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				<journal-title>ASCLEPIO. Revista de Historia de la Medicina y de la Ciencia</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Asclepio</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">0210-4466</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
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			 <article-id pub-id-type="publisher-id">asclepio.2016.27</article-id>
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				<subject>ESTUDIOS / RESEARCH STUDIES</subject>
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				 <article-title>Imigra&#x00E7;&#x00E3;o, ci&#x00EA;ncia e sa&#x00FA;de: controle de riscos e expans&#x00E3;o de direitos na Bacia do Rio da Prata (1873-1911)</article-title>
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					<trans-title>Immigration, science and health: risks control and expanding rights in the Rio de la Plata Basin (1873-1911)</trans-title>
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				<alt-title alt-title-type="running-head">Imigra&#x00E7;&#x00E3;o, ci&#x00EA;ncia e sa&#x00FA;de: controle de riscos e expans&#x00E3;o de direitos na Bacia do Rio da Prata (1873-1911)</alt-title>
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			  <aff id="U1">Doutora em Hist&#x00F3;ria das Ci&#x00EA;ncias e da Sa&#x00FA;de, Instituto de Humanidades, Artes e Ci&#x00EA;ncias Milton Santos e Programa de P&#x00F3;s-Gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Ensino, Filosofia e Hist&#x00F3;ria das Ci&#x00EA;ncias da Universidade Federal da Bahia – IHAC/PPGEFHC-UFBA</aff>
			  
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				<corresp id="cor1"><email xlink:href="fernanda.rebelo@ufba.br">fernanda.rebelo@ufba.br</email></corresp>
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				<year>2016</year>
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			<issue>2</issue>
			
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					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution (CC BY) Espa&#x00F1;a 3.0.</license-p>
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				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo analisa como o processo imigrat&#x00F3;rio nos pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata, em especial Brasil e Argentina, promoveu inflex&#x00F5;es na assinatura de acordos sanit&#x00E1;rios no final do s&#x00E9;culo XIX. O porto &#x00E9; compreendido como um dispositivo onde se definem saberes e normas e se estabelecem interven&#x00E7;&#x00F5;es sobre as popula&#x00E7;&#x00F5;es em tr&#x00E2;nsito, em especial imigrantes. Os entraves na assinatura de conven&#x00E7;&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias entre estes pa&#x00ED;ses estavam n&#x00E3;o s&#x00F3; relacionados &#x00E0;s controv&#x00E9;rsias no interior das comunidades m&#x00E9;dico-cient&#x00ED;ficas como tamb&#x00E9;m &#x00E0;s tens&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas e econ&#x00F4;micas vinculadas &#x00E0; disputa por m&#x00E3;o de obra imigrante. Nas primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX, assistimos a um deslocamento de interesses e problemas relacionados &#x00E0; sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica. N&#x00E3;o bastava mais s&#x00F3; conter epidemias, os estados nacionais deveriam garantir certos benef&#x00ED;cios &#x00E0;s popula&#x00E7;&#x00F5;es, em especial associados &#x00E0; assist&#x00EA;ncia &#x00E0; sa&#x00FA;de. Esta nova perspectiva &#x00E9; analisada a partir das compreens&#x00F5;es e usos da ideologia liberal no que diz respeito &#x00E0; auto-regula&#x00E7;&#x00E3;o dos riscos, &#x00E0; coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o de bem-estar e &#x00E0; expans&#x00E3;o de direitos civis e sociais, alavancados, em parte, pela inclus&#x00E3;o da popula&#x00E7;&#x00E3;o imigrante nestas sociedades.</p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This paper analyzes how immigration process in the Rio de Plata Basin countries, specifically Brazil and Argentina, promoted inflexions in the sanitations agreements in the end of 19th century. The port is a device within in which are defined knowledge and standards and are established interventions on people in transit, particularly immigrants. The barriers in the agreements between these countries were not only related to controversies within medical and scientific communities but also to political and economics tensions linked to the labor immigrants disputes. In the beginning of 20th century, we can see a shift of interest and issues related to public health: epidemic control was not enough. The states must guarantee some benefits to the populations, especially heath care. This new view is analyzed according to the understanding and uses of the liberal ideology concerning risk self-regulations, collectivization of welfare and expanding of civil and social rights. This process is leveraged in parts by the inclusion of the immigrants in theses societies.</p>
			</trans-abstract>
			
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				<title>PALAVRAS-CHAVE</title> 
				<kwd>Imigra&#x00E7;&#x00E3;o</kwd>	
				<kwd>Diplomacia</kwd>
				<kwd>Epidemias</kwd>
				<kwd>Am&#x00E9;rica do sul</kwd>
				<kwd>Biopol&#x00ED;tica</kwd>
			</kwd-group>
			
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				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>Immigration</kwd>	
				<kwd>Diplomacy</kwd>
				<kwd>Outbreaks</kwd>
				<kwd>South America</kwd>
				<kwd>Biopolitcs</kwd>
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		<sec id="S1">
		
			<title>INTRODU&#x00C7;&#x00C3;O</title>

			<p>A partir da &#x00FA;ltima metade do s&#x00E9;culo XIX, diferentes pa&#x00ED;ses, tanto no continente europeu, quanto no americano, passaram a contemplar alguma forma de coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria. Pretende-se analisar este processo a partir da compreens&#x00E3;o do porto enquanto um dispositivo onde se definem saberes e normas e se estabelecem interven&#x00E7;&#x00F5;es sobre as popula&#x00E7;&#x00F5;es<xref ref-type="fn" rid="NOTE1">1</xref>em tr&#x00E2;nsito, em especial imigrantes. Estas interven&#x00E7;&#x00F5;es s&#x00E3;o baseadas nos pressupostos da ci&#x00EA;ncia m&#x00E9;dica do s&#x00E9;culo XIX que informavam as pr&#x00E1;ticas de profilaxia sanit&#x00E1;ria<xref ref-type="fn" rid="NOTE2">2</xref>.</p>

			<p>O problema das epidemias motivou a assinatura de conv&#x00EA;nios de coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria entre pa&#x00ED;ses com o intuito de proteger suas fronteiras para que doen&#x00E7;as n&#x00E3;o se alastrassem pelos territ&#x00F3;rios. Estes acordos come&#x00E7;aram a ser discutidos em confer&#x00EA;ncias, nas quais se reuniam representa&#x00E7;&#x00F5;es m&#x00E9;dicas e diplom&#x00E1;ticas para discutir como prevenir a entrada de enfermidades pelos portos, sem prejudicar o livre com&#x00E9;rcio. No entanto, algumas quest&#x00F5;es dificultavam a assinatura destes conv&#x00EA;nios e, consequentemente, a hegemoniza&#x00E7;&#x00E3;o das pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias nos portos como: controv&#x00E9;rsias cient&#x00ED;ficas entre as comunidades m&#x00E9;dicas; interesse pol&#x00ED;ticos e econ&#x00F4;micos de cada na&#x00E7;&#x00E3;o.</p>

			<p>Apesar das dificuldades dos pa&#x00ED;ses em chegarem a acordos para homogeneizar as pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias nos portos, na primeira d&#x00E9;cada do s&#x00E9;culo XX, tais pr&#x00E1;ticas encontram-se bem consolidadas gra&#x00E7;as &#x00E0;s conven&#x00E7;&#x00F5;es. No entanto, neste mesmo per&#x00ED;odo, identificamos um deslocamento de interesses no que diz respeito &#x00E0;s pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de. N&#x00E3;o bastava mais somente combater epidemias nas fronteiras e portos. O processo de constru&#x00E7;&#x00E3;o dos estados nacionais ditava a necessidade tamb&#x00E9;m de promover um maior cuidado para com a popula&#x00E7;&#x00E3;o, em especial relacionado &#x00E0; assist&#x00EA;ncia &#x00E0; sa&#x00FA;de. Al&#x00E9;m disso, a opini&#x00E3;o p&#x00FA;blica internacional, frente &#x00E0; emerg&#x00EA;ncia de um discurso humanit&#x00E1;rio, passa a dar uma maior aten&#x00E7;&#x00E3;o para as formas desumanas como ocorriam a travessia imigrat&#x00F3;ria, a recep&#x00E7;&#x00E3;o e o tratamento de imigrantes pelos pa&#x00ED;ses receptores de m&#x00E3;o de obra, especialmente na Am&#x00E9;rica do Sul.</p>

			<p>Neste artigo, defendo que o processo imigrat&#x00F3;rio e a assimila&#x00E7;&#x00E3;o de cidad&#x00E3;os europeus pelos pa&#x00ED;ses da Bacia do Prata deram origem &#x00E0; certas pol&#x00ED;ticas direcionadas &#x00E0; coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o de bem-estar e, consequentemente, &#x00E0; uma certa expans&#x00E3;o de direitos sociais. Este processo &#x00E9; fruto de alguns elementos que ser&#x00E3;o discutidos como a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre pa&#x00ED;ses imigrantistas e emigrantistas no que diz respeito a recep&#x00E7;&#x00E3;o de uma popula&#x00E7;&#x00E3;o estrangeiras de forma tutelada<xref ref-type="fn" rid="NOTE3">3</xref> —uma popula&#x00E7;&#x00E3;o livre, branca, assalariada e detentora de certos benef&#x00ED;cios em seus pa&#x00ED;ses de origem; a constru&#x00E7;&#x00E3;o de pol&#x00ED;ticas sociais, em especial de sa&#x00FA;de, direcionadas a certos grupos nos processos de constru&#x00E7;&#x00E3;o das na&#x00E7;&#x00F5;es; e as peculiaridades no que diz respeito &#x00E0; recep&#x00E7;&#x00E3;o e aplica&#x00E7;&#x00E3;o das ideias liberais nos pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata e sua rela&#x00E7;&#x00E3;o com as diversas formas de se pensar pol&#x00ED;ticas sociais de sa&#x00FA;de.</p>

			<p>Na primeira parte deste artigo, ser&#x00E3;o discutidas as diferen&#x00E7;as entre os modelos de conven&#x00E7;&#x00F5;es europeias e platinas. Em seguida, analisaremos as diferen&#x00E7;as entre as pr&#x00E1;ticas de profilaxia aplicadas nos portos dos pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata, em especial Brasil e Argentina, em um contexto de transi&#x00E7;&#x00E3;o dos pressupostos cient&#x00ED;ficos entre a teoria dos miasmas e a emerg&#x00EA;ncia da microbiologia, junto &#x00E0; compreens&#x00E3;o do papel dos insetos na transmiss&#x00E3;o de doen&#x00E7;as. Depois, trabalharemos as causas destas diferen&#x00E7;as que transitam entre controv&#x00E9;rsias no interior das comunidades m&#x00E9;dico-cient&#x00ED;ficas e tens&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas e econ&#x00F4;micas geradas pela disputa por m&#x00E3;o de obra imigrante entre Brasil, Argentina e Uruguai. Finalmente, mostraremos como a inclus&#x00E3;o da popula&#x00E7;&#x00E3;o imigrante nestas sociedades fomentou, em parte, as discuss&#x00F5;es a respeito da expans&#x00E3;o de direitos sociais, junto &#x00E0; recep&#x00E7;&#x00E3;o da ideologia liberal na regi&#x00E3;o que prega, ao inv&#x00E9;s da competi&#x00E7;&#x00E3;o, a concilia&#x00E7;&#x00E3;o de interesses entre as na&#x00E7;&#x00F5;es e a auto-regula&#x00E7;&#x00E3;o, inclusive dos riscos sociais. </p>

			<p>A experi&#x00EA;ncia com as epidemias teve papel determinante na percep&#x00E7;&#x00E3;o das elites pol&#x00ED;ticas sobre problemas sociais, dando origem &#x00E0; certas a&#x00E7;&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas. As doen&#x00E7;as passam a ser compreendidas como problema de natureza coletiva, interdependente<xref ref-type="fn" rid="NOTE4">4</xref>, em contexto local, e tema de debate da pol&#x00ED;tica internacional. A assist&#x00EA;ncia &#x00E0; sa&#x00FA;de &#x00E9; um cap&#x00ED;tulo importante na constitui&#x00E7;&#x00E3;o dos estados de bem-estar-social. A partir de meados do s&#x00E9;culo XIX, as confer&#x00EA;ncias sanit&#x00E1;rias internacionais foram f&#x00F3;runs de debates cient&#x00ED;ficos e diplom&#x00E1;ticos (Lima, <xref ref-type="bibr" rid="CIT68">2002</xref>, p.36).</p>

			<p>A primeira confer&#x00EA;ncia sanit&#x00E1;ria no continente europeu ocorreu em Paris, no ano de 1850. Nas primeiras confer&#x00EA;ncias e conven&#x00E7;&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias europeias, o moderno internacionalismo pode ser compreendido como produto do tamb&#x00E9;m moderno nacionalismo, junto &#x00E0; percep&#x00E7;&#x00E3;o do crescimento da depend&#x00EA;ncia m&#x00FA;tua entre pa&#x00ED;ses. O internacionalismo m&#x00E9;dico da metade do s&#x00E9;culo XIX percebe a doen&#x00E7;a como uma amea&#x00E7;a comum ao continente, uma amea&#x00E7;a que vem de fora, uma doen&#x00E7;a ex&#x00F3;tica. Por exemplo, uma doen&#x00E7;a asi&#x00E1;tica, no caso da c&#x00F3;lera (Bynum, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">1993</xref>, p. 423). </p>

			<p>O porto era compreendido como o local por onde as doen&#x00E7;as adentravam os territ&#x00F3;rios e se alastravam pelo interior do pa&#x00ED;s<xref ref-type="fn" rid="NOTE5">5</xref>. Portanto, o objetivo destas confer&#x00EA;ncias estava em diminuir e tornar mais precisas as pr&#x00E1;ticas de conten&#x00E7;&#x00E3;o de epidemias nos portos<xref ref-type="fn" rid="NOTE6">6</xref> sem comprometer as trocas comerciais e a livre circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas e bens<xref ref-type="fn" rid="NOTE7">7</xref>. </p>

			<p>O movimento pela investiga&#x00E7;&#x00E3;o em sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica tem origem no temor muito concreto das epidemias. Tal apreens&#x00E3;o suscitou tentativas de implementa&#x00E7;&#x00E3;o de politicas higi&#x00EA;nicas e sanit&#x00E1;rias comuns. Com o advento da teoria microbiana das doen&#x00E7;as, esse movimento promoveu um esfor&#x00E7;o de homogeneiza&#x00E7;&#x00E3;o das pr&#x00E1;ticas de laborat&#x00F3;rio utilizadas para reconhecer os agentes transmiss&#x00ED;veis. Isto foi estruturado atrav&#x00E9;s das confer&#x00EA;ncias sanit&#x00E1;rias internacionais (L&#x00F6;wy, <xref ref-type="bibr" rid="CIT47">2006</xref>, p. 32).</p>

			<p>Entre 1851 e 1938, ocorreram as confer&#x00EA;ncias europeias com o intuito de estudar em que medida poderia ser conceb&#x00ED;vel suprimir as quarentenas sem colocar em risco a sa&#x00FA;de da popula&#x00E7;&#x00E3;o, sendo a primeira conven&#x00E7;&#x00E3;o, o primeiro acordo sanit&#x00E1;rio entre na&#x00E7;&#x00F5;es europeias, assinada somente em 1896 em Veneza. A higiene torna-se, ent&#x00E3;o, uma quest&#x00E3;o n&#x00E3;o mais somente cient&#x00ED;fica, mas tamb&#x00E9;m diplom&#x00E1;tica (L&#x00F6;wy, <xref ref-type="bibr" rid="CIT47">2006</xref>, p. 33). </p>

			<p>Neste per&#x00ED;odo, ocorreram quatorze confer&#x00EA;ncias europeias, sendo que somente a 5ª, em 1881, foi realizada nos EUA, em Washington D.C. Todas as outras ocorreram em territ&#x00F3;rio europeu. A confer&#x00EA;ncia realizada em Washington marca a entrada dos norte-americanos no &#x00E2;mbito da a&#x00E7;&#x00E3;o diplom&#x00E1;tica no campo da sa&#x00FA;de e tamb&#x00E9;m a participa&#x00E7;&#x00E3;o, pela primeira vez, de na&#x00E7;&#x00F5;es latino-americanas como Argentina, Bol&#x00ED;via, Brasil, M&#x00E9;xico, Haiti, Venezuela, Chile e Peru. A febre amarela era a quest&#x00E3;o principal para os EUA. Em fun&#x00E7;&#x00E3;o dos surtos epid&#x00EA;micos desta doen&#x00E7;a no pa&#x00ED;s, os norte-americanos, entre 1857 e 1860, j&#x00E1; haviam realizado quatro Conven&#x00E7;&#x00F5;es Nacionais de Quarentena e Sa&#x00FA;de. A confer&#x00EA;ncia de 1881 deu continuidade &#x00E0;s suas pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de, interessadas no enfoque ao combate &#x00E0; febre amarela, doen&#x00E7;a considerada como origin&#x00E1;ria do Caribe e da Am&#x00E9;rica do Sul (Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>).</p>

			</sec>
			
			<sec id="S2">
			
			<title>CONVEN&#x00C7;&#x00D5;ES PLATINAS X CONVEN&#x00C7;&#x00D5;ES EUROPEIAS</title>

			<p>O movimento de coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria internacional surgiu da necessidade de controlar surtos epid&#x00EA;micos que atingiam grandes extens&#x00F5;es de terra e ultrapassavam as fronteiras legais constitu&#x00ED;das entre os pa&#x00ED;ses. No caso europeu, o objetivo era barrar dois inimigos comuns, a c&#x00F3;lera asi&#x00E1;tica e a peste levantina. No entanto, desde o ano de 1873, as rep&#x00FA;blicas platinas, Argentina e Uruguai, e o Imp&#x00E9;rio Brasileiro j&#x00E1; haviam come&#x00E7;ado um processo de coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria para resolver problemas causados pela epidemia de c&#x00F3;lera na Bacia do Prata, mas tamb&#x00E9;m o problema da febre amarela, ambos atrelados &#x00E0; corrente imigrat&#x00F3;ria (Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>). </p>

			<p>O internacionalismo nas confer&#x00EA;ncias sanit&#x00E1;rias europeias tinha seus limites, tanto pela exclus&#x00E3;o de doen&#x00E7;as consideradas como tropicais, como a febre amarela, que n&#x00E3;o era amea&#x00E7;a direta para o continente europeu, como na recusa a discutir as quest&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias ligadas &#x00E0; travessia de m&#x00E3;o de obra imigrante da Europa para a Am&#x00E9;rica (Bynum,<xref ref-type="bibr" rid="CIT14">1993</xref>, p.432).</p>

			<p>O ministro do interior argentino, Joaquim Gonzales, em 8 de abril de 1904, v&#x00E9;spera da conven&#x00E7;&#x00E3;o do Rio de Janeiro, exp&#x00F4;s o problema:</p>
			
						<disp-quote><p><italic>En Europa tambien se han celebrado varias conferencias sanit&#x00E1;rias desgraciadamente sin que hayamos sido invitados a ellas. En estos congresos, se ha tenido en cuenta solo dos enfermedades, el</italic> c&#x00F3;lera i la peste, esta &#x00FA;ltima unicamente en la &#x00FA;ltima conocida con el nombre de Conferencia de Venecia, em 1896. Como en general ha querido verse erroneamente en lo sancionado por estas reuniones, <italic>el</italic> c&#x00F3;digo sanit&#x00E1;rio general del mundo entero, conviene que nos detenhamos<italic> um instante para hacer ressaltar aunque sea someramente las diferencias primordiales que existen entre la Europa i nosotros respecto de estos puntos </italic>[sic.]<xref ref-type="fn" rid="NOTE8">8</xref> <xref ref-type="fn" rid="NOTE9">9</xref>.</p></disp-quote>

			<p>Pa&#x00ED;ses latino-americanos, em especial aqueles com fronteiras na Bacia do Prata, tinham demandas diferentes daquelas da Europa e criaram um modelo de confer&#x00EA;ncia distinto do europeu<xref ref-type="fn" rid="NOTE10">10</xref>. Entre Brasil, Argentina e Uruguai n&#x00E3;o havia o prop&#x00F3;sito coletivo de defesa que unia a Europa contra os inimigos comuns (a c&#x00F3;lera e a peste). Pelo contr&#x00E1;rio, a febre amarela, enfermidade n&#x00E3;o tomada em conta na Europa, residia, para os argentinos, endemicamente no Brasil. A proximidade entre seus portos era mais curta que o per&#x00ED;odo de incuba&#x00E7;&#x00E3;o da doen&#x00E7;a, que segundo se acreditava, era de oito dias<xref ref-type="fn" rid="NOTE11">11</xref>. </p>

			<p>Antes da assinatura das conven&#x00E7;&#x00F5;es platinas<xref ref-type="fn" rid="NOTE12">12</xref>, estas quest&#x00F5;es j&#x00E1; vinham sendo discutidas n&#x00E3;o s&#x00F3; pelas diplomacias dos pa&#x00ED;ses, mas tamb&#x00E9;m de forma mais ampla nas sociedades, como nos jornais de grande circula&#x00E7;&#x00E3;o. Em 16 de abril de 1873, por exemplo, um peri&#x00F3;dico uruguaio chamado <italic>El Siglo</italic> fez a seguinte pergunta &#x00E0;s autoridades sanit&#x00E1;rias argentinas quando estas pediram &#x00E0;s autoridades sanit&#x00E1;rias uruguaias que fechassem seus portos para navios procedentes do Brasil por causa da febre amarela: <italic>“Porque precavernos de las proced&#x00EA;ncias del Brasil, si tenemos aqui la misma epidemia que all&#x00ED; tienen?” </italic>[sic] (Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>, p. 73).</p>

			<p>Enquanto a Europa era invadida pela c&#x00F3;lera ou pela peste, cada na&#x00E7;&#x00E3;o tomava as medidas que acreditava eficazes num per&#x00ED;odo de transi&#x00E7;&#x00E3;o de pressupostos cient&#x00ED;ficos entre a higiene dos miasmas e a microbiologia<xref ref-type="fn" rid="NOTE13">13</xref>. Esta tomada de decis&#x00E3;o ocorria dentro das prescri&#x00E7;&#x00F5;es aceitas de comum acordo nas confer&#x00EA;ncias, com as modifica&#x00E7;&#x00F5;es impostas segundo interesses em jogo e as necessidades de cada Estado. Assim, existiam as conven&#x00E7;&#x00F5;es e os regulamentos sanit&#x00E1;rios distintos, o italiano, franc&#x00EA;s, ingl&#x00EA;s. H&#x00E1; algo mais importante e que caracterizava a natureza das confer&#x00EA;ncias sanit&#x00E1;rias europeias, diferenciando-as das conven&#x00E7;&#x00F5;es platinas. Aquelas eram confer&#x00EA;ncias encarregadas de buscar a f&#x00F3;rmula mais equitativa e adiantada para defender as na&#x00E7;&#x00F5;es contra a invas&#x00E3;o de flagelos. Os estados eram livres para aceitarem ou n&#x00E3;o as conclus&#x00F5;es e poderiam adotar todas ou algumas delas<xref ref-type="fn" rid="NOTE14">14</xref>. </p>

			<p>Muito diferente era o car&#x00E1;ter e natureza das conven&#x00E7;&#x00F5;es platinas. Aprovadas as resolu&#x00E7;&#x00F5;es pela diplomacia dos pa&#x00ED;ses contratantes, elas eram submetidas &#x00E0; aprova&#x00E7;&#x00E3;o dos congressos nacionais respectivos para serem transformadas em tratados solenes, que tinham que ser aceitos sem modifica&#x00E7;&#x00E3;o alguma das cl&#x00E1;usulas.</p>

			<p>De acordo com o ministro das rela&#x00E7;&#x00F5;es exteriores argentino, Jos&#x00E9; Terry, para unificar a profilaxia sanit&#x00E1;ria entre os quatro pa&#x00ED;ses contratantes desta conven&#x00E7;&#x00E3;o (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), era necess&#x00E1;rio fazer “abstra&#x00E7;&#x00F5;es das quest&#x00F5;es cient&#x00ED;ficas que deveriam ser estudadas mais tarde”. </p>
			
						<disp-quote><p><italic>De este hecho diferencial tan importante, se desprende la necesidad de tomar resoluciones que no respondan unicamente &#x00E1; los adelantos y dictados de la ciencia pura, hermosa en sus concepciones generales, pero dificiles de ser llevadas &#x00E1; la pr&#x00E1;ctica dadas las condiciones y recursos del terreno en que van &#x00E1; ser aplicados</italic><xref ref-type="fn" rid="NOTE15">15</xref> [sic.].</p></disp-quote>

			<p>Ou seja, n&#x00E3;o era poss&#x00ED;vel aplicar os pressupostos cient&#x00ED;ficos rigorosamente na elabora&#x00E7;&#x00E3;o dos acordos dada as imensas diferen&#x00E7;as de salubridades entre tais na&#x00E7;&#x00F5;es. Enquanto existisse endemicamente a febre amarela no Brasil e enquanto, no Paraguai, houvesse uma car&#x00EA;ncia de institui&#x00E7;&#x00F5;es de defesa sanit&#x00E1;ria, eficazes para salvaguardar a sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica. A Argentina, considerada, pelas suas autoridades de sa&#x00FA;de, a mais adiantada das na&#x00E7;&#x00F5;es do ponto de vista sanit&#x00E1;rio, tinha imensos interesses comerciais para defender, <italic>“intereses que se encuentran sujeitos a cada instante &#x00E1; las vaivenes de uma pol&#x00ED;tica sanitaria, que no se ha caracterizado durante estos &#x00FA;ltimos a&#x00F1;os por su estabilidad” </italic>[sic]<xref ref-type="fn" rid="NOTE16">16</xref>.</p>

			<p>Assim, pode-se abrir esta an&#x00E1;lise para a seguinte pergunta: por que pa&#x00ED;ses possu&#x00ED;am pol&#x00ED;ticas de profilaxia diferentes, ainda que tivessem problemas epidemiol&#x00F3;gicos similares?<xref ref-type="fn" rid="NOTE17">17</xref> Uma das fontes explicativas para a resposta pode estar na conex&#x00E3;o entre o sistema pol&#x00ED;tico e cultural e o modo de compreens&#x00E3;o das doen&#x00E7;as contagiosas, ou seja, a aproxima&#x00E7;&#x00E3;o entre pol&#x00ED;tica e ci&#x00EA;ncia<xref ref-type="fn" rid="NOTE18">18</xref> <xref ref-type="fn" rid="NOTE19">19</xref>. </p>

			</sec>
			
			<sec id="S3">
			
			<title>POL&#x00CD;TICA, CI&#x00CA;NCIA E SA&#x00DA;DE</title>

			<p>Para Chaves (<xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2006</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>), o surgimento de conven&#x00E7;&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias entre Brasil, Argentina e Uruguai integra-se ao movimento sanit&#x00E1;rio j&#x00E1; existente na Europa e EUA, compartilhando da concep&#x00E7;&#x00E3;o de que somente o poder p&#x00FA;blico poderia solucionar os problemas de sa&#x00FA;de da popula&#x00E7;&#x00E3;o e os problemas econ&#x00F4;micos advindos das doen&#x00E7;as epid&#x00EA;micas. As conven&#x00E7;&#x00F5;es platinas de 1873 e 1887 s&#x00E3;o analisadas em uma perspectiva de integra&#x00E7;&#x00E3;o a eventos similares na Europa e Am&#x00E9;rica do Norte, a partir da segunda metade do s&#x00E9;culo XIX, como se fizessem parte de um movimento internacional de combate &#x00E0;s epidemias. Uma historiografia mais cl&#x00E1;ssica da sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica, como o trabalho pioneiro de Howard-Jones (<xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1975</xref>), adota esses acontecimentos como fen&#x00F4;menos distintos.</p>

			<p>Com intuito de dialogar um pouco com estas duas perspectivas de an&#x00E1;lise, &#x00E9; oportuno ressaltar que existiam demandas distintas e particularidades nas rela&#x00E7;&#x00F5;es entre os tr&#x00EA;s pa&#x00ED;ses —Argentina, Brasil e Uruguai— que &#x00E9; preciso levar em considera&#x00E7;&#x00E3;o. Estas particularidades tem conex&#x00E3;o com o aceite ou rejei&#x00E7;&#x00E3;o, pelas comunidades cient&#x00ED;ficas, dos novos pressupostos manipulados ent&#x00E3;o pela teoria dos germes, junto &#x00E0; emerg&#x00EA;ncia da compreens&#x00E3;o dos insetos vetores na transmiss&#x00E3;o de doen&#x00E7;as infecciosas. Especialmente o papel do mosquito na transmiss&#x00E3;o da febre amarela<xref ref-type="fn" rid="NOTE20">20</xref> e o da pulga do rato na transmiss&#x00E3;o da peste bub&#x00F4;nica. </p>

			<p>Um outro ponto que deve-se tamb&#x00E9;m levar em considera&#x00E7;&#x00E3;o diz respeito &#x00E0;s disputas entre Brasil e Argentina pela m&#x00E3;o de obra imigrante, important&#x00ED;ssima para a economia destes pa&#x00ED;ses. Finalmente, tamb&#x00E9;m precisamos atentar para a quest&#x00E3;o da hegemonia pol&#x00ED;tica no &#x00E2;mbito da Bacia do Prata, local de extrema import&#x00E2;ncia econ&#x00F4;mica para o com&#x00E9;rcio de ambos pa&#x00ED;ses. Estes interesses, por sua vez, n&#x00E3;o podem ser compreendidos sem relacion&#x00E1;-los &#x00E0; influ&#x00EA;ncia de outras pot&#x00EA;ncias na regi&#x00E3;o, em especial dos EUA e da Inglaterra<xref ref-type="fn" rid="NOTE21">21</xref> (Fausto &amp; Devoto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT34">2004</xref>).</p>

			<p>As rela&#x00E7;&#x00F5;es entre Brasil e Argentina foram caracterizadas pela rivalidade, com momentos de aproxima&#x00E7;&#x00E3;o, em geral frustrados pela a&#x00E7;&#x00E3;o de grandes pot&#x00EA;ncias. Essas rivalidades tiveram in&#x00ED;cio com a expans&#x00E3;o territorial brasileira e a disputa pelo Rio da Prata, via de acesso essencial ao interior do continente e &#x00E0;s suas supostas riquezas minerais (Bandeira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">2010</xref>).</p>

			<p>Foi na Bacia do Prata, regi&#x00E3;o com 3,1 milh&#x00F5;es de Km<xref ref-type="fn" rid="NOTE2">2</xref>, que a hist&#x00F3;ria do Brasil e da Argentina, bem como a do Uruguai e Paraguai, “entroncaram-se e entreteceram-se”. Os estados nacionais comportam-se conforme tradi&#x00E7;&#x00F5;es e heran&#x00E7;as sedimentadas na cultura dos respectivos povos, que eles politicamente organizam e representam. Na an&#x00E1;lise de aspectos econ&#x00F4;micos e da hegemonia pol&#x00ED;tica no enquadramento da regi&#x00E3;o, &#x00E9; importante atentar e n&#x00E3;o aceitar percep&#x00E7;&#x00F5;es e vers&#x00F5;es amplamente difundidas como “tradicional amizade” entre Brasil e EUA ou “secular rivalidade” entre Brasil e Argentina, que se cristalizaram como estere&#x00F3;tipos ideol&#x00F3;gicos<xref ref-type="fn" rid="NOTE22">22</xref> (Bandeira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">2010</xref>, p. 38, 41).</p>

			<p>Brasil e Argentina, neste per&#x00ED;odo, n&#x00E3;o competiam economicamente porque suas economias eram complementares. De forma que o foco das tens&#x00F5;es n&#x00E3;o eram as quest&#x00F5;es comerciais. O Brasil comprava todo o estoque de carne de charque da argentina, por exemplo<xref ref-type="fn" rid="NOTE23">23</xref>. O fato do Brasil ser uma monarquia, a &#x00FA;nica do continente, gerava algumas tens&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas principalmente no &#x00E2;mbito das fronteiras e dos portos<xref ref-type="fn" rid="NOTE24">24</xref>. </p>

			<p>Joshua Slocum (1844-1909), comerciante norte-americano, vivenciou a epidemia de c&#x00F3;lera na Regi&#x00E3;o do Prata em 1886 e as quarentenas impostas pelo governo brasileiro. A partir de seu relato, podemos ter uma ideia de como esta epidemia e as restri&#x00E7;&#x00F5;es nos portos afetaram a vida econ&#x00F4;mica, social e pol&#x00ED;tica da regi&#x00E3;o. Em 17 de dezembro de 1886, seu navio parte da costa argentina para o Rio de Janeiro com uma carga de alfafa. Por&#x00E9;m, ao inv&#x00E9;s de atracar no porto do Rio de Janeiro, o c&#x00F4;nsul brasileiro ordenou que seu navio fosse para o Lazareto da Ilha Grande para ser desinfectado e descarregado em quarentena (Slocum, <xref ref-type="bibr" rid="CIT64">2004</xref>, p. 36). Em 18 de dezembro, o Ministro do Imp&#x00E9;rio, o Bar&#x00E3;o de Mamor&#x00E9;, expediu um telegrama que proibia que navios de proced&#x00EA;ncia argentina ou uruguaia atracassem no Brasil. Slocum e sua tripula&#x00E7;&#x00E3;o tiveram que sair da Ilha Grande e retornar para a Argentina sem conseguir desembarcar a mercadoria (Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2006</xref>, p. 4).</p>
			
						<disp-quote><p><italic>(…) Ent&#x00E3;o, apontando algo que parecia uma pistola, Dom Pedro disse: ‘Vaya Homem’ (v&#x00E1; embora), ‘ou voc&#x00EA; vai nos passar a c&#x00F3;lera’. Tivemos que fazer todo o caminho de volta at&#x00E9; Ros&#x00E1;rio com aquele carregamento de feno —e de problemas</italic> (Slocum, <xref ref-type="bibr" rid="CIT64">2004</xref>, p.37) [sic]<xref ref-type="fn" rid="NOTE25">25</xref>.</p></disp-quote>

			<p>Chamar os funcion&#x00E1;rios do Lazareto da Ilha Grande de “Dom Pedro” &#x00E9; uma ironia n&#x00E3;o s&#x00F3; &#x00E0; forma autorit&#x00E1;ria e truculenta com que lidaram com a quest&#x00E3;o, pegando uma pistola, mas tamb&#x00E9;m &#x00E9; uma cr&#x00ED;tica direta ao sistema de governo brasileiro, a monarquia, &#x00FA;nica existente no continente americano. Slocum, origin&#x00E1;rio de um pa&#x00ED;s republicano, reconhecido pela democracia e o individualismo liberal, teve de lidar com a burocracia pesada e arbitr&#x00E1;ria do imp&#x00E9;rio brasileiro, com seus mandos e desmandos. </p>

			<p>Uma outra quest&#x00E3;o que gerava tens&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas era a do territ&#x00F3;rio das Miss&#x00F5;es. Em 23 de janeiro de 1890, o Tratado de Montevid&#x00E9;u repartiu o territ&#x00F3;rio com uma linha reta que ligava a embocadura dos rios Chopim e Chapec&#x00F3;. Isto afastou a diplomacia brasileira e argentina naquele momento. Mas as rivalidades ou aproxima&#x00E7;&#x00F5;es v&#x00E3;o sempre depender do contexto hist&#x00F3;rico e das rela&#x00E7;&#x00F5;es desses pa&#x00ED;ses com as outras pot&#x00EA;ncias na luta pelo controle econ&#x00F4;mico e pol&#x00ED;tico da regi&#x00E3;o, em especial EUA e Inglaterra (Bandeira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">2010</xref>, p. 58)<xref ref-type="fn" rid="NOTE26">26</xref>. </p>

			<p>Feitas tais considera&#x00E7;&#x00F5;es, seria oportuno a partir de ent&#x00E3;o inserir nesta an&#x00E1;lise as discuss&#x00F5;es relacionadas &#x00E0;s controv&#x00E9;rsias entre as comunidades m&#x00E9;dico-cient&#x00ED;ficas, mais precisamente, entre as autoridades sanit&#x00E1;rias e seus desacordos em termos de pr&#x00E1;ticas de preven&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s doen&#x00E7;as consideradas transmiss&#x00ED;veis nos portos —c&#x00F3;lera, febre amarela e peste bub&#x00F4;nica<xref ref-type="fn" rid="NOTE27">27</xref>. </p>

			<p>Esta discuss&#x00E3;o se faz pertinente na medida em que as pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias nos portos se davam por meio de um ajuste fino entre medidas preventivas —desinfec&#x00E7;&#x00F5;es e quarentenas— e a necessidade de livre com&#x00E9;rcio e circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas. A coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria internacional consiste na busca por pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de portu&#x00E1;ria que fossem uniformes e eficientes, baseadas em princ&#x00ED;pios cient&#x00ED;ficos e humanit&#x00E1;rios e capazes de funcionar de forma complementar &#x00E0;s atividades do com&#x00E9;rcio internacional (Cueto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT27">2007</xref>, p.23).</p>

			<p>Diferentes percep&#x00E7;&#x00F5;es entre comunidades cient&#x00ED;ficas e autoridades de sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica levaram a ideias e elabora&#x00E7;&#x00F5;es diversas de pol&#x00ED;ticas sociais no Brasil e na Argentina. Mas al&#x00E9;m disso, faz-se necess&#x00E1;rio atentar tamb&#x00E9;m para os projetos das elites nacionais para os dois pa&#x00ED;ses. </p>

			<p>Os anos de 1890, que correspondem ao per&#x00ED;odo de transi&#x00E7;&#x00E3;o entre o ide&#x00E1;rio da higiene dos miasmas para a microbiologia e a compreens&#x00E3;o dos insetos vetores na transmiss&#x00E3;o de mol&#x00E9;stias, s&#x00E3;o repletos de controv&#x00E9;rsias sobre as formas de preven&#x00E7;&#x00E3;o da c&#x00F3;lera, da febre amarela e da peste bub&#x00F4;nica (Benchimol, <xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1999</xref>). </p>

			<p>Estas doen&#x00E7;as eram relacionadas ao grande fluxo de mercadorias e pessoas, em especial de trabalhadores imigrantes, pelos portos do Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevid&#x00E9;u. Os acordos que estavam sendo criados tinham como objetivo regulamentar as pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias para diminuir os danos causados ao com&#x00E9;rcio e &#x00E0; circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas por conta da pr&#x00E1;tica excessiva de quarentenas. No entanto, quest&#x00F5;es econ&#x00F4;micas, pol&#x00ED;ticas e principalmente, interpreta&#x00E7;&#x00F5;es diversas dos pressupostos cient&#x00ED;ficos que ditavam as pr&#x00E1;ticas de profilaxia atrapalhavam as negocia&#x00E7;&#x00F5;es. </p>

			<p>Segundo Caponi (<xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2002a</xref>, p.113-116), existiriam dois relatos poss&#x00ED;veis para explicar a emerg&#x00EA;ncia da medicina tropical e seus usos. No primeiro e mais cl&#x00E1;ssico a medicina tropical teria vindo de uma continuidade e aperfei&#x00E7;oamento dos programas de investiga&#x00E7;&#x00E3;o e estudos realizados por bacteriologistas e microbiologistas. No segundo relato, a medicina tropical constitui um novo universo de estudo, cujo modelo &#x00E9; representado pelas investiga&#x00E7;&#x00F5;es realizadas em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; mal&#x00E1;ria, o que gerou a emerg&#x00EA;ncia de um novo campo te&#x00F3;rico e nova disciplina<xref ref-type="fn" rid="NOTE28">28</xref>. </p>

			<p>Haveria, ent&#x00E3;o, tamb&#x00E9;m dois modelos de inteligibilidade: por um lado a medicina tropical e as enfermidades transmitidas por vetores e, por outro, o modo de compreens&#x00E3;o das enfermidades e das estrat&#x00E9;gias de preven&#x00E7;&#x00E3;o defendidas por microbiologistas e higienistas. Os dois modelos explicativos teriam sido adotados no Brasil como estrat&#x00E9;gias complementares. Na Argentina, privilegiou-se o programa de investiga&#x00E7;&#x00E3;o iniciado por Pasteur e Koch, a microbiologia. Estas diferen&#x00E7;as teriam gerado importantes controv&#x00E9;rsias cient&#x00ED;ficas entre estes pa&#x00ED;ses cada vez que tentavam estabelecer medidas internacionais de preven&#x00E7;&#x00E3;o (Caponi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2002a</xref>, p. 113-116). Al&#x00E9;m disso, estas diferen&#x00E7;as deram origem tamb&#x00E9;m a percep&#x00E7;&#x00F5;es diversas a respeito de pol&#x00ED;ticas sociais entre as duas na&#x00E7;&#x00F5;es. </p>

			<p>Em 1890, a Argentina realizava sua organiza&#x00E7;&#x00E3;o urbana, com o controle nos corti&#x00E7;os de enfermidades como a s&#x00ED;filis e a tuberculose. Nos anos seguintes, deu-se a constru&#x00E7;&#x00E3;o de laborat&#x00F3;rios e de um instituto de bacteriologia. O objetivo era descobrir novos micr&#x00F3;bios, criar vacinas e soros e dar continuidade &#x00E0;s medidas cl&#x00E1;ssicas adotadas —desinfec&#x00E7;&#x00E3;o, saneamento e reorganiza&#x00E7;&#x00E3;o urbana— que se viram legitimadas e refor&#x00E7;adas pela microbiologia (Caponi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2002a</xref>, p. 113-116).</p>

			<p>Embora a preocupa&#x00E7;&#x00E3;o de antigos e novos higienistas fosse a tuberculose, a s&#x00ED;filis e o alcoolismo, em Buenos Aires, a enfermidade mais temida era a febre amarela, que entrava na categoria de doen&#x00E7;a tropical. At&#x00E9; 1916, na Argentina, as enfermidades transmitidas por vetores continuaram a ser estudadas com as mesmas estrat&#x00E9;gias de qualquer outra enfermidade infecciosa, por transmiss&#x00E3;o direta ou indireta pelos canais cl&#x00E1;ssicos aceitos, como &#x00E1;gua, o ar e as roupas infectadas. A alian&#x00E7;a entre medidas de saneamento e desinfec&#x00E7;&#x00E3;o propostas por “higienistas cl&#x00E1;ssicos e os avan&#x00E7;os dos estudos de microbiologia com suas vacinas e soros parecia bastar para resolver todos os problemas sanit&#x00E1;rios” (Caponi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2002a</xref>, p. 117).</p>

			<p>Ainda que as epidemias que amea&#x00E7;avam as popula&#x00E7;&#x00F5;es argentina e brasileira fossem as mesmas, as estrat&#x00E9;gias de investiga&#x00E7;&#x00E3;o e controle eram diferentes. No caso do Brasil, a microbiologia fez a tarefa de converter os efeitos negativos dos tr&#x00F3;picos em explica&#x00E7;&#x00F5;es em termos de bacilos e germes, com estrat&#x00E9;gias de combate que se opunham &#x00E0; inexorabilidade do determinismo clim&#x00E1;tico. Na Argentina, n&#x00E3;o se vinculava a situa&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria com a inexorabilidade geogr&#x00E1;fica e clim&#x00E1;tica. A capital, Buenos Aires, tem clima temperado, de forma que os temores dos tr&#x00F3;picos estariam na sua localiza&#x00E7;&#x00E3;o pr&#x00F3;xima ao Brasil. A proximidade geogr&#x00E1;fica com o pa&#x00ED;s vizinho —e tropical— facilitaria o cont&#x00E1;gio. Dessa forma, a “nova higiene”<xref ref-type="fn" rid="NOTE29">29</xref> na Argentina n&#x00E3;o precisou romper com os mitos clim&#x00E1;ticos e legitimou as interven&#x00E7;&#x00F5;es dos higienistas cl&#x00E1;ssicos. Desde 1871, a doen&#x00E7;a mais temida, a febre amarela, foi associada &#x00E0;s defici&#x00EA;ncias de saneamento e a proximidade com o Brasil (Caponi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2002a</xref>, p. 124-125). </p>

			<p>As controv&#x00E9;rsias no campo da ci&#x00EA;ncia e consequentemente na aplica&#x00E7;&#x00E3;o das medidas de preven&#x00E7;&#x00E3;o adotadas no portos dificultavam a assinatura de acordos de coopera&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria. Isto explicaria em parte as diferen&#x00E7;as relacionadas &#x00E0;s pr&#x00E1;ticas de profilaxia nos portos entre os dois pa&#x00ED;ses. Al&#x00E9;m disso, havia o fato concreto da competi&#x00E7;&#x00E3;o pela atra&#x00E7;&#x00E3;o de imigrantes, pe&#x00E7;a importante para a constitui&#x00E7;&#x00E3;o do mercado de trabalho e da pr&#x00F3;pria popula&#x00E7;&#x00E3;o (Rebelo &amp; Caponi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT56">2012</xref>). </p>

			<p>Brasil e pa&#x00ED;ses do Prata, em especial a Argentina, come&#x00E7;aram a disputar imigrantes a partir de 1870. Dentro desta concorr&#x00EA;ncia, &#x00E9; primordial compreender de que forma as condi&#x00E7;&#x00F5;es de sa&#x00FA;de e os surtos epid&#x00EA;micos existentes nas cidades brasileiras e platinas dificultaram a execu&#x00E7;&#x00E3;o das pol&#x00ED;ticas imigrat&#x00F3;rias para estes pa&#x00ED;ses (Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2006</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>, p. 39). </p>

			<p>Pela l&#x00F3;gica econ&#x00F4;mica, era preciso diminuir os danos sanit&#x00E1;rios causados ao com&#x00E9;rcio por causa das medidas de profilaxia nos portos. Por isso a implementa&#x00E7;&#x00E3;o de a&#x00E7;&#x00F5;es de saneamento nas cidades portu&#x00E1;rias brasileiras como Santos e Rio de Janeiro. A &#x00EA;nfase na pol&#x00ED;tica de imigra&#x00E7;&#x00E3;o, com o subs&#x00ED;dio a trabalhadores estrangeiros para a cafeicultura paulista, contribuiu para alavancar o processo das reformas sanit&#x00E1;rias e urbanas<xref ref-type="fn" rid="NOTE30">30</xref>. Quando os europeus adentravam os portos e se dirigiam para as &#x00E1;reas rurais, eram expostos &#x00E0;s doen&#x00E7;as transmiss&#x00ED;veis e end&#x00EA;micas nas regi&#x00F5;es. Autoridades de sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica afirmavam, no entanto, que doen&#x00E7;as como a c&#x00F3;lera e o tracoma, eram, por sua vez, transmitidas por tais estrangeiros rec&#x00E9;m-chegados para trabalhar nas lavouras de caf&#x00E9;. Mas, apesar da poss&#x00ED;vel amea&#x00E7;a que os imigrantes representavam para a sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica, seus bra&#x00E7;os eram essenciais para a economia cafeeira. Dessa forma, a reforma da sa&#x00FA;de tornou-se uma preocupa&#x00E7;&#x00E3;o das classes dominantes, tendo a imigra&#x00E7;&#x00E3;o um papel fundamental na promo&#x00E7;&#x00E3;o de pol&#x00ED;ticas sanit&#x00E1;rias (Castro Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT20">2004</xref>, p. 261, 262, 266). </p>

			<p>Por outro lado, pa&#x00ED;ses exportadores de m&#x00E3;o de obra para as Am&#x00E9;ricas, como a It&#x00E1;lia, procuravam proteger seus patr&#x00ED;cios n&#x00E3;o s&#x00F3; das doen&#x00E7;as tropicais e das ditas insalubridades das cidades sul americanas, como tamb&#x00E9;m da forma de tratamento dispensado a seus cidad&#x00E3;os pelos latifundi&#x00E1;rios paulistas, acostumados a lidar com escravos e n&#x00E3;o com trabalhadores assalariados. </p>

			</sec>
			
			<sec id="S4">
			
			<title>A DISPUTA POR M&#x00C3;O DE OBRA</title>

			<p>Se o Rio de Janeiro era visto como o “t&#x00FA;mulo dos estrangeiros” por causa da presen&#x00E7;a da febre amarela (Cooper, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">1975</xref>), Buenos Aires tampouco representava um s&#x00ED;mbolo de salubridade urbana para os pa&#x00ED;ses europeus exportadores de m&#x00E3;o de obra para a Am&#x00E9;rica do Sul<xref ref-type="fn" rid="NOTE31">31</xref>. </p>

			<p>O jornal O Estado de S&#x00E3;o Paulo publicou em 6 de agosto de 1911, uma mat&#x00E9;ria sobre o desenrolar das desaven&#x00E7;as diplom&#x00E1;ticas entre It&#x00E1;lia e Argentina, decorrentes de um surto epid&#x00EA;mico de c&#x00F3;lera. Segundo o jornal, a presen&#x00E7;a da c&#x00F3;lera em Buenos Aires colocava em risco os trabalhadores imigrantes italianos e isso preocupava as autoridades italianas<xref ref-type="fn" rid="NOTE32">32</xref>.</p>

			<p>A disputa por m&#x00E3;o de obra na Bacia do Prata foi explicitada durante as discuss&#x00F5;es para uma terceira conven&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria entre Brasil e as rep&#x00FA;blicas platinas em 1899. A maior parte dos artigos desta conven&#x00E7;&#x00E3;o giraram em torno da restri&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; movimenta&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas entre os portos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, em especial de passageiros de vapores que viajavam nas terceiras classes, em sua maioria imigrantes (Rebelo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT54">2010a</xref>, p. 142). </p>

			<p>Havia tamb&#x00E9;m uma outra quest&#x00E3;o que atrapalharia em cheio o com&#x00E9;rcio brasileiro e a ida da corrente imigrat&#x00F3;ria para o pa&#x00ED;s: um dos artigos desta conven&#x00E7;&#x00E3;o afirmava que a febre amarela era uma doen&#x00E7;a end&#x00EA;mica no Brasil entre os meses de novembro a maio. Portanto, dentro deste per&#x00ED;odo, os portos brasileiros seriam considerados sempre infeccionados, o que gerava uma s&#x00E9;rie de medidas que restringiam a livre circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas e bens. E al&#x00E9;m disso, causava p&#x00E2;nico aos imigrantes de desembarcarem no pa&#x00ED;s e contra&#x00ED;rem doen&#x00E7;as como a febre amarela, preferindo ent&#x00E3;o os portos de Buenos Aires ou de Montevid&#x00E9;o (Rebelo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT54">2010a</xref>, p. 142).</p>

			<p>Este conv&#x00EA;nio sujeitava os passageiros &#x00E0; inspe&#x00E7;&#x00E3;o e desinfec&#x00E7;&#x00E3;o no momento de embarque, nos portos de escala e de desembarque. Quando chegavam ao porto de destino, Buenos Aires, os passageiros de 3ª classe, em sua maioria trabalhadores imigrantes, eram sujeitados a uma nova inspe&#x00E7;&#x00E3;o e desinfec&#x00E7;&#x00E3;o e obrigados a permanecer em quarentena. Os navios, depois de inspecionados e desinfectados, ao sa&#x00ED;rem do Rio de Janeiro em dire&#x00E7;&#x00E3;o ao Prata, s&#x00F3; teriam a “livre pr&#x00E1;tica”, ou seja, a permiss&#x00E3;o para atracar e realizar os procedimentos de carga e descarga, assim como o desembarque de pessoas, no fim de cinco dias, mesmo que estivesse em “estado satisfat&#x00F3;rio”, isto &#x00E9;, sem casos de mol&#x00E9;stia<xref ref-type="fn" rid="NOTE33">33</xref>.</p>

			<p>As epidemias de c&#x00F3;lera e da febre amarela da segunda metade do s&#x00E9;culo XIX ao in&#x00ED;cio do XX causaram na regi&#x00E3;o do Prata muitos preju&#x00ED;zos, tanto comerciais - estremecendo as rela&#x00E7;&#x00F5;es principalmente entre Brasil e Argentina - quanto em n&#x00ED;vel de desenvolvimento e progresso. A corrente imigrat&#x00F3;ria de trabalhadores europeus, essencial para a economia dos pa&#x00ED;ses da regi&#x00E3;o, poderia ser direcionada e redirecionada de diversas formas. A Argentina passara a aplicar longas e vexat&#x00F3;rias quarentenas pelas quais passageiros oriundos de portos brasileiros tinham que passar em portos argentinos; cartazes difamat&#x00F3;rios eram expostos nos <italic>portalos</italic> - locais de sa&#x00ED;da de passageiros dos navios que demandavam os portos brasileiros —com dizeres referentes aos perigos da febre amarela no Rio de Janeiro. A imprensa Argentina tamb&#x00E9;m contribu&#x00ED;a, publicando propaganda negativa com o intuito de afastar o imigrante do pa&#x00ED;s ao atribuir ao Rio de Janeiro a fama de cidade insalubre e ao Brasil a fama de pa&#x00ED;s in&#x00F3;spito, por causa do seu clima, &#x00E0; civiliza&#x00E7;&#x00E3;o europeia<xref ref-type="fn" rid="NOTE34">34</xref>. O contr&#x00E1;rio da Argentina que pelo fato de ter clima temperado estaria salva das doen&#x00E7;as tropicais.</p>

			<p>Assim, gostaria de levantar mais uma quest&#x00E3;o que &#x00E9; a mesma apontada por Armus (<xref ref-type="bibr" rid="CIT05">2007</xref>) e diz respeito &#x00E0; compreens&#x00E3;o de direitos sociais, relacionados &#x00E0; assist&#x00EA;ncia &#x00E0; sa&#x00FA;de nos dois pa&#x00ED;ses. Na Argentina, a tuberculose foi a doen&#x00E7;a que recebeu mais aten&#x00E7;&#x00E3;o no come&#x00E7;o do s&#x00E9;culo XX. Foi um t&#x00F3;pico relevante em uma agenda que destacava os assuntos da higiene, o ambiente urbano e o assistencialismo no marco mais geral de uma ideologia que se propunha a definir as caracter&#x00ED;sticas determinantes da sociedade argentina. Esta ideologia definir&#x00E1; as bases de um novo estado social, respons&#x00E1;vel pela prote&#x00E7;&#x00E3;o e bem-estar da popula&#x00E7;&#x00E3;o, com a expans&#x00E3;o de certos direitos sociais, solidariedade social, cria&#x00E7;&#x00E3;o de institui&#x00E7;&#x00F5;es para produzir pol&#x00ED;ticas espec&#x00ED;ficas que permitiriam deixar no passado a filantropia. Reformistas higienistas do final do XIX tentaram confrontar as enfermidades urbanas, em especial as infectocontagiosas e a tuberculose, como enfermidades sociais<xref ref-type="fn" rid="NOTE35">35</xref>.</p>

			<p>Isso difere significativamente do Brasil, onde a campanha de Oswaldo Cruz<xref ref-type="fn" rid="NOTE36">36</xref> de combate ao mosquito da febre amarela resolveu por um momento as quest&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias do Rio de Janeiro, que deixou de ser cidade insalubre e alavancou a ci&#x00EA;ncia brasileira em n&#x00ED;vel internacional. A cren&#x00E7;a na ci&#x00EA;ncia e a reforma urbana no modelo parisiense, teria resolvido por um per&#x00ED;odo todos os problemas. Somente a partir de 1910, o movimento pelo saneamento dos sert&#x00F5;es vai apontar as terr&#x00ED;veis mazelas sociais com a c&#x00E9;lebre frase do dr. Miguel Pereira: “O Brasil &#x00E9; um grande hospital”. Esse Brasil era representado pelo sert&#x00F5;es, ou seja, tudo aquilo que existia para al&#x00E9;m do litoral e do porto do Rio de Janeiro at&#x00E9; ent&#x00E3;o esquecido pelas autoridades p&#x00FA;blicas (Lima &amp; Hochman, <xref ref-type="bibr" rid="CIT46">1996</xref>).</p>

			<p>Estes dois modelos de compreens&#x00E3;o de direito sociais e assist&#x00EA;ncia tem conex&#x00F5;es com a forma como as elites nacionais dos dois pa&#x00ED;ses pensavam estas quest&#x00F5;es na constru&#x00E7;&#x00E3;o dos estados e identidades nacionais<xref ref-type="fn" rid="NOTE37">37</xref>. Tamb&#x00E9;m tem conex&#x00F5;es com a ideologia que regia esta compreens&#x00E3;o e o uso dela no &#x00E2;mbito de cada sociedade, ou seja, neste caso, com a ideologia liberal da metade do s&#x00E9;culo XIX e suas recep&#x00E7;&#x00F5;es e influ&#x00EA;ncias na Am&#x00E9;rica Latina<xref ref-type="fn" rid="NOTE38">38</xref>. &#x00C9; necess&#x00E1;rio pensarmos tamb&#x00E9;m na emerg&#x00EA;ncia de uma certa ideia de regula&#x00E7;&#x00E3;o dos riscos sociais no gerenciamento das pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica e de imigra&#x00E7;&#x00E3;o e a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre elas.</p>

			</sec>
			
			<sec id="S5">
			
			<title>AUTO-REGULA&#x00C7;&#x00C3;O DOS RISCOS E PERCEP&#x00C7;&#x00D5;ES DO MUNDO LIBERAL</title>

			<p>Se no final do s&#x00E9;culo XIX permanecia a preocupa&#x00E7;&#x00E3;o com a entrada de doen&#x00E7;as pestilenciais ex&#x00F3;ticas (febre amarela, c&#x00F3;lera e peste bub&#x00F4;nica) pelos portos, no in&#x00ED;cio do s&#x00E9;culo XX, demandas sociais com rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; assist&#x00EA;ncia e sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica emergiam e apontavam necessidade de mudan&#x00E7;as<xref ref-type="fn" rid="NOTE39">39</xref>.</p>

			<p>No entanto, no &#x00E2;mbito da profilaxia portu&#x00E1;ria, controv&#x00E9;rsias com rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; preven&#x00E7;&#x00E3;o de doen&#x00E7;as ainda ecoavam no seio da comunidade m&#x00E9;dico-cient&#x00ED;fica no in&#x00ED;cio do s&#x00E9;culo XX. A descoberta da transmiss&#x00E3;o da c&#x00F3;lera por indiv&#x00ED;duos assintom&#x00E1;ticos fez com que, em 1910, o Departamento Nacional de Higiene (DNH) argentino impusesse um sistema de an&#x00E1;lise bacteriol&#x00F3;gico obrigat&#x00F3;rio a todos os passageiros imigrantes provenientes de portos infectados (Kepelusz-Poppi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT45">2011</xref>). A c&#x00F3;lera grassava em portos italianos de onde sa&#x00ED;am os bra&#x00E7;os imigrantes, disputados em especial por Brasil e Argentina. Esta determina&#x00E7;&#x00E3;o argentina mudava a marcha da popula&#x00E7;&#x00E3;o imigrante, favorecendo neste momento o Brasil. </p>

			<p>Nestes dois pa&#x00ED;ses, apesar da exist&#x00EA;ncia ainda de algumas controv&#x00E9;rsias com rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s pr&#x00E1;ticas da microbiologia, o cuidado com a salubridade come&#x00E7;ou a ser parte das garantias que o estado oferecia &#x00E0; popula&#x00E7;&#x00E3;o. N&#x00E3;o bastava mais identificar germes, era necess&#x00E1;rio dar aten&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s quest&#x00F5;es sociais. A sa&#x00FA;de se fez, ent&#x00E3;o, como um espa&#x00E7;o de consenso pol&#x00ED;tico e ideol&#x00F3;gico na legitima&#x00E7;&#x00E3;o da interven&#x00E7;&#x00E3;o estatal<xref ref-type="fn" rid="NOTE40">40</xref>.</p>

			<p>O problema n&#x00E3;o estava mais em demarcar o territ&#x00F3;rio, fazer cord&#x00F5;es sanit&#x00E1;rios, fechar portos para o controle da sa&#x00FA;de da popula&#x00E7;&#x00E3;o. Era necess&#x00E1;rio a partir de ent&#x00E3;o deixar as circula&#x00E7;&#x00F5;es acontecerem de forma controlada, de uma maneira que os perigos fossem anulados. Ao inv&#x00E9;s da quarentena, a vigil&#x00E2;ncia sanit&#x00E1;ria, ao inv&#x00E9;s da desinfec&#x00E7;&#x00E3;o de roupas e objetos, a vacina&#x00E7;&#x00E3;o nos portos<xref ref-type="fn" rid="NOTE41">41</xref>. Deixar a passagem livre para a circula&#x00E7;&#x00E3;o de mercadorias e pessoas. Os riscos se anulariam por si mesmos<xref ref-type="fn" rid="NOTE42">42</xref>.</p>

			<p>As rela&#x00E7;&#x00F5;es entre estados n&#x00E3;o s&#x00E3;o percebidas mais sob a forma de rivalidade, mas sob a forma da concorr&#x00EA;ncia, de concilia&#x00E7;&#x00E3;o de interesses<xref ref-type="fn" rid="NOTE43">43</xref>. Os estados brasileiro e argentino se afirmavam, ent&#x00E3;o, no espa&#x00E7;o dos interc&#x00E2;mbio econ&#x00F4;micos, da concorr&#x00EA;ncia comercial, da circula&#x00E7;&#x00E3;o monet&#x00E1;ria, da concorr&#x00EA;ncia por bra&#x00E7;os de trabalhadores imigrantes. </p>

			<p>Como conciliar interesses? Atrav&#x00E9;s da diplomacia e do dispositivo de pol&#x00ED;cia. A diplomacia vai garantir a manuten&#x00E7;&#x00E3;o de uma rela&#x00E7;&#x00E3;o de for&#x00E7;as, de equil&#x00ED;brio de for&#x00E7;as entre na&#x00E7;&#x00F5;es. O dispositivo de pol&#x00ED;cia sustentar&#x00E1; o incremento de cada uma dessas for&#x00E7;as, sem a ruptura do conjunto. Essa pol&#x00ED;cia &#x00E9; uma ci&#x00EA;ncia de Estado, &#x00E9; a pol&#x00ED;cia m&#x00E9;dica<xref ref-type="fn" rid="NOTE44">44</xref>. Trata-se agora de fazer com que o estado n&#x00E3;o intervenha sen&#x00E3;o para regular interesses. No ponto de jun&#x00E7;&#x00E3;o dessas duas tecnologias (diplomacia e pol&#x00ED;cia) deve-se colocar o com&#x00E9;rcio, a circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas e a seguran&#x00E7;a da popula&#x00E7;&#x00E3;o (Foucault, <xref ref-type="bibr" rid="CIT37">2005</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT38">2008</xref>).</p>

			<p>Assim, percebe-se que a liberdade de com&#x00E9;rcio era necess&#x00E1;ria, mas eram necess&#x00E1;rias tamb&#x00E9;m preven&#x00E7;&#x00F5;es que evitassem a hegemonia de um pa&#x00ED;s sobre o outro, al&#x00E9;m de se garantir a seguran&#x00E7;a da sociedade. Como equilibrar a balan&#x00E7;a entre interesses econ&#x00F4;micos, pol&#x00ED;ticos, cient&#x00ED;ficos, coletivos, individuais com a quest&#x00E3;o da seguran&#x00E7;a da sociedade? Ou como deixar que coisas e pessoas circulassem sem os riscos de epidemias, sem o risco da imigra&#x00E7;&#x00E3;o ilegal, do contrabando e do tr&#x00E1;fico de coisas e pessoas? Uma poss&#x00ED;vel resposta seria por meio das t&#x00E9;cnicas da biopol&#x00ED;tica, ou seja, atrav&#x00E9;s de um dispositivo de seguran&#x00E7;a que fornece uma certa resposta aos riscos que as popula&#x00E7;&#x00F5;es correm como doen&#x00E7;as, cat&#x00E1;strofes, fome, ilegalidades. No centro desta teia, encontramos os indiv&#x00ED;duos, os sujeitos de escolhas aut&#x00F4;nomas, que interagem entre si. Encontramos tamb&#x00E9;m a regula&#x00E7;&#x00E3;o dos espa&#x00E7;os da vida, a organiza&#x00E7;&#x00E3;o dos territ&#x00F3;rios, o gerenciamento de uma popula&#x00E7;&#x00E3;o estrangeira pelo territ&#x00F3;rio<xref ref-type="fn" rid="NOTE45">45</xref>. Este seria ent&#x00E3;o o novo modo de governar indiv&#x00ED;duos livres (Doron, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">2007</xref>). </p>

			<p>Dessa forma, v&#x00EA;-se emergir a sociedade liberal como poss&#x00ED;vel resposta a estas perguntas, sendo compreendido o liberalismo como a arte de governar sujeitos livres por meio de dispositivos que equilibrariam os riscos de cat&#x00E1;strofes, doen&#x00E7;as, fome, de forma a garantir a seguran&#x00E7;a da popula&#x00E7;&#x00E3;o. No entanto, precisamos tra&#x00E7;ar as peculiaridades da constru&#x00E7;&#x00E3;o deste mundo liberal no contexto dos pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata, que certamente n&#x00E3;o &#x00E9; o mesmo das sociedades europeias analisadas por Foucault<xref ref-type="fn" rid="NOTE46">46</xref>.</p>

			<p>Entre os pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata, o otimismo com o crescimento da agroexporta&#x00E7;&#x00E3;o, associado &#x00E0; emerg&#x00EA;ncia de ideias liberais, possibilitou discuss&#x00F5;es entre as elites a respeito da necessidade de promo&#x00E7;&#x00E3;o de direitos e cuidados, em especial relacionados &#x00E0; sa&#x00FA;de e higiene. Possibilitou tamb&#x00E9;m a constitui&#x00E7;&#x00E3;o de c&#x00F3;digos civis (Abel, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">1996</xref>. p. 7). </p>

			<p>As pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de tornaram-se elemento de expans&#x00E3;o da autoridade estatal pelos territ&#x00F3;rios. A ideia a respeito da necessidade de coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o de algum bem-estar levou as elites nacionais a promoverem campanhas para a erradica&#x00E7;&#x00E3;o de doen&#x00E7;as e/ou controle de enfermidades espec&#x00ED;ficas<xref ref-type="fn" rid="NOTE47">47</xref>. Isto tornou-se essencial para a amplia&#x00E7;&#x00E3;o dos mercados de trabalho por meio da corrente imigrat&#x00F3;ria<xref ref-type="fn" rid="NOTE48">48</xref> (Abel, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">1996</xref>. p. 7). </p>

			<p>No caso do Brasil, o processo de independ&#x00EA;ncia seguiu rumos diferentes dos outros pa&#x00ED;ses da Am&#x00E9;rica Latina. N&#x00E3;o se pretendia transformar o pa&#x00ED;s em uma rep&#x00FA;blica rousseauniana, com base na premissa de que todos os homens s&#x00E3;o iguais. N&#x00E3;o pretendia-se trabalhar a extens&#x00E3;o da cidadania, em especial para a popula&#x00E7;&#x00E3;o afrodescendente ap&#x00F3;s a aboli&#x00E7;&#x00E3;o (1888) e a proclama&#x00E7;&#x00E3;o da Rep&#x00FA;blica (1889). Por outro lado, a ideia de que o governo n&#x00E3;o deveria violar os direitos econ&#x00F4;micos dos cidad&#x00E3;os era bem aceita (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT61">1998</xref>, p.18)<xref ref-type="fn" rid="NOTE49">49</xref>.</p>

			<p>A proibi&#x00E7;&#x00E3;o do tr&#x00E1;fico negreiro, em 1850, levou &#x00E0; escassez de m&#x00E3;o de obra e ao recrudescimento das pol&#x00ED;ticas imigrat&#x00F3;rias. Isto significou um grande passo em dire&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; cria&#x00E7;&#x00E3;o de um sistema econ&#x00F4;mico liberal, mas abria um precedente no que se refere &#x00E0; estabilidade do sistema pol&#x00ED;tico: os contratos de trabalho dos imigrantes nas fazendas eram assinados dentro de um modelo de semiescravid&#x00E3;o<xref ref-type="fn" rid="NOTE50">50</xref>. Dessa forma, os latifundi&#x00E1;rios do caf&#x00E9; conclamam o governo a expandir sua capacidade regulat&#x00F3;ria em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos contratos econ&#x00F4;micos<xref ref-type="fn" rid="NOTE51">51</xref> (Santos, 1978, p.18).</p>

			<p>Portanto, temos a inviabilidade do liberalismo pol&#x00ED;tico e do sistema de representa&#x00E7;&#x00E3;o onde n&#x00E3;o havia cidad&#x00E3;os, em um contexto agr&#x00E1;rio dominado pelas rela&#x00E7;&#x00F5;es de depend&#x00EA;ncia pessoal e pela inexist&#x00EA;ncia de um mercado livre de for&#x00E7;a de trabalho. O liberalismo pol&#x00ED;tico no Brasil nasce sob o estigma da ordem e da autoridade, com o objetivo de fornecer sustenta&#x00E7;&#x00E3;o ao estabelecimento de um estado nacional e n&#x00E3;o para consagrar a liberdade (Vianna, <xref ref-type="bibr" rid="CIT65">1991</xref>, p.146).</p>

			<p>Ante o exemplo do fracionamento dos pa&#x00ED;ses latino-americanos e ante a experi&#x00EA;ncia com as revoltas durante o per&#x00ED;odo regencial (1831-1840)<xref ref-type="fn" rid="NOTE52">52</xref>, a solu&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica encontrada pela elite brasileira foi a ado&#x00E7;&#x00E3;o de uma monarquia constitucional altamente centralizada. Dessa forma, os excessos republicanos e igualit&#x00E1;rios permaneceram afastados do corpo social. Mantinha-se, portanto, da agenda liberal a ideia de que o estado n&#x00E3;o poderia violar os direitos dos cidad&#x00E3;os, a&#x00ED; inclu&#x00ED;do o direito de ter escravos. O intervencionismo estatal deveria proteger o estoque de m&#x00E3;o de obra rural, subsidiando a imigra&#x00E7;&#x00E3;o e atendendo aos interesses agr&#x00E1;rios. J&#x00E1; a pol&#x00ED;tica tarif&#x00E1;ria protegia os setores urbanos, industriais e os cofres p&#x00FA;blicos (Gomes, <xref ref-type="bibr" rid="CIT40">2002</xref>, p. 7). </p>

			<p>O modelo de participa&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica no Brasil da Primeira Rep&#x00FA;blica, apesar de ineg&#x00E1;veis avan&#x00E7;os se compararmos com o per&#x00ED;odo imperial - com a aboli&#x00E7;&#x00E3;o do voto censit&#x00E1;rio, por exemplo - continuava bastante restrito, excluindo analfabetos, mulheres, menores de 21 anos e mendigos (Arruda, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2007</xref>, p.179). </p>

			<p>No caso espec&#x00ED;ficos dos estrangeiros, por ocasi&#x00E3;o da primeira elei&#x00E7;&#x00E3;o republicana brasileira, os imigrantes que entravam no Brasil eram naturalizados compulsoriamente para poderem votar em 1889. Os italianos, por exemplo, constitu&#x00ED;am 40% da popula&#x00E7;&#x00E3;o nacional. A nacionaliza&#x00E7;&#x00E3;o compuls&#x00F3;ria gerou uma crise entre Brasil e It&#x00E1;lia (Rosoli, <xref ref-type="bibr" rid="CIT59">1986</xref>)<xref ref-type="fn" rid="NOTE53">53</xref>. No entanto, observamos nas primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX, a proibi&#x00E7;&#x00E3;o do alistamento eleitoral de imigrantes como uma forma de mant&#x00EA;-los afastados da vida pol&#x00ED;tica e institucional. Esta preocupa&#x00E7;&#x00E3;o vinha da quantidade de estrangeiros que chegavam imersos em ideologias socialistas e anarquistas e que passaram a ser categorizados como “subversivos”. Esta percep&#x00E7;&#x00E3;o deu origem &#x00E0; Lei Adolfo Gordo, de 1907, a lei de expuls&#x00E3;o de estrangeiros, imigrantes indesej&#x00E1;veis<xref ref-type="fn" rid="NOTE54">54</xref> (Arruda, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2007</xref>, p. 182). </p>

			<p>No caso argentino, a ado&#x00E7;&#x00E3;o do modelo liberal tamb&#x00E9;m foi parcial. Uma parte da elite procurava dar legitimidade &#x00E0; sua hegemonia pol&#x00ED;tica e ao modelo econ&#x00F4;mico dominante. O projeto reformista n&#x00E3;o se baseava unicamente na extens&#x00E3;o dos direitos de cidadania a grupos at&#x00E9; ent&#x00E3;o exclu&#x00ED;dos do sistema pol&#x00ED;tico. N&#x00E3;o se buscou a completa democratiza&#x00E7;&#x00E3;o e nem se evitou recorrer &#x00E0; exclus&#x00E3;o e repress&#x00E3;o de grupos e indiv&#x00ED;duos. O exemplo da campanha anti-col&#x00E9;rica, apresentada pelo DNH em 1910, n&#x00E3;o representa s&#x00F3; um esfor&#x00E7;o de prote&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria, mas tamb&#x00E9;m de ampla defesa nacional (Kepelusz-Poppi, <xref ref-type="bibr" rid="CIT45">2011</xref>, p.117). </p>

			<p>O que se percebe, portanto, &#x00E9; que os liberais hispano-americanos do s&#x00E9;culo passado viveram e pensaram imersos numa situa&#x00E7;&#x00E3;o singularmente contradit&#x00F3;ria, ficavam entre as exig&#x00EA;ncias pr&#x00F3;prias da necessidade de consolidar uma autoridade estatal e aquelas derivadas dos valores do liberalismo pol&#x00ED;tico que alentavam (Palermo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT51">1997</xref>, p. 295). </p>

			</sec>
			
			<sec id="S6">
			
			<title>CONSIDERA&#x00C7;&#x00D5;ES FINAIS</title>

			<p>Neste trabalho, analisou-se as rela&#x00E7;&#x00F5;es entre pol&#x00ED;tica e ci&#x00EA;ncia, esta compreendida como campo cultural das ideias<xref ref-type="fn" rid="NOTE55">55</xref>, dentro de uma chave interpretativa que procurou atentar para a intersec&#x00E7;&#x00E3;o entre as pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de e imigrat&#x00F3;rias. Inicialmente, ponderei quer as tentativas de constru&#x00E7;&#x00E3;o de pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias homog&#x00EA;neas nos portos das na&#x00E7;&#x00F5;es platinas iam de encontro &#x00E0;s controv&#x00E9;rsias cient&#x00ED;ficas a respeito da transmiss&#x00E3;o das doen&#x00E7;as consideradas infecciosas na &#x00E9;poca, mas tamb&#x00E9;m, como explorado posteriormente, sofriam influ&#x00EA;ncias de tens&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas e econ&#x00F4;micas vinculadas &#x00E0; necessidade de atra&#x00E7;&#x00E3;o de m&#x00E3;o de obra imigrante para a conforma&#x00E7;&#x00E3;o dos mercados de trabalho internos.</p>

			<p>Mostrou-se como a recusa das na&#x00E7;&#x00F5;es europeias em discutir as quest&#x00F5;es pertinentes &#x00E0;s doen&#x00E7;as tropicais e aos problemas de sa&#x00FA;de associados &#x00E0; corrente imigrat&#x00F3;ria fez com que as na&#x00E7;&#x00F5;es platinas se organizassem dentro de outro modelo de conven&#x00E7;&#x00E3;o sanit&#x00E1;ria de acordo com suas demandas. </p>

			<p>Al&#x00E9;m destas quest&#x00F5;es, vimos tamb&#x00E9;m que a partir das primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX, as pol&#x00ED;ticas sanit&#x00E1;rias entram em processo de transforma&#x00E7;&#x00E3;o, pois n&#x00E3;o bastava mais s&#x00F3; conter epidemias no &#x00E2;mbito dos portos, era necess&#x00E1;rio come&#x00E7;ar a expandir direitos sociais em especial relacionados &#x00E0; assist&#x00EA;ncia &#x00E0; sa&#x00FA;de. Esta conjuntura &#x00E9; fomentada pelas pol&#x00ED;ticas imigrat&#x00F3;rias. A recep&#x00E7;&#x00E3;o de cidad&#x00E3;os oriundos de na&#x00E7;&#x00F5;es europeias - muitas vezes sob a tutela destes estados na&#x00E7;&#x00F5;es - gerou a necessidade de se discutir como expandir benef&#x00ED;cios sociais de forma mais ampla para a popula&#x00E7;&#x00E3;o. </p>

			<p>Estas demandas por direitos se configuram dentro do processo de constru&#x00E7;&#x00E3;o dos estados e das identidades nacionais, imersos na recep&#x00E7;&#x00E3;o da ideologia liberal. O desafio estava em como gerenciar uma massa de cidad&#x00E3;os livres. Pela auto-regula&#x00E7;&#x00E3;o dos riscos sociais, incluindo as epidemias e a imigra&#x00E7;&#x00E3;o ilegal. Consolidou-se a ideia n&#x00E3;o de competi&#x00E7;&#x00E3;o entre estados, mas de concilia&#x00E7;&#x00E3;o de interesses para que a circula&#x00E7;&#x00E3;o de bens e pessoas ocorresse de forma livre e sem danos &#x00E0; sociedade. </p>

			<p>Dentro deste contexto, tamb&#x00E9;m foi analisado como as conven&#x00E7;&#x00F5;es sanit&#x00E1;rias influenciaram as rela&#x00E7;&#x00F5;es diplom&#x00E1;ticas entre pa&#x00ED;ses europeus (exportadores de m&#x00E3;o de obra) e platinos (receptores de m&#x00E3;o de obra). A partir das conven&#x00E7;&#x00F5;es, pa&#x00ED;ses imigrantistas, como Brasil, Argentina e Uruguai, passaram a ter uma maior autonomia na sele&#x00E7;&#x00E3;o de trabalhadores imigrantes para constitu&#x00ED;rem o seus mercados de trabalho. </p>

			<p>No caso do Brasil, a recep&#x00E7;&#x00E3;o de uma popula&#x00E7;&#x00E3;o imigrante, branca, assalariada e detentora de certos direitos em seus pa&#x00ED;ses de origem, em contraposi&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; realidade do ex&#x00E9;rcito de trabalhadores afro-descendentes, ex-escravos, jogados ap&#x00F3;s 1888 numa sociedade a qual n&#x00E3;o oferecia espa&#x00E7;o algum para a sua inser&#x00E7;&#x00E3;o no mercado de trabalho, gerou contradi&#x00E7;&#x00F5;es no &#x00E2;mbito do pensamento das elites e suas compreens&#x00F5;es do mundo liberal. A coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o de bem estar n&#x00E3;o &#x00E9; pensada pela elite como benef&#x00ED;cio coletivo para o bem de todos, mas como medida de seguran&#x00E7;a social. Afinal de contas, as doen&#x00E7;as promovem uma percep&#x00E7;&#x00E3;o de interdepend&#x00EA;ncia entre classes. Assim observamos, a partir de 1910, a campanha pelo Saneamento dos Sert&#x00F5;es, que se traduziu em levar sa&#x00FA;de, combate &#x00E0;s doen&#x00E7;as transmiss&#x00ED;veis, para os confins do pa&#x00ED;s at&#x00E9; ent&#x00E3;o abandonado pelas autoridades. O que n&#x00E3;o se configura necessariamente como seguridade social, apesar de ser pol&#x00ED;tica social de sa&#x00FA;de.</p>

			<p>No caso da Argentina, percebemos um maior empenho em promover assist&#x00EA;ncia social &#x00E0; popula&#x00E7;&#x00E3;o. Esta perspectiva pode ser observada nas campanhas de combate &#x00E0; tuberculose, &#x00E0; s&#x00ED;filis —compreendidas como mazelas sociais- e na pol&#x00ED;tica anti-col&#x00E9;rica, de 1910, que tinha o imigrante pobre, morador dos corti&#x00E7;os como foco de uma campanha de preven&#x00E7;&#x00E3;o e n&#x00E3;o somente de combate no modelo campanhista como se deu no Brasil. </p>

			<p>&#x00C9; necess&#x00E1;rio atentar ainda para o significado que o conceito de liberalismo tinha para os atores da &#x00E9;poca e seus usos<xref ref-type="fn" rid="NOTE56">56</xref>. No caso dos pa&#x00ED;ses da Bacia do Rio da Prata, identificamos outros e novos usos para o termo como: a ideia de liberdade ligada a um ordem institucional; a defesa de garantias, liberdades e direitos individuais, como nos decretos sobre liberdade de imprensa e seguridade individual; a institucionaliza&#x00E7;&#x00E3;o do poder em um regime republicano e representativo e a necessidade tamb&#x00E9;m de limitar tal poder para assim garantir certas liberdades (Wasserman, <xref ref-type="bibr" rid="CIT66">2012</xref> p.55). </p>

			<p>Assim, este artigo teve o objetivo de construir um nexo entre imigra&#x00E7;&#x00E3;o, ci&#x00EA;ncia e pol&#x00ED;ticas de sa&#x00FA;de. A imigra&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; compreendida como o motor que gerou inflex&#x00F5;es na assinatura de conv&#x00EA;nios sanit&#x00E1;rios a partir dos quais se regulamentou os espa&#x00E7;os de circula&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas e mercadorias no final do s&#x00E9;culo XIX e in&#x00ED;cio do XX. Era necess&#x00E1;rio neste momento prevenir, garantindo, ainda assim, o livre fluxo. Ao inv&#x00E9;s da quarentena de todos, a observa&#x00E7;&#x00E3;o somente dos doentes; ao inv&#x00E9;s das desinfec&#x00E7;&#x00F5;es, vacinas. Uma certa economia dos riscos, que agora deveriam se anular por si mesmos em uma esp&#x00E9;cie de auto-regula&#x00E7;&#x00E3;o.</p>

			
		</sec>
		
	</body>
	
	
	<back>
		
		<sec id="notas">
			<title>NOTAS</title>
		
			<fn-group>
	
			<fn id="NOTE1"><label>1</label>
				<p>Foucault,<xref ref-type="bibr" rid="CIT36">1987</xref>, p.170-171.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE2"><label>2</label>
				<p>Esta rela&#x00E7;&#x00E3;o entre saberes e pr&#x00E1;ticas n&#x00E3;o acontece de forma direta, linear, sem conflitos, disputas e controv&#x00E9;rsias no interior das comunidades cient&#x00ED;ficas, como mostrou Pierre Bourdieu em O Campo Cient&#x00ED;fico (Ortiz, <xref ref-type="bibr" rid="CIT50">2003</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE3"><label>3</label>
				<p>A imigra&#x00E7;&#x00E3;o tutelada &#x00E9; aquela amparada desde o in&#x00ED;cio por meio de orienta&#x00E7;&#x00E3;o, ajuda e ger&#x00EA;ncia. Ela &#x00E9; estruturada sobre uma cadeia de rela&#x00E7;&#x00F5;es montada nas pontas das estruturas estatais dos pa&#x00ED;ses de emigra&#x00E7;&#x00E3;o e de recep&#x00E7;&#x00E3;o de m&#x00E3;o de obra. Dentro deste processo, cada pa&#x00ED;s possu&#x00ED;a interesses espec&#x00ED;ficos. Esse tipo de imigra&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; o caso da japonesa para o Brasil, a partir de 1908 (Sakurai, <xref ref-type="bibr" rid="CIT60">2000</xref>, p. 202). Para aprofundar a quest&#x00E3;o sob o vi&#x00E9;s das a&#x00E7;&#x00F5;es orientadas por t&#x00E9;cnicos do poder tutelar brasileiro, dirigidas para a constru&#x00E7;&#x00E3;o de uma autoridade nacional em mat&#x00E9;ria de imigra&#x00E7;&#x00E3;o na Primeira Rep&#x00FA;blica ver Ramos (<xref ref-type="bibr" rid="CIT53">2006</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE4"><label>4</label>
				<p>Hochman, <xref ref-type="bibr" rid="CIT41">1993</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE5"><label>5</label>
				<p>Ver Porter,<xref ref-type="bibr" rid="CIT52">1999</xref>, p. 48,58; Cueto <xref ref-type="bibr" rid="CIT27">2007</xref>, p. 28-30.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE6"><label>6</label>
				<p>As principais pr&#x00E1;ticas de profilaxia sanit&#x00E1;ria nos portos at&#x00E9; ent&#x00E3;o eram as desinfec&#x00E7;&#x00F5;es e as quarentenas. Estas j&#x00E1; vinham sendo criticadas como irracionais e pouco efetivas na conten&#x00E7;&#x00E3;o de epidemias. Para aprofundar esta quest&#x00E3;o ver Ackerknecht (<xref ref-type="bibr" rid="CIT02">1948</xref>, p. 564). Sobre o uso da quarentena como mecanismo de protecionismo econ&#x00F4;mico ver Rebelo (<xref ref-type="bibr" rid="CIT55">2010b</xref>, p. 9).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE7"><label>7</label>
				<p>Ver Howard-Jones, <xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1975</xref>; Cueto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT27">2007</xref>; Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE8"><label>8</label>
				<p>Archivo Hist&#x00F3;rico de Canceller&#x00ED;a, Buenos Aires, Antecedentes para la convenci&#x00F3;n de Rio de Janeiro suministrados al Ministro del Interior, Dr. Joaquin V. Gonzalez - Buenos Aires, Abril 8 de 1904.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE9"><label>9</label>
				<p>Neste artigo, optou-se por manter as fontes em sua escrita original e sem a tradu&#x00E7;&#x00E3;o para o portugu&#x00EA;s.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE10"><label>10</label>
				<p>Isto ocorre tamb&#x00E9;m no que diz respeito aos Congressos M&#x00E9;dicos Latino Americanos. Almeida (<xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2006</xref>) destaca a din&#x00E2;mica local de redes medico-cient&#x00ED;ficas por meio da an&#x00E1;lise de tais congressos e das Exposi&#x00E7;&#x00F5;es Internacionais de Higiene das primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX. A internacionaliza&#x00E7;&#x00E3;o da ci&#x00EA;ncia no continente muitas vezes &#x00E9; vista sob uma &#x00F3;tica centrada na rela&#x00E7;&#x00E3;o entre os pa&#x00ED;ses latino-americanos com pa&#x00ED;ses europeus, numa perspectiva mais transatl&#x00E2;ntica e menos intercontinental. No entanto, a autora mostra a exist&#x00EA;ncia de uma comunidade medico-cient&#x00ED;fica regional muito atuante no continente. E como resultado desta interpreta&#x00E7;&#x00E3;o, vislumbra-se uma circularidade de ideias e de pessoas, transpondo as fronteiras f&#x00ED;sicas e imagin&#x00E1;rias da Am&#x00E9;rica Latina. Este processo levou tal comunidade local a pensar solu&#x00E7;&#x00F5;es diversas para as quest&#x00F5;es m&#x00E9;dicas e sanit&#x00E1;rias.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE11"><label>11</label>
				<p>Archivo Hist&#x00F3;rico de Canceller&#x00ED;a, Buenos Aires, Antecedentes para la convenci&#x00F3;n de Rio de Janeiro suministrados al Ministro del Interior, Dr. Joaquin V. Gonzalez - Buenos Aires, Abril 8 de 1904.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE12"><label>12</label>
				<p>As primeiras conven&#x00E7;&#x00F5;es platinas foram assinadas em 1873, 1887, 1899, 1904. Sobre as duas primeiras ver Chaves (<xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2009</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT23">2008</xref>), sobre as duas &#x00FA;ltimas ver Rebelo (<xref ref-type="bibr" rid="CIT55">2010b</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT57">2013</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE13"><label>13</label>
				<p>Sobre o per&#x00ED;odo de transi&#x00E7;&#x00E3;o entre os pressupostos da higiene dos miasmas e os da microbiologia ver Benchimol (<xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1999</xref>) e Caponi (<xref ref-type="bibr" rid="CIT16">2002b</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE14"><label>14</label>
				<p>Archivo Hist&#x00F3;rico de Canceller&#x00ED;a, Buenos Aires, Antecedentes para la convenci&#x00F3;n de Rio de Janeiro suministrados al Ministro de Relaciones Exteriores, Sr. Jos&#x00E9; A. Terry, Buenos Aires, Julio 5 de 1904.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE15"><label>15</label>
				<p>Archivo Hist&#x00F3;rico de Canceller&#x00ED;a, Buenos Aires, Antecedentes para la convenci&#x00F3;n de Rio de Janeiro suministrados al Ministro de Relaciones Exteriores, Sr. Jos&#x00E9; A. Terry, Buenos Aires, Julio 5 de 1904, p.106.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE16"><label>16</label>
				<p>Archivo Hist&#x00F3;rico de Canceller&#x00ED;a, Buenos Aires, Antecedentes para la convenci&#x00F3;n de Rio de Janeiro suministrados al Ministro de Relaciones Exteriores, Sr. Jos&#x00E9; A. Terry, Buenos Aires, Julio 5 de 1904, p.104.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE17"><label>17</label>
				<p>Esta pergunta &#x00E9; a mesma feita por Peter Baldwin (<xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1999</xref>), referindo-se ao caso Fran&#x00E7;a e Inglaterra. Aqui, repete-se para analisar a situa&#x00E7;&#x00E3;o entre Brasil, Argentina e Uruguai.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE18"><label>18</label>
				<p>Baldwin (<xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1999</xref>) faz uma cr&#x00ED;tica &#x00E0; vis&#x00E3;o de Ackerknecht (<xref ref-type="bibr" rid="CIT02">1948</xref>), a qual o autor se refere como manique&#x00ED;sta: a dicotomia profil&#x00E1;tica entre “conservadores quarenten&#x00E1;rio” e “liberalismo sanit&#x00E1;rio”, na quest&#x00E3;o da etiologia da c&#x00F3;lera no s&#x00E9;c XIX, entre contagionistas e localistas respectivamente. Para aprofundar este debate entre pol&#x00ED;tica e ci&#x00EA;ncia, em especial a cr&#x00ED;tica que Baldwin faz &#x00E0; perspectiva de Ackerknecht ver Rebelo (<xref ref-type="bibr" rid="CIT57">2013</xref>, p.772-775).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE19"><label>19</label>
				<p>Seguindo Roger Chartier (<xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2012</xref>), caracterizo aqui o campo cient&#x00ED;fico dentro da categoria de campo cultural das ideias.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE20"><label>20</label>
				<p>Esta quest&#x00E3;o foi objeto de controv&#x00E9;rsias cient&#x00ED;ficas at&#x00E9; a assinatura da conven&#x00E7;&#x00E3;o de 1904, quando a teoria defendida pelo m&#x00E9;dico Carlos Finlay, em 1892, de que a febre amarela era transmitida pelos culic&#x00ED;dios, foi oficialmente aceita (Benchimol &amp; Silva, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">2008</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE21"><label>21</label>
				<p>Sobre a influ&#x00EA;ncia dos EUA e da Inglaterra na regi&#x00E3;o ver Bandeira (<xref ref-type="bibr" rid="CIT09">2010</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE22"><label>22</label>
				<p>Ver tamb&#x00E9;m Castro (<xref ref-type="bibr" rid="CIT18">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE23"><label>23</label>
				<p>Ver Chaves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2006</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE24"><label>24</label>
				<p>Bandeira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">2010</xref>, p.38, 41; Castro (<xref ref-type="bibr" rid="CIT18">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE25"><label>25</label>
				<p>Repelir &#x00E0; bala navios com epidemias a bordo ou doentes em fronteiras, portos e esta&#x00E7;&#x00F5;es n&#x00E3;o era prerrogativa s&#x00F3; da monarquia brasileira. A pr&#x00E1;tica da quarentena &#x00E0; bala nos EUA foi assunto de um conhecido peri&#x00F3;dico m&#x00E9;dico brasileiro em 1895, quando publicou uma mat&#x00E9;ria cujo o titulo era “Quarentena Selvagem” e dizia o seguinte: “No Arkansas (Estados Unidos do Norte) um pobre varioloso por se ter evadido de uma esta&#x00E7;&#x00E3;o quarenten&#x00E1;ria, onde ficara retido, foi morto a tiro por um empregado da quarentena” (<italic>O Brazil-M&#x00E9;dico</italic>, 1895, p. 383). Neste mesmo peri&#x00F3;dico, foi publicada uma outra mat&#x00E9;ria em 1899 sobre o descumprimento da Conven&#x00E7;&#x00E3;o de 1887 pela Argentina que passara a obrigar os navios procedentes do porto Rio de Janeiro a purgarem longas quarentenas, “repelindo &#x00E0; bala um navio porque tinha a bordo doente de febre amarela” (<italic>O Brazil-M&#x00E9;dico</italic>, ano XIII, n. 45, 1 de dezembro de 1899).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE26"><label>26</label>
				<p>Ver tamb&#x00E9;m Castro (<xref ref-type="bibr" rid="CIT18">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE27"><label>27</label>
				<p>Nos relat&#x00F3;rios, regulamentos e conven&#x00E7;&#x00F5;es a categoria “mol&#x00E9;stias pestilenciais ex&#x00F3;ticas” refere-se &#x00E0; febre amarela, c&#x00F3;lera e peste bub&#x00F4;nica. Para estas, havia regulamenta&#x00E7;&#x00E3;o para a profilaxia espec&#x00ED;fica nos portos, acordada nas conven&#x00E7;&#x00F5;es.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE28"><label>28</label>
				<p>Para Edler (<xref ref-type="bibr" rid="CIT31">1999</xref>, p. 204), a descoberta de Patrick Manson reformulava uma s&#x00E9;rie de quest&#x00F5;es no campo da patologia, cujas respostas pressupunham o dom&#x00ED;nio de novas &#x00E1;reas do saber —Parasitologia, Biogeografia, Entomologia, Helmintologia. Estas diferentes din&#x00E2;micas de pesquisa se somariam a outras tradi&#x00E7;&#x00F5;es emergentes como a Protozoologia, Bacteriologia, para comporem, na &#x00FA;ltima d&#x00E9;cada do s&#x00E9;culo XIX, o repert&#x00F3;rio de disciplinas conexas &#x00E0; Medicina Tropical.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE29"><label>29</label>
				<p>O termo nova higiene &#x00E9; utilizado aqui n&#x00E3;o como uma quebra de paradigma, como se existisse uma velha higiene e nem como um novo conceito. &#x00C9; uma forma conveniente de apontar certas diferen&#x00E7;as na legisla&#x00E7;&#x00E3;o e nas pr&#x00E1;ticas sanit&#x00E1;rias entre dois per&#x00ED;odos. O termo aparece tamb&#x00E9;m nos relat&#x00F3;rios, regulamentos e conven&#x00E7;&#x00F5;es.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE30"><label>30</label>
				<p>Sobre as reformas urbanas no Rio de Janeiro ver Benchimol, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">2003</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE31"><label>31</label>
				<p>&#x00C9; importante ressaltar que a febre amarela no Rio de Janeiro era concreta e real. Na epidemia de 1850, um ter&#x00E7;o da popula&#x00E7;&#x00E3;o da cidade foi dizimada pela doen&#x00E7;a. Durante os anos entre 1852 e 1895, mais de 15 mil pessoas morreram, 4 mil delas durante as epidemias de 1891, 1892 e 1894. A epidemia deste &#x00FA;ltimo ano foi a pior de todos os tempos (Cooper, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">1975</xref>, p. 679).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE32"><label>32</label>
				<p>O Estado de S&#x00E3;o Paulo, 6 de agosto de 1911.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE33"><label>33</label>
				<p><italic>O Brazil-M&#x00E9;dico</italic>, ano XIII, n.45, 1 de dezembro de 1899, pp. 437, 438.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE34"><label>34</label>
				<p>Relat&#x00F3;rio do Minist&#x00E9;rio da Justi&#x00E7;a e Neg&#x00F3;cios Interiores - RMJNI, Relat&#x00F3;rio do Diretor Geral de Sa&#x00FA;de P&#x00FA;blica, 1904/1905: A-A-15; <italic>O Brazil-M&#x00E9;dico</italic>, 1905, ano XIX, vol 1, pp. 227.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE35"><label>35</label>
				<p>Precisamos levar em conta tamb&#x00E9;m que o funcionamento da higiene e da medicina a partir do s&#x00E9;culo XVIII se constituiu como inst&#x00E2;ncias de controle social, em especial direcionado &#x00E0; popula&#x00E7;&#x00E3;o pobre. As medidas de sa&#x00FA;de p&#x00FA;blica, historicamente, implicaram uma s&#x00E9;rie de interven&#x00E7;&#x00F5;es autorit&#x00E1;rias como mostrou Foucault (<xref ref-type="bibr" rid="CIT35">1979</xref>). No entanto, &#x00E9; preciso ressaltar que tais medidas autorit&#x00E1;rias nunca foram recebidas sem resist&#x00EA;ncias, inclusive deram origem a revoltas sociais como no caso da Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE36"><label>36</label>
				<p>Sobre Oswaldo Cruz e o campanhismo ver Brito, <xref ref-type="bibr" rid="CIT13">1995</xref>, p.13.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE37"><label>37</label>
				<p>Ver Hochman, Palmer &amp; Di Liscia (<xref ref-type="bibr" rid="CIT43">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE38"><label>38</label>
				<p>Ver Sebasti&#x00E1;n (<xref ref-type="bibr" rid="CIT62">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE39"><label>39</label>
				<p>Ver Weindling (<xref ref-type="bibr" rid="CIT67">1995</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE40"><label>40</label>
				<p>Sobre esta quest&#x00E3;o ver Hochman, <xref ref-type="bibr" rid="CIT42">1998</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE41"><label>41</label>
				<p>Sobre as mudan&#x00E7;as na aplica&#x00E7;&#x00E3;o das pr&#x00E1;ticas de profilaxia nos portos no final do s&#x00E9;culo XIX &#x00E0;s primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX ver Rebelo (<xref ref-type="bibr" rid="CIT57">2013</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE42"><label>42</label>
				<p>Doron, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">2007</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE43"><label>43</label>
				<p>Ver Foucault, <xref ref-type="bibr" rid="CIT38">2008</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE44"><label>44</label>
				<p>Sobre a pol&#x00ED;cia m&#x00E9;dica ver Rosen (<xref ref-type="bibr" rid="CIT58">1978</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE45"><label>45</label>
				<p>Ramos (<xref ref-type="bibr" rid="CIT53">2006</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE46"><label>46</label>
				<p>Especialmente nos textos da &#x00FA;ltima fase do autor, Em Defesa da Sociedade (2005) e Seguran&#x00E7;a, Territ&#x00F3;rio, Popula&#x00E7;&#x00E3;o (2008). Sobre a recep&#x00E7;&#x00E3;o no mundo intelectual brasileiro do liberalismo, positivismo e evolucionismo, na perspectiva local ver Carvalho (<xref ref-type="bibr" rid="CIT17">2012</xref>, p.392-393) e Coser (<xref ref-type="bibr" rid="CIT26">2010</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE47"><label>47</label>
				<p>Hochman (<xref ref-type="bibr" rid="CIT42">1998</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE48"><label>48</label>
				<p>Para Fairchild (2004, p. 528-530), a despeito da exclus&#x00E3;o, a hist&#x00F3;ria do exame m&#x00E9;dico nos portos &#x00E9; a da inclus&#x00E3;o. O objetivo do <italic>Public Health Service</italic> n&#x00E3;o estava em mandar os trabalhadores imigrantes de volta para a Europa, mas em introduzi-los nos valores da sociedade industrial norte-americana para a forma&#x00E7;&#x00E3;o do mercado de trabalho interno. De forma que era necess&#x00E1;rio n&#x00E3;o restringir, mas controlar e prevenir a entrada daqueles que n&#x00E3;o poderiam trabalhar e se sustentar, o que os levariam &#x00E0; depend&#x00EA;ncia do Estado, <italic>“Likely do become a public charge”.</italic></p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE49"><label>49</label>
				<p>Neste artigo, discuti-se pol&#x00ED;tica social e inclus&#x00E3;o no in&#x00ED;cio do s&#x00E9;culo XX no Brasil, tendo como chave de interpreta&#x00E7;&#x00E3;o o processo de coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o da sa&#x00FA;de. As pol&#x00ED;ticas sociais s&#x00E3;o analisadas dentro do processo hist&#x00F3;rico de generaliza&#x00E7;&#x00E3;o da interdepend&#x00EA;ncia humana e das respostas aos problemas por ela gerados, resultantes do surgimento dos Estados Nacionais e do desenvolvimento do capitalismo. Seguimos os argumentos de Hochman (<xref ref-type="bibr" rid="CIT41">1993</xref>, p.1-3), que por sua vez segue De Swaan (<xref ref-type="bibr" rid="CIT28">1990</xref>) e Elias (<xref ref-type="bibr" rid="CIT32">1989</xref>). Os elos de interdepend&#x00EA;ncia que fundariam a necessidade de “coletiviza&#x00E7;&#x00E3;o” do bem-estar para destitu&#x00ED;dos s&#x00E3;o os efeitos externos, as consequ&#x00EA;ncias indiretas de tais adversidades para aqueles que s&#x00E3;o atingidos, apesar de n&#x00E3;o compartilharem de tais problemas. Dessa forma, dialoga-se tamb&#x00E9;m com a perspectiva de Foucualt em sua &#x00FA;ltima fase (<xref ref-type="bibr" rid="CIT37">2005</xref>, 2008). N&#x00E3;o pretende-se uma avalia&#x00E7;&#x00E3;o dos resultados de tais pol&#x00ED;ticas, mas mostrar que houve, efetivamente, ao longo do per&#x00ED;odo, constitui&#x00E7;&#x00E3;o de poder p&#x00FA;blico por meio do sanitarismo, com impactos no sistema politico, em especial sobre os grupos envolvidos, como imigrantes, e sobre a capacidade do Estado de criar e gerenciar pol&#x00ED;ticas.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE50"><label>50</label>
				<p>Por causa das p&#x00E9;ssimas condi&#x00E7;&#x00F5;es de trabalho de imigrantes italianos nas fazendas paulistas, a It&#x00E1;lia, em 1902, sob o decreto Prinetti, proibiu durante um per&#x00ED;odo a imigra&#x00E7;&#x00E3;o subsidiada para o Brasil. No come&#x00E7;o do s&#x00E9;culo XX, a It&#x00E1;lia, o maior pa&#x00ED;s exportador de m&#x00E3;o-de-obra para a Am&#x00E9;rica, dera in&#x00ED;cio a uma pol&#x00ED;tica imigrat&#x00F3;ria que tentava combinar tutela nacional, preocupa&#x00E7;&#x00E3;o demogr&#x00E1;fica, prote&#x00E7;&#x00E3;o social e benef&#x00ED;cios para emigrantes. O Estado italiano passa a elaborar dispositivos de a&#x00E7;&#x00E3;o p&#x00FA;blica para proteger a sua popula&#x00E7;&#x00E3;o imigrante, em especial durante a travessia mar&#x00ED;tima, gerando “preocupa&#x00E7;&#x00F5;es humanit&#x00E1;rias sob a l&#x00F3;gica dos lucro das companhias mar&#x00ED;timas” e tamb&#x00E9;m no plano internacional de negocia&#x00E7;&#x00F5;es com os pa&#x00ED;ses receptores no sentido de melhorar as condi&#x00E7;&#x00F5;es de recep&#x00E7;&#x00E3;o e prote&#x00E7;&#x00E3;o de seus trabalhadores (Douki, <xref ref-type="bibr" rid="CIT30">2011</xref>, p. 375-379).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE51"><label>51</label>
				<p>As ideias liberais na elite brasileira s&#x00E3;o difusas. Existiam tamb&#x00E9;m aqueles que n&#x00E3;o defendiam qualquer tipo de interven&#x00E7;&#x00E3;o estatal, pregavam a descentraliza&#x00E7;&#x00E3;o e a imigra&#x00E7;&#x00E3;o livre como era o caso de Tavarez Bastos (Santos, 1978, p.38). Sobre as ideias liberais e as pol&#x00EA;micas entre Oliveira Viana e Tavares Bastos ver Vianna (<xref ref-type="bibr" rid="CIT65">1991</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE52"><label>52</label>
				<p>Ver Morel (<xref ref-type="bibr" rid="CIT49">2003</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE53"><label>53</label>
				<p>A grande naturaliza&#x00E7;&#x00E3;o decretava que o estrangeiro residente no Brasil em 15 de novembro de 1889 automaticamente recebia naturalidade brasileira, a menos que se reportasse de modo contr&#x00E1;rio &#x00E0;s autoridades competentes. O decreto assegurava a permiss&#x00E3;o de alistamento eleitoral para os naturalizados alfabetizados que n&#x00E3;o conheciam a l&#x00ED;ngua portuguesa (Seyferth, <xref ref-type="bibr" rid="CIT63">2011</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE54"><label>54</label>
				<p>Sobre imigrantes indesej&#x00E1;veis ver Menezes (<xref ref-type="bibr" rid="CIT48">1996</xref>). Sobre a diplomacia brasileira antirrevolucion&#x00E1;ria ver Garc&#x00ED;a, <xref ref-type="bibr" rid="CIT39">2004</xref>.</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE55"><label>55</label>
				<p>Chartier (<xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2012</xref>).</p>
			</fn>
			
			<fn id="NOTE56"><label>56</label>
				<p>Sobre este assunto ver tamb&#x00E9;m Bell (<xref ref-type="bibr" rid="CIT08">2014</xref>).</p>
			</fn>
		</fn-group>
		
		</sec>
				
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			<title>BIBLIOGRAFIA</title>
				
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			  <comment>p.9, [en l&#x00ED;nea], disponible en: <uri>http://sas-space.sas.ac.uk/3408/</uri> [consultado el 29/07/2016]</comment>
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			  <conf-name>Anais Eletronicos do 13º Semin&#x00E1;rio Nacional de Hist&#x00F3;ria da Ci&#x00EA;ncia e da Tecnologia e 8º Congresso Latino-americano de Hist&#x00F3;ria da Ci&#x00EA;ncia e da Tecnologia</conf-name>
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