;o sobre o pr&#x00F3;prio ato da escrita de um di&#x00E1;rio. Minha proposi&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; realizar uma an&#x00E1;lise enunciativa do di&#x00E1;rio de Maura, nos termos anunciados por Foucault (<xref ref-type="bibr" rid="CIT13">1987</xref>, p. 126), ou seja, uma an&#x00E1;lise hist&#x00F3;ria que se mant&#x00E9;m ao longe de qualquer interpreta&#x00E7;&#x00E3;o, pois “&#x00E0;s coisas ditas, n&#x00E3;o [se] pergunta o que escondem, o que nelas estava dito e o n&#x00E3;o-dito que involuntariamente recobrem (...), mas, ao contr&#x00E1;rio, de que modo existem, o que significa para elas o fato de se terem manifestado, de terem deixado rastros (...).” </p>

			<p>Portanto, valorizo as coisas ditas por Maura em seu di&#x00E1;rio como uma das verdades sobre o hospital psiqui&#x00E1;trico, a ci&#x00EA;ncia m&#x00E9;dica, as pr&#x00E1;ticas dos operadores dos saberes, os chamados loucos e a pr&#x00F3;pria loucura/doen&#x00E7;a mental. As verdades ditas pelos chamados loucos – mesmo que constitu&#x00ED;das em meio a jogos entre estes e operadores de diversos outros discursos que dizem o que &#x00E9; a loucura<xref ref-type="fn" rid="NOTE13">13</xref> – operam um deslocamento em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos lugares tradicionais de enuncia&#x00E7;&#x00E3;o que t&#x00E3;o bem conhecemos. Entendo que esta &#x00E9; mais uma verdade poss&#x00ED;vel, ainda que n&#x00E3;o tenha sido escutada ou reconhecida, durante muito tempo, como leg&#x00ED;tima em sua enuncia&#x00E7;&#x00E3;o. </p>

		</sec>
		
		<sec id="S3">
			<title>PROBLEMATIZA&#x00C7;&#x00D5;ES DE MAURA (I): ENTRE DOENTES MENTAIS E LOUCAS</title>

			<p>Encerrando a parte inicial de sua narrativa, que parece ter sido escrita posteriormente ao di&#x00E1;rio propriamente dito, talvez para a publica&#x00E7;&#x00E3;o<xref ref-type="fn" rid="NOTE14">14</xref>, Maura instituiu uma importante distin&#x00E7;&#x00E3;o – visualizada nos comportamentos dos internos e nas pr&#x00E1;ticas divis&#x00F3;rias no interior do hosp&#x00ED;cio – entre loucura e doen&#x00E7;a mental: “&#x00C9; a terceira vez que me encontro no hospital. O n&#x00FA;mero de doentes &#x00E9; grande e poucos s&#x00E3;o os loucos.” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 27) Ao distinguir os loucos – “distantes”, “divinos”, “eternos”, “livres” –, dos doentes mentais, Maura fez uma elegia &#x00E0; loucura: </p>

						<disp-quote><p>O que me assombra na loucura &#x00E9; a dist&#x00E2;ncia – os loucos parecem eternos. Nem as pir&#x00E2;mides do Egito, as m&#x00FA;mias milenares, o mausol&#x00E9;u mais gigantesco e antigo, possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura. (...) O louco &#x00E9; divino na minha tentativa fraca e angustiante de compreens&#x00E3;o. &#x00C9; eterno. (...). (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 26)</p>

						<p>... o que me assombra na loucura &#x00E9; a eternidade.</p>

						<p>Ou: a eternidade da loucura.</p>

						<p>Ser louco para mim &#x00E9; chegar l&#x00E1;.</p>

						<p>Onde? – pergunto vendo dona Marina. As coisas absolutas, os mundos impenetr&#x00E1;veis. Estas mulheres, comemos juntas. N&#x00E3;o as conhe&#x00E7;o. Acaso algu&#x00E9;m tocou no abstrato? (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, pp. 27-28)</p></disp-quote>

			<p>S&#x00E3;o poucos os verdadeiros loucos no hosp&#x00ED;cio, escreveu Maura, pois a maioria dos internos s&#x00E3;o doentes mentais que lutam cotidianamente com o que se convencionou em cada &#x00E9;poca chamar doen&#x00E7;a. E esta &#x00E9; algo que passa a defini-los t&#x00E3;o logo s&#x00E3;o identificados por um diagn&#x00F3;stico, disse ela, indicando ter clareza, pela experi&#x00EA;ncia de subsequentes interna&#x00E7;&#x00F5;es, do que Goffman (<xref ref-type="bibr" rid="CIT17">1999</xref>, p.112) chamou de carreira moral, ou seja, a hospitaliza&#x00E7;&#x00E3;o gera uma sequ&#x00EA;ncia de mudan&#x00E7;as que provocam efeitos “no eu da pessoa e em seu esquemas de imagens para julgar a si mesma e aos outros”. Os verdadeiros loucos estariam a salvo disto, mas n&#x00E3;o os doentes mentais: </p>

						<disp-quote><p>S&#x00E3;o poucos os loucos. A maioria comp&#x00F5;e a parte d&#x00FA;bia, verdadeiros doentes mentais. Lutam contra o que se chama doen&#x00E7;a, quando justamente esta luta &#x00E9; o que os define: sem lado, entre o muro dos chamados normais e a liberdade do outros. N&#x00E3;o conseguem transpor o “Muro”, segundo Sartre. &#x00C9; a resist&#x00EA;ncia. (...) Ent&#x00E3;o encontramos a doen&#x00E7;a, morbidez, imensa soma de defici&#x00EA;ncias que se recusa a abandonar. Transposta a barreira, completamente definidos, passam a outro estado – que prefiro chamar de Santidade. A fase digna da coisa, a conquista de se entregar. O que aparentam &#x00E9; a inviolabilidade do seu mundo (...) poucos alcan&#x00E7;am a santidade da loucura (..).</p>

						<p>O doente, ainda preso ao mundo de onde n&#x00E3;o saiu completamente, tratado com brutalidade, desrespeito, maldade mesmo, reage. Tenta agarrar-se ao mundo de onde n&#x00E3;o saiu completamente. Apega-se a seus antigos valores, dos quais n&#x00E3;o se libertou tranquilo. Principalmente teme: a caracter&#x00ED;stica do doente mental &#x00E9; o medo (n&#x00E3;o o medo dos guardas, dos m&#x00E9;dicos. O medo de se perder de todo antes de se encontrar). (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 27)</p></disp-quote>

			<p>Este tamb&#x00E9;m &#x00E9; o grande medo de Maura! Medo que ela problematizou ao longo do di&#x00E1;rio, no di&#x00E1;logo e nas a&#x00E7;&#x00F5;es que envolviam as outras internas, as verdadeiramente loucas e as doentes como ela, que pareciam se agarrar ao mundo de outrora, quando o mundo do hosp&#x00ED;cio as tragara e pouco deixara de possibilidades para algo que permitisse a fuga da carreira iniciada. Medo que lhe fez, tamb&#x00E9;m, realizar um embate constante com os m&#x00E9;dicos e os outros operadores institucionais, cujos saberes e pr&#x00E1;ticas questionou. As resist&#x00EA;ncias diversas, entrela&#x00E7;adas &#x00E0;s acomoda&#x00E7;&#x00F5;es t&#x00E1;ticas, marcaram sua narrativa. </p>

		</sec>
		
		<sec id="S4">
			<title>PROBLEMATIZA&#x00C7;&#x00D5;ES DE MAURA (II): OS HOSP&#x00CD;CIOS, AS PR&#x00C1;TICAS, OS OPERADORES</title>

			<p>A elegia &#x00E0; loucura cessou quando Maura narrou as diferen&#x00E7;as entre os lugares destinados aos loucos e aos doentes mentais na estrutura de assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica do Rio de Janeiro. Os primeiros – que na sua acep&#x00E7;&#x00E3;o estavam pr&#x00F3;ximos &#x00E0; santidade – no mundo institucional eram os chamados cr&#x00F4;nicos, os que n&#x00E3;o tinham possibilidade alguma de cura e, a estes, era destinado o pior dos lugares no imagin&#x00E1;rio de Maura, e de algumas de suas companheiras de ex&#x00ED;lio, a Col&#x00F4;nia Juliano Moreira: </p>

						<disp-quote><p>A Col&#x00F4;nia Juliano Moreira, para onde v&#x00E3;o os casos incur&#x00E1;veis, &#x00E9; o terror das internadas. Ficam em Jacarepagu&#x00E1; e contam atrocidades acontecidas l&#x00E1;. Algumas guardas daqui trabalharam na Col&#x00F4;nia. Elas dizem que &#x00E9; prefer&#x00ED;vel morrer. Cercada de matas espessas, as doentes fugitivas s&#x00E3;o comidas por animais ferozes, contam. Composta por v&#x00E1;rios hospitais – homens e mulheres – velhos, imundos, comida infame, camas sujas com percevejos e outros bichos, muitas doentes dormem no ch&#x00E3;o – sobretudo apanham muito. (...) Dona Mercedes trabalhou l&#x00E1;. Contou-nos coisas escabrosas. Fico gelada: dona J&#x00FA;lia j&#x00E1; indicou-me como irrecuper&#x00E1;vel. Dona Dalmatie n&#x00E3;o compreende minha sorte em n&#x00E3;o ser transferida, pois dona J&#x00FA;lia consegue sempre o que deseja (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.57).</p></disp-quote>

			<p>Mais desej&#x00E1;vel, apesar de seus pesares, do que a Col&#x00F4;nia para a qual era constantemente amea&#x00E7;ada de ser enviada, a macroestrutura do CPM, destinada a doentes em situa&#x00E7;&#x00F5;es agudas ou subagudas – mas contando com cr&#x00F4;nicos em suas depend&#x00EA;ncias por falta de vagas naquela (Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>) –, foi tamb&#x00E9;m descrita por Maura e alvo de suas cr&#x00ED;ticas: </p>

						<disp-quote><p>H&#x00E1; tempos escrevi um conto, no qual dizia ser aqui “uma cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos”. Esta cidade se comp&#x00F5;e de seis edif&#x00ED;cios, abrigando, normalmente, creio, dois mil e quinhentos habitantes (n&#x00E3;o estou bem certa do n&#x00FA;mero). Doentes mentais, ou como tais considerados. Al&#x00E9;m do hospital onde me encontro existem: IP (Instituto de Psiquiatria), onde se fazem interna&#x00E7;&#x00F5;es (estive l&#x00E1; dois meses. &#x00C9; ca&#x00F3;tico). Bloco M&#x00E9;dico-Cir&#x00FA;rgico, Isolamento (Hospital Braule Pinto - doen&#x00E7;as contagiosas, tuberculose principalmente), Hospital Pedro II e Instituto de Neuropsiquiatria Infantil. O isolamento fica aqui perto. &#x00C0; noite n&#x00E3;o consigo dormir, ou&#x00E7;o gritos dos doentes de l&#x00E1;. N&#x00E3;o compreendo um hospital abrigando tuberculosos no Engenho de Dentro, onde o clima &#x00E9; o mais quente do Rio. H&#x00E1; tamb&#x00E9;m o Servi&#x00E7;o de Ocupa&#x00E7;&#x00E3;o Terap&#x00EA;utica do Centro. Serve, ou devia servir, a todos os hospitais. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.31)</p></disp-quote>

			<p>Algumas vezes as descri&#x00E7;&#x00F5;es mais &#x00E1;ridas cedem lugar &#x00E0; descri&#x00E7;&#x00F5;es po&#x00E9;ticas, nas quais sua verve liter&#x00E1;ria flui aos jorros: </p>

						<disp-quote><p>O hosp&#x00ED;cio &#x00E9; &#x00E1;rido e atentamente acordado. Em cada canto, olhos cor-de-rosa e frios espiam sem piscar. Os dias neutros. As tardes opacas, vazias, quando um ru&#x00ED;do assusta, como vida, surgida r&#x00E1;pida, logo apagada – extinta. As mulheres presas no p&#x00E1;tio deixam as se&#x00E7;&#x00F5;es quase sempre vazias; poucas permanecem, como eu, aqui dentro o dia todo. N&#x00E3;o frequento o p&#x00E1;tio e isto me d&#x00E1;, ainda aqui, e usando o uniforme do hospital, a sensa&#x00E7;&#x00E3;o de estar &#x00E0; margem. Algumas mulheres son&#x00E2;mbulas andam vagas pelos corredores cinzentos. Outras sentadas no cimento fresco, olham nada, perdendo-se em distancias incomensur&#x00E1;veis – brancas. (...) Os dormit&#x00F3;rios vazios e impessoais s&#x00E3;o cemit&#x00E9;rios, onde se guardam passado e futuro de tantas vidas. Cemit&#x00E9;rios sem flor e sem piedade: cada leito mudo &#x00E9; um t&#x00FA;mulo, e eu existo entre o c&#x00E9;u e esta dem&#x00EA;ncia calada. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.71).</p></disp-quote>

			<p>Em geral, o que se l&#x00EA; em <italic>Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; Deus</italic>, com ou sem poesia, &#x00E9; uma descri&#x00E7;&#x00E3;o n&#x00ED;tida da organiza&#x00E7;&#x00E3;o interna, do funcionamento e das rela&#x00E7;&#x00F5;es estabelecidas naquele mundo particular, que para Maura s&#x00F3; o cinema conseguiria retratar verdadeiramente. &#x00C9; assim que somos transportados ao refeit&#x00F3;rio feminino do HGR na hora do almo&#x00E7;o, quando ele “vibra fren&#x00E9;tico e nauseante”, com uma multid&#x00E3;o de mulheres que comem &#x00E1;vidas, de boca aberta, com a “gordura escorrendo-lhe pelo queixo”; enquanto outras dan&#x00E7;am com o prato na cabe&#x00E7;a, algumas “falam, cantam, brigam, riem”, at&#x00E9; que uma guarda grita devolvendo-lhes para o “sono lerdo – movimentado e denso onde vozes brotam pesadas, cheias de esquecimento. [E] o refeit&#x00F3;rio sacudido sustenta-se fant&#x00E1;stico.” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.71-2). Ou ent&#x00E3;o, sentimos a dor daquelas, como ela mesma ou a interna Durvaldina, que amargaram dias e dias dentro de um quarto-forte ap&#x00F3;s cometerem algum tipo de irregularidade, mesmo que esta fosse decorrente da sua “doen&#x00E7;a”: </p>

						<disp-quote><p>Durvaldina tem um olho roxo. Est&#x00E1; toda contundida. N&#x00E3;o sei como algu&#x00E9;m n&#x00E3;o toma provid&#x00EA;ncia para que as doentes n&#x00E3;o sejam de tal maneira brutalizadas. Ainda mais que Durvaldina se acha completamente inconsciente. Hoje fui ao quarto-forte v&#x00EA;-la. O quarto-forte fica nos fundos da se&#x00E7;&#x00E3;o M.B., onde Isabel est&#x00E1;. Isabel &#x00E9; considerada “doente de confian&#x00E7;a”, carrega as chaves da se&#x00E7;&#x00E3;o, faz ocorr&#x00EA;ncias e tem outras regalias. Abriu-me o quarto para que eu visse Durvaldina. Durvaldina abra&#x00E7;ou-me chorando, pediu-me que a tirasse de l&#x00E1;. O quarto &#x00E9; abafad&#x00ED;ssimo e sujo. Fiquei mortificada, perguntei-lhe se sabia quem lhe batera, e ela: “– N&#x00E3;o. Algu&#x00E9;m me bateu”? Dona Dalmatie disse que o professor Lopes Rodrigues, diretor-geral do Servi&#x00E7;o Nacional de Doen&#x00E7;as Mentais, proferiu, aqui, um discurso, na porta (nas portas, porque s&#x00E3;o tr&#x00EA;s) do quarto-forte, dizendo mais ou menos isto: “– Este quarto &#x00E9; apenas simb&#x00F3;lico, pois na moderna psiquiatria n&#x00E3;o o usamos”. – Por que ent&#x00E3;o estes quartos nunca est&#x00E3;o vagos? (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.117).</p></disp-quote>

			<p>A cr&#x00ED;tica ao uso do quarto-forte, segundo Maura, &#x00E9; compartilhada por alguns poucos operadores institucionais, como D. Dalmatie a enfermeira chefe da sess&#x00E3;o Tillemont Fontes, que teria dito a ela: “N&#x00E3;o d&#x00E3;o ao louco nem o direito de ser louco. Por que ningu&#x00E9;m castiga o tuberculoso, quando &#x00E9; v&#x00ED;tima de uma hemoptise e vomita sangue? Por que os ‘castigos’ aplicados ao doente mental quando ele se mostra sem raz&#x00E3;o?” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.78). O questionamento do castigo, que considera “monstruoso”, leva Maura a apontar a responsabilidade m&#x00E9;dica por isto, o que denotava a “incoer&#x00EA;ncia escandalosa” de suas posturas. Apesar de dizerem-se contr&#x00E1;rios aos castigos, eram de fato os m&#x00E9;dicos que os aprovavam ou mesmo que mandavam aplic&#x00E1;-los, diz ela. Tal postura revelava-se paradoxal aos olhos de Maura, como aos de D. Dalmatie, pois eram os pr&#x00F3;prios m&#x00E9;dicos que classificavam os doentes “acusando-os (&#x00E9; importante) de irrespons&#x00E1;veis”, por meio de um diagn&#x00F3;stico. Ent&#x00E3;o como podiam a seguir cobrar-lhes “responsabilidade” sobre determinados atos. Como era poss&#x00ED;vel “punir a inconsci&#x00EA;ncia”, perguntava-se Maura: </p>

						<disp-quote><p>De que falta pode um louco ser acusado? De ser louco? &#x00C9; o que venho observando e sentindo na carne. Doutor A. afirma que as guardas s&#x00E3;o ignorantes, t&#x00EA;m muitos problemas, s&#x00E3;o tamb&#x00E9;m neur&#x00F3;ticas e loucas. Naturalmente os m&#x00E9;dicos tamb&#x00E9;m t&#x00EA;m problemas, s&#x00E3;o neur&#x00F3;ticos. E loucos. Mas n&#x00E3;o foram ainda isentos, de responsabilidades perante a sociedade com a alega&#x00E7;&#x00E3;o de insanidade. Estes homens de aventais brancos que decidem quanto &#x00E0; responsabilidade ou n&#x00E3;o de tantas pessoas, deviam ter o dever de se mostrar conscientes. N&#x00E3;o poderiam jamais exigir de algu&#x00E9;m aquilo que lhe negam. Como seja, a responsabilidade. Mas o fazem, afirmo. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.78).</p></disp-quote>

			<p>Neste sentido, a cr&#x00ED;tica de Maura atinge a hierarquia da assist&#x00EA;ncia dentro do HGR, e do CPN como um todo, cujas lideran&#x00E7;as – especialmente as detentoras de um saber especial, como o diretor m&#x00E9;dico e os m&#x00E9;dicos chefes de sess&#x00E3;o – realizavam uma <italic>mise-en-sc&#x00E8;ne</italic> sem inten&#x00E7;&#x00E3;o de efetuar mudan&#x00E7;as efetivas em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos problemas que afetavam os internos, como o sistema de castigos, para o qual contavam com o trabalho de uma esp&#x00E9;cie de tropa de choque, que falava e agia em seu nome, as enfermeiras e guardas. Em cinco de dezembro de 1959 escreveu:</p>

						<disp-quote><p>Naturalmente o hospital conta com um diretor, autoridade m&#x00E1;xima de quem se ouve falar raramente. A pessoa que fala agu&#x00E7;a o corpo e se arma de uma dignidade terr&#x00ED;vel: “– O diretor quer assim. Ordens do diretor”. Soa cavo, amea&#x00E7;ador. Amea&#x00E7;ador, cavo e terr&#x00ED;vel v&#x00E3;o por conta de quem fala, arauto do rei. As doentes, n&#x00E3;o o conhecendo, n&#x00E3;o chegam a tem&#x00EA;-lo – e nenhuma lhe quer bem. Funcion&#x00E1;rias se referem a ele com leviandade, dando passinhos engra&#x00E7;ados, ao som das m&#x00FA;sicas do alto-falante e gingando os corpos mal feitos dentro do avental branco. As internadas, quase todas, duvidam um pouco da sua exist&#x00EA;ncia: “– Diretor? Quem &#x00E9; ele? &#x00C9; doutor J.? N&#x00E3;o? Ent&#x00E3;o, &#x00E9; doutor A.?” Mesmo quando dona J&#x00FA;lia quer se mostrar muito assanhada e importante: “– O diretor quer assim”, as doentes se encolhem medrosas: “– Dona J&#x00FA;lia quer assim”. </p>

						<p>J&#x00E1; falei tr&#x00EA;s vezes com ele. (...). Queria protestar pelos maus tratos que me faziam. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.84)</p></disp-quote>

			<p>“Se me tornar escritora, at&#x00E9; mesmo jornalista, contarei honestamente o que &#x00E9; um hospital de alienados”, escreveu Maura no dia 12/11/1959, cerca de um m&#x00EA;s depois de iniciar a escrita de seu di&#x00E1;rio. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.48) Esta afirma&#x00E7;&#x00E3;o tamb&#x00E9;m est&#x00E1; relacionada &#x00E0; postura dos m&#x00E9;dicos no hospital, de quem dias depois fez um “retrato de cada um em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s doentes”. Tentou manter-se “inteiramente imparcial”, restringindo-se obrigatoriamente, disse ela, aos que lhe eram conhecidos, pois trabalhavam nas sess&#x00F5;es de mulheres, que era onde “naturalmente” se encontrava. Os m&#x00E9;dicos seus conhecidos lhe “aborrecem demais: com suas defici&#x00EA;ncias, ambival&#x00EA;ncias, impot&#x00EA;ncias, seus problemas – ou falta de problemas – que &#x00E9;, nos m&#x00E9;dicos, em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao hospital, mais grave e comum” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.84), pois pouco sabem do cotidiano daquelas sobre os quais exercem seus poderes. Assim, revoltava-se com a propaga&#x00E7;&#x00E3;o do que chamou de “uma s&#x00E9;rie de mentiras sobre estes hospitais: que o tratamento &#x00E9; bom, tudo se tem feito para minorar o sofrimento dos doentes”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 48). Afirmou que tudo,</p>

						<disp-quote><p>&#x00C9; MENTIRA. Os m&#x00E9;dicos permanecem apenas algumas horas por dia nos hospitais, e dentro dos consult&#x00F3;rios. Jamais visitam os refeit&#x00F3;rios. Jamais visitam os p&#x00E1;tios. O m&#x00E9;dico aceita, por princ&#x00ED;pio, o que qualquer guarda afirma. Se &#x00E9; f&#x00E1;cil desmentir um psicopata, torna-se dif&#x00ED;cil provar que ele tem raz&#x00E3;o.” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.48).</p></disp-quote>

			<p>Algumas vezes, Maura se compadecia dos limites destes homens, limites humanos que os aproximavam dos pr&#x00F3;prios doentes com os quais lidavam. Este era o caso do m&#x00E9;dico respons&#x00E1;vel por sua sess&#x00E3;o, chamado por ela de Doutor A., que ocupava tamb&#x00E9;m o lugar de vice-diretor do hospital, e com quem realizava “psicoterapia”. Di&#x00E1;logos diversos com Doutor A., de quem se considerava enamorada, aparecem ao longo do di&#x00E1;rio, bem como diferentes posicionamentos em rela&#x00E7;&#x00E3;o a sua compet&#x00EA;ncia e car&#x00E1;ter, como lemos a seguir: </p>

						<disp-quote><p>Conheci o m&#x00E9;dico e hoje falei com ele pela terceira vez. O tratamento que me faz tem o nome de psicoterapia. N&#x00E3;o sei ainda quem &#x00E9; este homem de boas maneiras que me analisa. Preciso ganhar sua confian&#x00E7;a. Deve estar tentando o mesmo comigo. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.31).</p>

						<p>Conhe&#x00E7;o algumas das suas defici&#x00EA;ncias, algumas qualidades (...). Em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s outras doentes porta-se muito bem, at&#x00E9; onde pode. Sinto nele grande desamparo, ainda quando quer me ajudar. &#x00C9; o melhor m&#x00E9;dico do hospital, afirmo sem parcialidade. Grande entusiasta da psican&#x00E1;lise, v&#x00EA; nela a solu&#x00E7;&#x00E3;o se buscada a tempo. &#x00C9; muito humano. Profissionalmente n&#x00E3;o estou a altura de julg&#x00E1;-lo. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.85)</p>

						<p>Doutor A. n&#x00E3;o &#x00E9; m&#x00E9;dico para mim, sou obrigada a confessar. Considero-me uma paciente de “elite”, com direito a exigir a mesma condi&#x00E7;&#x00E3;o do terapeuta (...). O pior de tudo &#x00E9; que doutor A. se convenceu, firmemente de estar me tratando. N&#x00E3;o &#x00E9; somente em raz&#x00E3;o de sua pouca cultura geral que se torna imposs&#x00ED;vel para ele ser meu m&#x00E9;dico. Falta-lhe algo como uma capacidade de percep&#x00E7;&#x00E3;o mais aguda (...). (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.134)</p></disp-quote>

			<p>J&#x00E1; sobre outros m&#x00E9;dicos Maura n&#x00E3;o poupou opini&#x00F5;es desfavor&#x00E1;veis, censurando e condenando seus modos de agir, especialmente na aplica&#x00E7;&#x00E3;o de tratamentos que julgava brutais. O m&#x00E9;dico que chama de Doutor J., por exemplo, era considerado por ela “completamente arbitr&#x00E1;rio”, mantendo as sess&#x00F5;es sob sua responsabilidade totalmente isoladas do resto do hospital, de tal forma que nem mesmo o diretor se intrometia nelas. Al&#x00E9;m disso era agressivo, de uma agressividade que se “bem dirigida seria &#x00F3;tima para o hospital”, mas que n&#x00E3;o era, pois ele “n&#x00E3;o encara o doente mental como devia faz&#x00EA;-lo. D&#x00E1; dezenas de eletrochoques, faz insulina e outros tratamentos – e de psicologia n&#x00E3;o entende bulhufas. Ignora se o doente tem problemas em casa, se foi traumatizado.” Maura achava que se Doutor J. fosse “submetido a psican&#x00E1;lise, talvez se torn[asse] um bom m&#x00E9;dico”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.85)</p>

			<p>Em outra passagem do di&#x00E1;rio Maura narrou acontecimentos relativos a sua segunda interna&#x00E7;&#x00E3;o no hospital, quando ficara algum tempo em uma sess&#x00E3;o criada para abrigar “as doentes mais agitadas e agressivas, aquelas que deveriam ir para a col&#x00F4;nia”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 44) Estando l&#x00E1;, ap&#x00F3;s entrar em choque com a enfermeira da sess&#x00E3;o, e jogar um copo d’&#x00E1;gua no rosto de Doutor J., Maura fora levada ao quarto-forte e, segundo ela, sua rotina, desde ent&#x00E3;o resumira-se ao “seguinte regime: quarto-forte. Inje&#x00E7;&#x00E3;o para dormir.Viol&#x00EA;ncia das guardas. Mais quarto-forte. Mais viol&#x00EA;ncia das guardas. Quarto-forte (&#x00E0;s vezes dormindo no ch&#x00E3;o de cimento frio). Assim sucessivamente. Fuga.”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.46) </p>

			<p>Na narrativa de Maura, Doutor J. – homem de “deseleg&#x00E2;ncia absurda”, de comportamento “lastim&#x00E1;vel” – &#x00E9; citado como sin&#x00F4;nimo do que havia de pior no corpo m&#x00E9;dico da institui&#x00E7;&#x00E3;o, com quem entrou em confronto diversas vezes: </p>

						<disp-quote><p>– O senhor &#x00E9; arbitr&#x00E1;rio e irrespons&#x00E1;vel. Deu-me um eletrochoque quando fui sua paciente, sei que h&#x00E1; contra indica&#x00E7;&#x00E3;o no meu caso. Possuo dois eletroencefalogramas anormais, fui v&#x00ED;tima de crises convulsivas at&#x00E9; quinze anos. Um dos eletros est&#x00E1; dentro da minha papeleta, ou ficha. Como meu m&#x00E9;dico, o senhor devia ter-se inteirado antes, e o respeitado. Fez o eletrochoque por vingan&#x00E7;a e para castigar-me. Este m&#x00E9;todo &#x00E9; muito usado pelos psiquiatras sei. Eletrochoque devia ser tratamento, e n&#x00E3;o instrumento de vingan&#x00E7;a em m&#x00E3;os de irrespons&#x00E1;veis. Mas aqui at&#x00E9; as guardas amea&#x00E7;am doentes com eletrochoques, trazendo-as em constante estado de tens&#x00E3;o nervosa. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.42).</p></disp-quote>

		</sec>
		
		<sec id="S5">
			<title>PROBLEMATIZA&#x00C7;&#x00D5;ES DE MAURA (III): STOS, LUGARES FORA DO LUGAR </title>

			<p>Ao lado dos eletrochoques, das aplica&#x00E7;&#x00F5;es de insulina, da reclus&#x00E3;o no quarto-forte e da lobotomia – a que fora submetida, por exemplo, Madruga, mo&#x00E7;a rica, “inteligente, expressava-se com facilidade” e que ficou “completamente imbecilizada” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.88) –, que horrorizavam e amedrontavam Maura, e as quais ela resistiu de diferentes maneiras, inclusive pela escrita, havia no hosp&#x00ED;cio algo digno de sua admira&#x00E7;&#x00E3;o. Na “cidade triste”, no “cemit&#x00E9;rio sem flor e sem piedade”, inacreditavelmente, brotava arte, brotava solidariedade, e isto fazia Maura gostar (as vezes) do hospital. Ela se referia ao Servi&#x00E7;o de Ocupa&#x00E7;&#x00E3;o Terap&#x00EA;utica do CPN (STO) e ao pequeno servi&#x00E7;o coordenado pela enfermeira Dalmatie no HGR. </p>

			<p>Como lemos p&#x00E1;ginas atr&#x00E1;s, o STO do CPN foi implementado pela psiquiatra Nise da Silveira em 1946. Em 1959, Maura o descreveu como ocupando todo um pavilh&#x00E3;o e composto por v&#x00E1;rias salas, como as de m&#x00FA;sica, tecelagem, pintura, encaderna&#x00E7;&#x00E3;o, bordados, al&#x00E9;m do sal&#x00E3;o de beleza e do museu, onde estavam guardados os quadros pintados por alguns dos internos do CPN. Segundo ela, </p>

						<disp-quote><p>...pacientes daqui que se comparam aos maiores pintores do mundo. Futuramente, Rafael, Em&#x00ED;dio, Isaac, Adelina, Carlos e outros ter&#x00E3;o seus nomes citados com o mesmo respeito com que se citam Van Gogh e os monstros das artes pl&#x00E1;sticas. Mesmo j&#x00E1; se fala nestes artistas e o <italic>Suplemento Liter&#x00E1;rio do Jornal do Brasil</italic> tem se interessado por eles. &#x00C9; deveras impressionante o poder pl&#x00E1;stico de express&#x00E3;o no doente mental. Perdidos no seu mundo indevass&#x00E1;vel, incapazes de comunica&#x00E7;&#x00E3;o verbal, totalmente dissociados, alcan&#x00E7;am, atrav&#x00E9;s da pintura, o que centenas de milhares de artistas do mundo todo tentam em v&#x00E3;o. Os artistas daqui jamais falam – a n&#x00E3;o ser atrav&#x00E9;s de tra&#x00E7;os e de cores. Rafael foi considerado por J&#x00FA;lio Braga, cr&#x00ED;tico, um dos maiores desenhistas do mundo ocidental. Arag&#x00E3;o, chegou ao concretismo sem nenhuma comunica&#x00E7;&#x00E3;o com o grupo de artistas concretistas. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 81).</p></disp-quote>

			<p>Mesmo encantada com as possibilidades do que se produzia no STO, Maura n&#x00E3;o deixou de criticar a atua&#x00E7;&#x00E3;o das funcion&#x00E1;rias, respons&#x00E1;veis por levar os internos de todos os hospitais do complexo para o STO que, ou n&#x00E3;o faziam isto, preferindo ficar conversando “fiado”; ou, quando o faziam, tratavam “todos como se tivessem os mesmo problemas”, sem indagar “o grau de instru&#x00E7;&#x00E3;o de nenhum”, tentando obrig&#x00E1;-los a “fazer trabalhos chat&#x00ED;ssimos.” Acreditava que tais comportamentos colocavam em risco tudo pelo que lutava a doutora Nise, estragando o que podia ser muito eficiente como terap&#x00EA;utica, portanto, gostaria de alertar a psiquiatra para as falhas que reconhecia, mas tinha d&#x00FA;vidas se aquela lhe daria ouvidos: “Mas como fazer-me ouvir por ela? Pode julgar que ando com mania de persegui&#x00E7;&#x00E3;o. N&#x00E3;o &#x00E9; verdade: prescindo das funcion&#x00E1;rias, vou sozinha porque tenho ordens do m&#x00E9;dico. Preocupo-me com as outras, presas o dia todo no hosp&#x00ED;cio.” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, pp. 81-82). </p>

			<p>Maura preferia, assim, ficar no “servi&#x00E7;ozinho” criado para as internas do HGR pela enfermeira Dalmatie, uma profissional admirada por ela e retratada sempre com carinho:</p>

						<disp-quote><p>Dona Dalmatie est&#x00E1; lutando bravamente para conseguir mant&#x00EA;-lo, desapontando todo o pessoal do hospital, que, evidentemente, esperava venc&#x00EA;-la desta vez. Ela &#x00E9; a funcion&#x00E1;ria mais desajustada em todo o Servi&#x00E7;o Nacional de Doen&#x00E7;as Mentais. &#x00C9; a enfermeira mais criticada e combatida do Brasil. Seu crime &#x00E9; digno de pena m&#x00E1;xima num tribunal de justi&#x00E7;a: ama sua profiss&#x00E3;o, ama os doentes e luta por eles. Jamais se alia a seus colegas, (...) entrando em choque com funcion&#x00E1;rios, at&#x00E9; m&#x00E9;dicos. Aponta o que reconhece ser injusto, arbitr&#x00E1;rio e S&#x00C1;DICO. Defende o pouco que ainda resta de direitos humanos nos psicopatas (ou como tais considerados). Dona Dalmatie &#x00E9; adorada pelas internas. Trabalha h&#x00E1; v&#x00E1;rios anos nesse servi&#x00E7;o, e, se m&#x00E9;dicos, enfermeiras e guardas n&#x00E3;o a apreciam, desconhe&#x00E7;o uma doente que n&#x00E3;o lhe queira bem.(Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.54).</p></disp-quote>

			<p>Segundo Maura, o servi&#x00E7;o terap&#x00EA;utico do HGR n&#x00E3;o tinha qualquer apoio institucional, sofrendo uma campanha contr&#x00E1;ria, por exemplo, de outra enfermeira, Dona J&#x00FA;lia, que dissera que ele n&#x00E3;o ia “dar em nada, porque dona Dalmatie &#x00E9; louca”. Mas mesmo assim “esta mulher extraordin&#x00E1;ria partiu da estaca zero (...) no p&#x00E1;tio que lhe foi dado para o servi&#x00E7;o, numa esp&#x00E9;cie de galp&#x00E3;o, [e] iniciou os trabalhos sob a zombaria dos colegas”. A “ocupa&#x00E7;&#x00E3;o” era mantida com materiais trazidos de casa – “sacos desfeitos, linhas, tesouras, at&#x00E9; m&#x00E1;quina de fazer caf&#x00E9;” –, ou comprados por Dona Dalmatie – “linha, l&#x00E3;, agulha, o essencial para qualquer trabalho manual (...) e at&#x00E9; cigarros para as doentes [pois] quase todas as internadas fumam, sentem-se inquietas com a falta de cigarros” –, e a colabora&#x00E7;&#x00E3;o das “pacientes, que s&#x00F3; fazem bordados, tric&#x00F4;, etc.”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, pp. 66-67) Mesmo, com todos os empecilhos, a “ocupa&#x00E7;&#x00E3;o” persistiu, inclusive com a prepara&#x00E7;&#x00E3;o de uma exposi&#x00E7;&#x00E3;o de bordados das internas, que Maura n&#x00E3;o confirmou se de fato ocorreu. O que ela fez foi ressaltar os significados deste espa&#x00E7;o para ela e as demais mulheres que o frequentavam: </p>

						<disp-quote><p>Jamais percebi um pouquinho de felicidade nas doentes deste hospital. O que se passa agora &#x00E9; in&#x00E9;dito: quando est&#x00E3;o trabalhando, n&#x00E3;o parecem estar num hospital de doentes mentais: alegres, rindo, trabalhando. Creio ter sido a melhor coisa que j&#x00E1; se fez aqui em mat&#x00E9;ria de Terap&#x00EA;utica. Gostaria de falar ao diretor, apontar-lhe os resultados, o entusiasmo das doentes. Mas como chegar a ele, se n&#x00E3;o me ouve, me encara como psicopata – e pronto? (...) &#x00C9; desumano perturbar o pouquinho de felicidade desfrutado pelas pacientes. J&#x00E1; estive internada tr&#x00EA;s vezes aqui, o hospital era um t&#x00FA;mulo. Juro n&#x00E3;o me preocupar por mim, mas pelas outras. Tenho muitas defesas – elas n&#x00E3;o. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 67).</p>

						<p>Estou gostando do hospital. Passamos parte da manh&#x00E3; e da tarde trabalhando entusiasmadas, em meio a montes de l&#x00E3;s, tapetes, coisas e coisas: Sinto-me &#x00FA;til. Depois de duas horas, quando dona Dalmatie vai para casa, continuamos trabalhando. Se me canso e amea&#x00E7;o subir para a se&#x00E7;&#x00E3;o, todas protestam: “– Se for eu vou tamb&#x00E9;m”. &#x00C9; agrad&#x00E1;vel para mim e fico at&#x00E9; a hora do jantar. Gosto de todas. Gasto mais de tr&#x00EA;s carteiras de cigarros com elas. Nestas horas parece mentira que estejamos em hospital de doen&#x00E7;as mentais: conversam, fazem brincadeiras, ningu&#x00E9;m briga. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 91).</p></disp-quote>

		</sec>
		
		<sec id="S6">
			<title>CONCLUINDO A CAMINHADA: PEDAGOGIA, TERAP&#x00CA;UTICA E VERDADE NO DI&#x00C1;RIO DE UMA “HOSPICIADA”</title>

			<p>As problematiza&#x00E7;&#x00F5;es produzidas por Maura em seu di&#x00E1;rio e expostas at&#x00E9; agora, que constitu&#x00ED;ram um regime de verdade pr&#x00F3;prio sobre a vida institucional, gestadas por meio de jogos entre aquele e discursos diversos (cient&#x00ED;ficos especialmente), que circulavam e circunscreviam o mundo institucional, como disse anteriormente, s&#x00E3;o marcadas por outra problematiza&#x00E7;&#x00E3;o que parece constituir a base para que as demais possam ganhar forma: a rela&#x00E7;&#x00E3;o de Maura com a escrita, com a literatura e, assim, o sentido que d&#x00E1; a sua narrativa. Quest&#x00E3;o esta que levantei como central no in&#x00ED;cio deste texto, ou seja: seria a narrativa no di&#x00E1;rio um exerc&#x00ED;cio terap&#x00EA;utico subjetivante, ou um testemunho pedag&#x00F3;gico que visava mais do que qualquer coisa ensinar sobre o mundo da loucura e da institucionaliza&#x00E7;&#x00E3;o? Dedico-me, doravante, a refletir sobre tal buscando chegar ao fim da caminhada proposta.</p>

			<p>Em seu livro sobre Lima Barreto, Hidalgo construiu uma s&#x00ED;ntese das quest&#x00F5;es apresentadas pelo autor em seu di&#x00E1;rio: </p>

						<disp-quote><p>No relato de si realizado na condi&#x00E7;&#x00E3;o de interno, o autor conjugou elementos dispersos e fragmentados que remetiam muitas vezes a ele mesmo. Comp&#x00F4;s descri&#x00E7;&#x00F5;es do hosp&#x00ED;cio, com sua hierarquia, rotina, m&#x00E9;dicos, funcion&#x00E1;rios, doentes, inserindo-se no contexto. Registrou reclama&#x00E7;&#x00F5;es sobre a inadapta&#x00E7;&#x00E3;o ao cotidiano do hosp&#x00ED;cio e a revolta pela interna&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; sua revelia. Empreendeu uma auto-an&#x00E1;lise: fracassos, problemas familiares. Formulou cr&#x00ED;ticas a sociedade como sistema (...). Inscreveu autoconfiss&#x00F5;es, desabafos existenciais, teorias sobre a loucura e literatura baseadas em sua experi&#x00EA;ncia. Recolheu cita&#x00E7;&#x00F5;es de autores diletos e informa&#x00E7;&#x00F5;es t&#x00E3;o pr&#x00E1;ticas como o n&#x00FA;mero de telefone de um amigo editor. (Hidalgo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT18">2008</xref>, p.50)</p></disp-quote>

			<p>Vimos ao longo deste texto que praticamente tudo o que foi identificado, na cita&#x00E7;&#x00E3;o anterior, como presente na narrativa de Lima, &#x00E0; exce&#x00E7;&#x00E3;o da interna&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; sua revelia, pode ser visualizado na narrativa de Maura. Al&#x00E9;m disto, tamb&#x00E9;m Lima apresentou alguns aspectos positivos de sua estada no hosp&#x00ED;cio, que faziam – assim como para Maura –, que se sentisse fora daquele lugar, como a exist&#x00EA;ncia de uma boa biblioteca, onde passava seus dias lendo e escrevendo. (Barreto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2010</xref>) Outro aspecto importante problematizado em suas narrativas diz respeito &#x00E0; inten&#x00E7;&#x00E3;o de publiciza&#x00E7;&#x00E3;o de seus di&#x00E1;rios. </p>

			<p>Alfredo Bosi (<xref ref-type="bibr" rid="CIT08">2010</xref>) citou em seu pref&#x00E1;cio &#x00E0; compila&#x00E7;&#x00E3;o <italic>Di&#x00E1;rio do Hosp&#x00ED;cio; Cemit&#x00E9;rio dos Vivos</italic>, que Lima teria revelado a um jornalista, ainda quando interno no Hosp&#x00ED;cio Nacional de Alienados, seus planos de trabalho para quando estivesse “pronto para voltar ao mundo”. Destes constava a publica&#x00E7;&#x00E3;o de <italic>Cemit&#x00E9;rio dos Vivos</italic> baseado nas notas de seus di&#x00E1;rio, onde coligira “observa&#x00E7;&#x00F5;es interessant&#x00ED;ssimas para escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos”. (Lima Barreto <italic>apud</italic> Bosi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">2010</xref>, p. 33)</p>

			<p>Tudo faz crer, e nisso concordam muitos analistas da obra de Lima Barreto, que o autor ao come&#x00E7;ar a escrever seu di&#x00E1;rio, tinha j&#x00E1; em mente o projeto do livro. Quanto a Maura esta inten&#x00E7;&#x00E3;o n&#x00E3;o &#x00E9; t&#x00E3;o clara. H&#x00E1; posi&#x00E7;&#x00F5;es contraversas em seu texto, idas e vindas em torno da qualidade ou n&#x00E3;o de sua escrita, da validade ou n&#x00E3;o de tornar p&#x00FA;blica sua narrativa. Ainda no primeiro dia datado do di&#x00E1;rio, vinte e cinco de outubro de 1959, escreveu:</p>

						<disp-quote><p>Aqui estou de novo nesta “cidade triste”, &#x00E9; daqui que escrevo. N&#x00E3;o sei se rasgarei estas p&#x00E1;ginas, se as darei ao m&#x00E9;dico, se as guardarei para serem lidas mais tarde. N&#x00E3;o sei se t&#x00EA;m algum valor. Ignoro se tenho algum valor, ainda no sofrimento. Sou uma que veio voluntariamente para esta cidade – e talvez seja a &#x00FA;nica diferen&#x00E7;a. Com o que escrevo poderia mandar aos que “n&#x00E3;o sabem” uma mensagem do nosso mundo sombrio. Dizem que escrevo bem. N&#x00E3;o sei. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.31)</p></disp-quote>

			<p>Maura sabia que muitas internas escreviam, por&#x00E9;m tamb&#x00E9;m que “o que escrevem n&#x00E3;o chega a ningu&#x00E9;m”, pois “parecem faz&#x00EA;-lo para elas mesmas”. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.31) Ela mesma n&#x00E3;o entendia as mensagens de suas companheiras de hospital e, neste sentido, podia se tornar a tradutora adequada – com o capital que detinha, o da boa escrita –, para todas as mensagens cifradas de quem vivia no anonimato da exclus&#x00E3;o e marginalidade do hosp&#x00ED;cio. Foi assim que, em trecho de dezesseis de novembro de 1959, expressou o desejo de transformar o relato di&#x00E1;rio em um livro que permitisse aos leitores conhecer em profundidade – a profundidade daqueles que vivem a experi&#x00EA;ncia da loucura e da interna&#x00E7;&#x00E3;o –, o mundo dos hospitais psiqui&#x00E1;tricos: </p>

						<disp-quote><p>Gostaria de escrever um livro sobre o hospital e como se vive aqui. S&#x00F3; quem passa anonimamente por este lugar pode conhec&#x00EA;-lo. Eu sou apenas um prefixo no peito do uniforme. Um n&#x00FA;mero a mais. &#x00C0; noite em nossas camas, somos contadas como se deve fazer com os criminosos nos pres&#x00ED;dios. Pretendo mesmo escrever um livro. Talvez j&#x00E1; o esteja fazendo, n&#x00E3;o queria viv&#x00EA;-lo. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.55)</p></disp-quote>

			<p>O hosp&#x00ED;cio como uma pris&#x00E3;o, uma massa de seres homogeneizados pelo uniforme numerado, um mar de camas todas iguais, a viol&#x00EA;ncia de pr&#x00E1;ticas que atingiam a todos indiscriminadamente e um universo de dramas e sofrimentos diferentes: &#x00E9; algo sobre este mundo que o livro poderia ensinar. Neste sentido, transpor as p&#x00E1;ginas do di&#x00E1;rio – que foi constru&#x00ED;do e assim assumido, especialmente pelas mulheres, como um lugar privativo, no qual se poderia dizer, sem pudor, tudo o que se passava em seu &#x00ED;ntimo –, para um livro, seria fundamental. Somente quando o relato do vivido e escrito na urg&#x00EA;ncia do acontecimento transforma-se em algo diferente, um livro, que extrapola os muros da institui&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E9; que a fun&#x00E7;&#x00E3;o pedag&#x00F3;gica pode se cumprir. </p>

			<p>Por outro lado, Maura algumas vezes repudia qualquer forma de publiciza&#x00E7;&#x00E3;o do seu di&#x00E1;rio. N&#x00E3;o simplesmente desejando mant&#x00EA;-lo em seu lugar tradicional, o da intimidade; mas sim, porque considera seu di&#x00E1;rio o de algu&#x00E9;m em situa&#x00E7;&#x00E3;o extraordin&#x00E1;ria, “uma hospiciada”, como afirmou em um trecho de tr&#x00EA;s de janeiro de 1960: </p>

						<disp-quote><p>Meu di&#x00E1;rio &#x00E9; o que h&#x00E1; de mais importante para mim. Levanto-me da cama para escrever a qualquer hora, escrevo p&#x00E1;ginas e p&#x00E1;ginas – depois rasgo mais da metade, respeitando apenas, quase sempre, aquelas em que registro fatos ou minhas rela&#x00E7;&#x00F5;es com as pessoas. Justamente nestas rela&#x00E7;&#x00F5;es est&#x00E1; contida toda minha pobreza e superficialidade. N&#x00E3;o sei como algu&#x00E9;m, como eu, pode reagir da forma com que fa&#x00E7;o. Ser&#x00E1; deveras lastim&#x00E1;vel se este di&#x00E1;rio for publicado. N&#x00E3;o &#x00E9;, absolutamente, um di&#x00E1;rio &#x00ED;ntimo, mas t&#x00E3;o apenas o di&#x00E1;rio de uma hospiciada, sem sentir-se com direito a escrever as enormidades que pensa, suas belezas, suas verdades. Seria verdadeiramente escandaloso meu di&#x00E1;rio &#x00ED;ntimo – at&#x00E9; para mim mesma, porquanto sou multivalente, n&#x00E3;o me reconhe&#x00E7;o de uma p&#x00E1;gina para outra. Prefiro guardar minhas verdades, n&#x00E3;o p&#x00F4;-las no papel. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p. 121-2.)</p></disp-quote>

			<p>Maura recusa ao seu di&#x00E1;rio, no trecho citado, o lugar do que reconhecemos hoje como uma escrita de si (Foucault, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">1992</xref>), por n&#x00E3;o perceb&#x00EA;-lo como um lugar de autoconhecimento, o que um di&#x00E1;rio &#x00ED;ntimo propiciaria ao desvelar os rec&#x00F4;nditos de uma pessoa, com suas enormidades, belezas e verdades, mas tamb&#x00E9;m, dem&#x00F4;nios e culpas. Como se l&#x00EA; na cita&#x00E7;&#x00E3;o anterior, seu di&#x00E1;rio era para ela apenas um relato pobre e superficial de suas rela&#x00E7;&#x00F5;es no interior do hosp&#x00ED;cio e dos acontecimentos que vivenciava. Por&#x00E9;m, ao “captar o j&#x00E1; dito; reunir aquilo que se p&#x00F4;de ouvir ou ler, e isto com uma finalidade que n&#x00E3;o &#x00E9; nada menos do que a constitui&#x00E7;&#x00E3;o de si” (Foucault, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">1992</xref>, p.137), a perspectiva do di&#x00E1;rio como uma escrita de si &#x00E9; reativada, tendo este uma fun&#x00E7;&#x00E3;o terap&#x00EA;utica, funcionando como um cuidado de si: </p>

						<disp-quote><p>Preciso escrever. Passei uma tarde horrorosa. Comecei a me sentir mal &#x00E0;s quatro horas, e s&#x00F3; agora, onze horas da noite, estou um pouco tranquila. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.32)</p>

						<p>Escrevo sempre, isto me parece um ato de f&#x00E9;, de esperan&#x00E7;a. Ainda que tudo pare&#x00E7;a perdido (...), ainda que tudo pare&#x00E7;a perdido minha f&#x00E9; em mim mesma permanece. Nada consegue abalar a f&#x00E9; que tenho em mim. (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.138). </p></disp-quote>

			<p>Ora achando-se no dever de publicar o di&#x00E1;rio como forma de denunciar a vida na “cidade triste” e, assim, ensinar sobre o que n&#x00E3;o gostaria de estar vivendo; ora n&#x00E3;o desejando nada mais do que simplesmente escrever, porque isto era de fato o mais importante, Maura como j&#x00E1; sabemos acabou por publicar seu di&#x00E1;rio alguns anos depois desta interna&#x00E7;&#x00E3;o, em 1965. </p>

			<p>Esta oscila&#x00E7;&#x00E3;o entre o desejo de publicar ou n&#x00E3;o; a necessidade de escrever, mas a dificuldade em faz&#x00EA;-lo; a cren&#x00E7;a na qualidade de seu texto ou a descren&#x00E7;a na validade do que escreve por ser uma “hospiciada”, faz com que Maura ocupe o duplo lugar de escritora e escrevente, conforme enunciado por Barthes (<xref ref-type="bibr" rid="CIT05">1982</xref>). Ela &#x00E9; uma escritora! Assim se reconhece muitas vezes, defendendo seu lugar de distin&#x00E7;&#x00E3;o – por que escreve bem, por que &#x00E9; seu of&#x00ED;cio, por que &#x00E9; reconhecida, por que publica o que escreve – frente &#x00E0;quelas outras mulheres que dentro dos hosp&#x00ED;cios tanto escrevem, mas cujas mensagens n&#x00E3;o tem sentido ou n&#x00E3;o chegam a lugar algum. Mas &#x00E9; tamb&#x00E9;m uma escrevente! Isto pois usa o seu di&#x00E1;rio como forma de testemunhar sobre o cotidiano institucional; de explicar sua experi&#x00EA;ncia, e de suas colegas de interna&#x00E7;&#x00E3;o, com a loucura (a menina bonita e promessa de coisas boas que tornou-se uma “hospiciada”); e ainda, de ensinar como resistir ao mundo do hosp&#x00ED;cio. </p>

			<p>Maura foi escrevente e escritora. Bi&#x00F3;grafa de si e de outras. Sua narrativa &#x00E9; marcada pela intersec&#x00E7;&#x00E3;o entre o testemunhado e a fic&#x00E7;&#x00E3;o, recurso de que se valem (quase ou sempre) os escritores. Obedece seu texto ora a ordem do vivido, ora a ordem liter&#x00E1;ria (com seus procedimentos pr&#x00F3;prios, figuras de linguagem e elementos estil&#x00ED;sticos). Em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao cotidiano institucional do CPN, que visualizamos por meio das coisas ditas por Maura, motivadas segundo ela - e como lemos -, por desejos conflituosos de ensinar a outrem ou cuidar de si mesma, &#x00E9; certo que o texto de Maura &#x00E9; tamb&#x00E9;m um contundente documento que se contrap&#x00F5;e &#x00E0;s hist&#x00F3;rias oficiais da pr&#x00F3;pria institui&#x00E7;&#x00E3;o ou da assist&#x00EA;ncia psiqui&#x00E1;trica em geral, ou mesmo &#x00E0; hist&#x00F3;ria cr&#x00ED;tica constru&#x00ED;da por Nise da Silveira a partir de seu trabalho no STO do CPN e no MII. Constitui-se assim sua narrativa como uma terceira via interpretativa? N&#x00E3;o me parece ser esta a resposta correta. Prefiro dizer apenas que as coisas ditas por Maura s&#x00E3;o um instrumento portador de uma verdade ou, simplesmente, uma das verdades sobre o CPN, sobre as pr&#x00E1;ticas dos diversos agentes no campo “psi”, sobre a loucura e o louco, este “sofredor do ver” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1968</xref>).</p>
		</sec>
		
	</body>


	
	
	<back>
	
		<ack>
			<title>AGRADECIMIENTOS</title>

				<p>O artigo foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&#x00ED;fico e Tecnol&#x00F3;gico - Brasil e apresenta resultados do projeto de pesquisa “O ponto de vista dos loucos em percursos historiogr&#x00E1;ficos e antologias de vidas”. Processo: 309172/2015-2 - Chamada: Produtividade em Pesquisa - PQ 2015.</p>
		</ack>
		
		<sec id="notas">
			<title>NOTAS</title>
		
			<fn-group>
	
			<fn id="NOTE1"><label>1</label>
				<p>O Centro Psiqui&#x00E1;trico Nacional passou a chamar-se, a partir de 1965, Centro Psiqui&#x00E1;trico Pedro II e em 1999, com a municipaliza&#x00E7;&#x00E3;o do atendimento &#x00E0; sa&#x00FA;de no Rio de Janeiro, Instituto Municipal de Assist&#x00EA;ncia &#x00E0; Sa&#x00FA;de Nise da Silveira. Atualmente denomina-se Instituto Municipal Nise da Silveira.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE2"><label>2</label>
				<p>As institui&#x00E7;&#x00F5;es locais subordinadas ao Servi&#x00E7;o Nacional de Doen&#x00E7;as Mentais eram: Centro Psiqui&#x00E1;trico Nacional, Col&#x00F4;nia Juliano Moreira, Manic&#x00F4;mio Judici&#x00E1;rio Heitor Carrilho e Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, sendo que apenas os dois primeiros tinham fun&#x00E7;&#x00F5;es exclusivamente assistenciais m&#x00E9;dicas. (Braga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE3"><label>3</label>
				<p>Braga (<xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>) afirma que al&#x00E9;m das institui&#x00E7;&#x00F5;es pertencentes ao SNDM – ambulat&#x00F3;rios de higiene mental e o CPN – havia duas outras portas de entrada para quem necessitasse de assist&#x00EA;ncia no RJ, o Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil e os servi&#x00E7;os privados, para quem podia pagar.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE4"><label>4</label>
				<p>Segundo Dias (<xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>, p.55), Nise da Silveira “chamou de psiquiatria tradicional os trabalhos e m&#x00E9;todos de tratamento mais utilizados pela psiquiatria brasileira naquele momento. Na sua vis&#x00E3;o, divulgada muito tempo depois do prest&#x00ED;gio adquirido pela STO e pelo MII, os tratamentos da &#x00E9;poca eram de &#x00EA;nfase extremamente organicista, onde as explica&#x00E7;&#x00F5;es acerca das causas dos transtornos mentais e de comportamentos resultariam de dist&#x00FA;rbios biol&#x00F3;gicos e end&#x00F3;crinos, desconsiderando as explica&#x00E7;&#x00F5;es psicog&#x00EA;nicas ou deixando-as em um lugar secund&#x00E1;rio. Essas explica&#x00E7;&#x00F5;es, de base cartesiana, &#x00E9; que justificariam o uso do eletrochoque, do coma insul&#x00ED;nico, das psicocirurgias e das quimioterapias.”</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE5"><label>5</label>
				<p>Maiores detalhes sobre a organiza&#x00E7;&#x00E3;o do STO no CPN, cf. Dias (<xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>); sobre o desenvolvimento deste tipo de servi&#x00E7;o no CPN e em outros hospitais, na &#x00E9;poca, cf. Braga (<xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2013</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE6"><label>6</label>
				<p>O trecho citado foi originalmente publicado no livro: Silveira (<xref ref-type="bibr" rid="CIT33">1980</xref>), p. 13.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE7"><label>7</label>
				<p>O trecho citado foi originalmente publicado no artigo: Silveira (<xref ref-type="bibr" rid="CIT34">1966</xref>), p. 47.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE8"><label>8</label>
				<p>A perspectiva defendida por Nise da Silveira “de uma psiquiatria human&#x00ED;stica, ci&#x00EA;ncia estreitamente vinculada &#x00E0;s demais ci&#x00EA;ncias do homem” (Silveira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT35">2015</xref>, p.14), seu desejo de mergulhar no mundo interno dos esquizofr&#x00EA;nicos, imagens das obras produzidas por estes (pertencentes ao acervo do MII) e as tentativas de compreens&#x00E3;o das mesmas via a psicologia junguiana, podem ser vistas no livro <italic>Imagens do Inconsciente</italic> (primeira edi&#x00E7;&#x00E3;o de 1981), um dos produtos de um per&#x00ED;odo que se inicia logo ap&#x00F3;s a aposentadoria compuls&#x00F3;ria de sua autora, em 1975, e que se revela muito intenso em reflex&#x00F5;es sobre sua longa, criativa e frut&#x00ED;fera obra. Para melhor entender os desdobramentos do trabalho de Nise da Silveira frente ao STO e ao MII, os embates constantes dela e sua equipe com a psiquiatria tradicional, para al&#x00E9;m do per&#x00ED;odo enfocado neste texto,cf. tamb&#x00E9;m (Melo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2001</xref>; Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2003</xref>; Mello, <xref ref-type="bibr" rid="CIT23">2014</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE9"><label>9</label>
				<p>Segundo Scaramella (<xref ref-type="bibr" rid="CIT29">2010</xref>, p.84): “Entre sua primeira publica&#x00E7;&#x00E3;o no SDJB, em 1958, e sua &#x00FA;ltima publica&#x00E7;&#x00E3;o neste mesmo suplemento, em 1961, Maura esteve seis vezes internada no Engenho de Dentro, o que n&#x00E3;o a impediu de escrever e publicar a maioria de seus contos neste per&#x00ED;odo.”</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE10"><label>10</label>
				<p>A primeira edi&#x00E7;&#x00E3;o de <italic>Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; Deus</italic> &#x00E9; de 1965, publicada por Jos&#x00E9; &#x00C1;lvaro Editor; a segunda &#x00E9; de 1979, publicada pela Record; a terceira, a que utilizo neste texto, &#x00E9; de 1991 e foi publicada pelo C&#x00ED;rculo do Livro. Em 2015, a Aut&#x00EA;ntica Editora publicou uma caixa contendo os dois livros de Maura.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE11"><label>11</label>
				<p>Sobre a vida e obra de Lima Barreto h&#x00E1; uma produ&#x00E7;&#x00E3;o abundante, cf. por exemplo, (Hidalgo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT18">2008</xref>; Arantes, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">2008</xref>). Sobre a vida e obra de Rodrigo de Souza Le&#x00E3;o, cf. Parteka (<xref ref-type="bibr" rid="CIT26">2016</xref>). H&#x00E1; tamb&#x00E9;m, no Brasil, um conjunto de trabalhos com fontes narrativas produzidas por pessoas infames, como os de (Wadi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT37">2009</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT38">2010</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT39">2011</xref>; Borges, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">2010</xref>; Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT27">2005</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT28">2008</xref>; Mu&#x00F1;oz, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2010</xref>; Zara, <xref ref-type="bibr" rid="CIT41">2014</xref>; Wadi e Zara, <xref ref-type="bibr" rid="CIT40">2016</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE12"><label>12</label>
				<p>A maior parte dos estudos sobre Maura s&#x00E3;o oriundos do campo acad&#x00EA;mico da Literatura, como os de (Telles, <xref ref-type="bibr" rid="CIT36">2008</xref>; Silva, <xref ref-type="bibr" rid="CIT31">2008</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT32">2011</xref>; Musili, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">2014</xref>), mas h&#x00E1; tamb&#x00E9;m interessantes estudos oriundos das Ci&#x00EA;ncias Humanas, como os de (Scaramella, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">2010</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT30">2015</xref>; Cordeiro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">2014</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE13"><label>13</label>
				<p>Entendo jogo (jogo de verdade) na perspectiva de Foucault (<xref ref-type="bibr" rid="CIT16">2006b</xref>, p.282): “...quando digo ‘jogo’, me refiro a um conjunto de regras de produ&#x00E7;&#x00E3;o de verdade. N&#x00E3;o um jogo no sentido de imitar ou de representar...; &#x00E9; um conjunto de procedimentos que conduzem a um certo resultado, que pode ser considerado, em fun&#x00E7;&#x00E3;o de seus princ&#x00ED;pios e das suas regras de procedimento, v&#x00E1;lido ou n&#x00E3;o, ganho ou perda”.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE14"><label>14</label>
				<p>Esta percep&#x00E7;&#x00E3;o surgiu a partir de um trecho da primeira parte: “Procurei retratar-me at&#x00E9; os dezessete anos, embora fatos ocorridos dentro desta idade estejam registrados neste di&#x00E1;rio, em minhas conversas com o m&#x00E9;dico.” (Can&#x00E7;ado, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, p.26.).</p>
			</fn>
			
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			<title>BIBLIOGRAF&#x00CD;A</title>
				
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				  <name>
					  <surname>Arantes</surname>
					  <given-names>Marco Antonio</given-names>	  
				  </name>
			  </person-group>
			  <year>2008</year>
			  <article-title>Hosp&#x00ED;cio de doutores</article-title>
			  <source>Hist&#x00F3;ria, Ci&#x00EA;ncias, Sa&#x00FA;de – Manguinhos</source>
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			  <issue>1</issue>
			  <fpage>35</fpage>
			  <lpage>52</lpage>
			  <comment>[en l&#x00ED;nea], disponible en: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v15n1/04.pdf">http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v15n1/04.pdf</ext-link></comment>
			  <date-in-citation content-type="access-date">[consultado el 03/02/2017]</date-in-citation>
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			<ref id="CIT02">
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					  <surname>Can&#x00E7;ado</surname>
					  <given-names>Maura Lopes</given-names>	  
				  </name>
			  </person-group>
			  <source>Hosp&#x00ED;cio &#x00E9; Deus</source>
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					  <surname>Barreto</surname>
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			  <comment>Disserta&#x00E7;&#x00E3;o de Mestrado, [en l&#x00ED;nea], disponible en:  <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://ppghcs.coc.fiocruz.br/images/dissertacoes/dissertacao_andre_braga.pdf">http://ppghcs.coc.fiocruz.br/images/dissertacoes/dissertacao_andre_braga.pdf</ext-link></comment>
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			  <comment>Disserta&#x00E7;&#x00E3;o de Mestrado</comment>
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			  <publisher-name>Funda&#x00E7;&#x00E3;o Oswaldo Cruz, Programa de P&#x00F3;s-Gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Hist&#x00F3;ria das Ci&#x00EA;ncias e da Sa&#x00FA;de</publisher-name>
			  <comment>Disserta&#x00E7;&#x00E3;o de Mestrado [en linea], disponible en: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.ppghcs.coc.fiocruz.br/images/teses/diaspb.pdf">http://www.ppghcs.coc.fiocruz.br/images/teses/diaspb.pdf</ext-link></comment>
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