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				<journal-title>Asclepio. Revista de Historia de la Medicina y de la Ciencia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Asclepio</abbrev-journal-title>
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			<issn publication-format="print">0210-4466</issn>
			<issn publication-format="electronic">1988-3102</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#xed;ficas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">asclepio.2022.18</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.3989/asclepio.2022.18</article-id>
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					<subject>Estudios / Studies</subject>
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				<article-title>Conex&#xf5;es entre dois mundos. Pr&#xe1;tica m&#xe9;dica, artes de curar e os saberes locais angolanos nos textos europeus ao longo do s&#xe9;culo XVIII</article-title>
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					<trans-title>Connections between two worlds. Medical practice, healing arts and the local angolan knowledge in european texts throughout the 18th century</trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-2251-805X</contrib-id>
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						<surname>Da Concei&#xe7;&#xe3;o</surname>
						<given-names>Gisele Cristina</given-names>
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					<aff id="aff1"><institution>CITCEM - Uporto</institution> <addr-line>U. de Porto</addr-line>, <country>Portugal</country></aff>
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			<pub-date pub-type="epub">
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			<volume>74</volume>
			<issue>2</issue>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>As conex&#xf5;es entre a &#xc1;frica e o Brasil s&#xe3;o tema recorrente na historiografia, principalmente, aquela relacionada com as quest&#xf5;es sociais, econ&#xf4;micas, log&#xed;sticas e pol&#xed;ticas que envolviam o tr&#xe1;fico de escravos entre ambos os continentes. Um dos aspectos de maior interesse para os pesquisadores da hist&#xf3;ria das ci&#xea;ncias &#xe9;, nesse sentido, a quest&#xe3;o da sa&#xfa;de dos povos escravizados. Neste aspecto, a hist&#xf3;ria da Medicina e dos conhecimentos m&#xe9;dicos e farmac&#xea;uticos retratam um cen&#xe1;rio no qual os contributos dos conhecimentos de origem africana tem vindo a ser verificados. Neste artigo, pretendo reconhecer as pr&#xe1;ticas m&#xe9;dicas aplicadas em territ&#xf3;rio angolano atrav&#xe9;s de uma s&#xe9;rie de tratados m&#xe9;dicos escritos por europeus que praticaram medicina em Angola, mais precisamente em Luanda, pretendendo responder &#xe0;s seguintes quest&#xf5;es: Qual &#xe9; o peso do conhecimento das popula&#xe7;&#xf5;es locais na forma&#xe7;&#xe3;o dos tratados m&#xe9;dicos angolanos? Havia circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos m&#xe9;dicos entre Angola e Brasil? </p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The connections between Africa and Brazil are a recurring theme in historiography, especially that related to social, economic, logistical and political issues involving the slave trade between the two continents. One of the most interesting aspects for researchers in the history of science is, in this sense, the question of the health of enslaved peoples. In this respect, the history of medicine and medical and pharmaceutical knowledge portray a scenario in which the contributions of knowledge of African origin have been verified. In this article, I intend to recognise the medical practices applied in Angolan territory through a series of medical treaties written by Europeans who practised medicine in Angola, more precisely in Luanda, in order to answer the following questions: What is the weight of the local population&#x2019;s knowledge in the formation of Angolan medical treaties? Was there a circulation of medical knowledge between Angola and Brazil? </p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group>
				<kwd>Hist&#xf3;ria da medicina em Angola</kwd>
				<kwd>Circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos</kwd>
				<kwd>Imp&#xe9;rio Atl&#xe2;ntico portugu&#xea;s</kwd>
				<kwd>plantas medicinais</kwd>
				<kwd>tr&#xe1;fico de seres humanos</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<kwd>History of Medicine in Angola</kwd>
				<kwd>Circulation of knowledge</kwd>
				<kwd>Portuguese Atlantic Empire</kwd>
				<kwd>Medicinal plants</kwd>
				<kwd>Slave Trade</kwd>
			</kwd-group>
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		<sec id="sec1" sec-type="intro">
			<title>Introdu&#xe7;&#xe3;o</title>
			<p>&#xc9; no &#xe2;mbito do Imp&#xe9;rio Atl&#xe2;ntico Portugu&#xea;s que o tema deste artigo se insere, em um per&#xed;odo de tempo em que as aten&#xe7;&#xf5;es da Coroa passaram a voltar-se mais para o Atl&#xe2;ntico e menos para a &#xc1;sia, em parte devido ao consider&#xe1;vel aumento do tr&#xe1;fico de escravos relacionado &#xe0;s descobertas de ouro nas Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boxer, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">Bethencourt, Curto, 2010</xref>). Neste contexto, ap&#xf3;s a expuls&#xe3;o dos Holandeses, em 1648, e at&#xe9; finais do s&#xe9;culo XVIII, Angola<xref ref-type="fn" rid="fn1">
					<sup>1</sup>
				</xref>, cujo principal porto era Luanda, passou a ser um dos pontos mais importantes da configura&#xe7;&#xe3;o estrat&#xe9;gica do Imp&#xe9;rio (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Madeira-Santos, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Fern&#xe1;ndez-Armesto, 2010, p. 115-144</xref>). Foi neste per&#xed;odo, principalmente a partir da segunda metade do s&#xe9;culo, que se pode verificar este acr&#xe9;scimo da import&#xe2;ncia das possess&#xf5;es atl&#xe2;nticas, em especial, Angola, no balan&#xe7;o geral do Imp&#xe9;rio, mas tamb&#xe9;m, um crescimento do interesse por se conhecer as potencialidades naturais das col&#xf4;nias, ao mesmo tempo que se assistia a um aumento da circula&#xe7;&#xe3;o de informa&#xe7;&#xf5;es e conhecimento por todo o Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>).</p>
			<p>Do ponto de vista log&#xed;stico e geogr&#xe1;fico, o Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s pode ser considerado como um sistema mar&#xed;timo que criou uma rede comercial entre diversos portos e pequenos povoados (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Schwartz, 2010, p. 21-51</xref>), ou como uma rede de conex&#xf5;es mar&#xed;timas amplamente direcionadas aos interesses do Estado em suas pol&#xed;ticas expansionistas, tanto as de car&#xe1;ter mercantil, como religioso e militar (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Thomaz, 2009, p. 13-57</xref>). Desde o in&#xed;cio do reinado de D. Jo&#xe3;o V (1706-1750) pode-se observar uma maior circula&#xe7;&#xe3;o de pessoas, livros, ideias e correspond&#xea;ncia entre os mais variados ambientes, seja em Portugal, em pa&#xed;ses do norte da Europa ou nas col&#xf4;nias (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">Furtado, 2012</xref>). O Imp&#xe9;rio Portugu&#xea;s estava conectado por vias mar&#xed;timas, e atrav&#xe9;s delas, n&#xe3;o havia apenas circula&#xe7;&#xe3;o derivada do com&#xe9;rcio e da escravatura, mas tamb&#xe9;m uma intensa circula&#xe7;&#xe3;o de textos, fossem eles meras trocas de correspond&#xea;ncia, of&#xed;cios, requerimentos, receitas comerciais ou textos, religiosos e cient&#xed;ficos.</p>
			<p>Neste contexto, Angola era um importante ponto dentro do complexo mar&#xed;timo portugu&#xea;s, pois foi uma das principais regi&#xf5;es de sa&#xed;da de escravos, principalmente para o Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Alencastro, 2010, p. 115-144</xref>). Nas embarca&#xe7;&#xf5;es, n&#xe3;o apenas os escravos eram transportados, mas tamb&#xe9;m, uma s&#xe9;rie de produtos. Por esse motivo, a conex&#xe3;o entre os dois pontos do Imp&#xe9;rio (Brasil e Angola) vem sendo tema de estudos envolvendo a Hist&#xf3;ria Atl&#xe2;ntica sob diversos aspectos, principalmente em se tratando do com&#xe9;rcio de escravos, e da circula&#xe7;&#xe3;o de bens de consumo (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Alencastro, 2010</xref>). No entanto, a conex&#xe3;o interatl&#xe2;ntica n&#xe3;o estava relacionada apenas ao tr&#xe1;fico humano e &#xe0; transa&#xe7;&#xe3;o de produtos comerciais. Por ela tamb&#xe9;m foram disseminadas doen&#xe7;as origin&#xe1;rias de diversos pontos do Imp&#xe9;rio. Em certa medida, tais enfermidades tinham que ser reconhecidas pelos m&#xe9;dicos, e tinham que ter tratamentos espec&#xed;ficos, muitas vezes com componentes bot&#xe2;nicos de origem local (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B39">Walker, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Cook, Walker, 2013</xref>). Essa quest&#xe3;o &#xe9; fundamental, n&#xe3;o apenas para compreendermos as din&#xe2;micas dos processos de constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimento m&#xe9;dico deste per&#xed;odo, e em Angola, mas tamb&#xe9;m, para percebermos que a constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimento foi amplamente baseada em componentes de origem local. </p>
			<p>Nos &#xfa;ltimos anos, novas pesquisas na &#xe1;rea da Hist&#xf3;ria da Medicina e da pr&#xe1;tica m&#xe9;dica tem questionado o porqu&#xea; de as culturas m&#xe9;dicas africanas n&#xe3;o estarem amplamente descritas nos estudos sobre as mudan&#xe7;as paradigm&#xe1;ticas ocorridas ao longo do per&#xed;odo moderno na Medicina - como campo do saber e pr&#xe1;tica m&#xe9;dica. Alguns dos pontos defendidos, dizem respeito a quest&#xf5;es pol&#xed;ticas, comerciais, culturais e sociais relacionados com a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em territ&#xf3;rio africano, com a aceita&#xe7;&#xe3;o daquilo que era produzido em termos de conhecimento pr&#xe1;tico sobre medicamentos e processos de curas locais. Parte dos estudos, apontam que a aus&#xea;ncia de um com&#xe9;rcio de medicamentos, por exemplo, de origem exclusivamente africana, estava conectada ao fato de o mercado da costa subsaariana estar quase que exclusivamente voltado para o com&#xe9;rcio de seres humanos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Breen, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B21">Kananoja, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>). Quando procuramos compreender os processos de forma&#xe7;&#xe3;o de conhecimento nos espa&#xe7;os coloniais, e retrocedemos &#xe0;s an&#xe1;lises da historiografia das ci&#xea;ncias ao longo do s&#xe9;culo XX, deparamo-nos com interpreta&#xe7;&#xf5;es inclinadas a considerar a produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento como tendo sido produto de percursos lineares de difus&#xe3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Raj, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Raj, 2013, p. 337-347</xref>). Para parte desta historiografia tradicional, a constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimento seria um sistema linear de proposi&#xe7;&#xf5;es e descobertas, e pensavam-se os princ&#xed;pios norteadores da produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento cient&#xed;fico como universalmente aplic&#xe1;veis. Assim, as particularidades da produ&#xe7;&#xe3;o cient&#xed;fica em um local espec&#xed;fico tendiam a ser consideradas secund&#xe1;rias, j&#xe1; que, afinal, a produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento deveria compreender s&#xe9;ries de processos unificadores, e comuns para todos (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Raj, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">Kuhn, 2009</xref>). </p>
			<p>A partir de seus princ&#xed;pios universais de racionalidade, o conhecimento cient&#xed;fico deveria ser pass&#xed;vel de reprodu&#xe7;&#xe3;o em qualquer lugar, e por qualquer indiv&#xed;duo que dominasse as suas ferramentas de an&#xe1;lise. Segundo essa perspectiva, o conhecimento produzido em locais outros, que n&#xe3;o seus centros iniciais de difus&#xe3;o, poderia ser considerado uma mera c&#xf3;pia, por vezes de validade inferior, em rela&#xe7;&#xe3;o aos originais universais (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Raj, 2010</xref>). Contudo, novos estudos t&#xea;m procurado compreender tais processos de maneira mais dilatada, partindo do princ&#xed;pio de que o conhecimento pode se desenvolver com caracter&#xed;sticas distintas em territ&#xf3;rios variados (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; Concei&#xe7;&#xe3;o, 2010; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Livingstone, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Schaffer, 2009</xref>). </p>
			<p>Esta produ&#xe7;&#xe3;o seria algo muito mais complexo, menos um sistema unificado de conhecimentos, e mais uma s&#xe9;rie de conjuntos que, entre outros, envolveria aspectos hist&#xf3;ricos relacionados com a identidade cultural dos seus produtores, materiais e instrumentais a eles dispon&#xed;veis, e com as pr&#xe1;ticas sociais, conjunturas pol&#xed;ticas e dimens&#xf5;es cognitivas (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Livingstone, 2013</xref>). A produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento, ent&#xe3;o, seria tamb&#xe9;m influenciada pelos processos de circula&#xe7;&#xe3;o deste entre os diferentes produtores, associados a fatores locais, a processos de troca e negocia&#xe7;&#xe3;o e de reconfigura&#xe7;&#xe3;o, frequentemente implicando rela&#xe7;&#xf5;es de poder. Desse ponto de vista, a produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento deixaria de ser relacionada apenas com os aspectos materiais e instrumentais, e passaria a envolver um complexo mais amplo de atividades humanas, juntamente com a circula&#xe7;&#xe3;o destes de maneira global, permitindo que a produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento pudesse, de certa maneira, se tornar mais regional, sem perder a caracter&#xed;stica de conhecimento amplo e universalmente aplic&#xe1;vel (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>). </p>
			<p>&#xc9; neste contexto, e a partir de duas quest&#xf5;es centrais, que v&#xe3;o se orientar as an&#xe1;lises a serem produzidas ao longo deste artigo: Qual &#xe9; o peso do conhecimento das popula&#xe7;&#xf5;es locais na forma&#xe7;&#xe3;o dos tratados m&#xe9;dicos angolanos? Havia circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos m&#xe9;dicos entre Angola e Brasil? Centrando-se no caso espec&#xed;fico dos processos de constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos m&#xe9;dicos em Angola na primeira metade do s&#xe9;culo XVIII, partir-se-&#xe1; do pressuposto de que os trabalhos sobre Medicina desenvolvidos em Angola possuem caracter&#xed;sticas pr&#xf3;prias de seu local, de acordo com especificidades de cada contexto pol&#xed;tico e social de seu autor. Diante disso, torna-se fundamental a compreens&#xe3;o das diversas vari&#xe1;veis, relativas ao universo espec&#xed;fico das comunidades em que estavam inseridos os agentes produtores de conhecimento, nas suas condi&#xe7;&#xf5;es locais, nas suas rela&#xe7;&#xf5;es com os contextos mais amplos do Imp&#xe9;rio, nas suas dimens&#xf5;es geogr&#xe1;ficas, pol&#xed;ticas e sociais, e na circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento, neste caso, em especial, entre Angola e o Brasil. </p>
		</sec>
		<sec id="sec2">
			<title>Conex&#xf5;es entre dois mundos</title>
			<p>Apesar de o grande motor que impulsionou o com&#xe9;rcio e estabeleceu conex&#xf5;es mar&#xed;timas entre a &#xc1;frica e os demais pontos dentro do Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s ter sido o tr&#xe1;fico de seres humanos, n&#xe3;o se pode omitir uma s&#xe9;rie de outros fatores paralelos, que fizeram com que a &#xc1;frica se tornasse um dos mais significativos pontos de conex&#xe3;o no eixo atl&#xe2;ntico entre Brasil e Portugal (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Sweet, 2011</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B35">2003</xref>). Atrav&#xe9;s das rotas comerciais de seres humanos, muitos outros elementos puderam circular. Para o caso deste artigo, interessa saber aqueles que fizeram parte dos processos de constru&#xe7;&#xe3;o e circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos ao longo do per&#xed;odo moderno, principalmente relacionados com as quest&#xf5;es de sa&#xfa;de, medicina e plantas medicinais africanas.</p>
			<p>Apesar de n&#xe3;o haver registro de farmacopeias destinadas exclusivamente &#xe0; <italic>mat&#xe9;ria medica</italic> africana, n&#xe3;o se pode dizer que n&#xe3;o houve produ&#xe7;&#xe3;o e circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento sobre as qualidades e usos das plantas medicinais africanas, e sobre a pr&#xe1;tica medica nesta parte do Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s. Um exemplo desta circula&#xe7;&#xe3;o pode ser encontrado em textos europeus que permearam a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica at&#xe9; finais do s&#xe9;culo XVIII, como os de Garcia da Orta (1501-1568), Nicol&#xe1;s Monardes (1493-1555), Jo&#xe3;o Curvo Semedo (1635-1719); Francisco da Fonseca Henriques (1665-1731); Manoel Rodrigues Coelho (1687-?); Jacob de Castro Sarmento (1691-1762). Os textos destes autores, continham plantas medicinais nativas do Brasil, &#xc1;frica e &#xc1;sia (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Breen, 2019</xref>). </p>
			<p>Esta circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento foi intensa ao longo de todo o s&#xe9;culo XVIII, fomentada, principalmente, por pol&#xed;ticas de incentivo aos estudos que pudessem reconhecer as potencialidades naturais das col&#xf4;nias. A produ&#xe7;&#xe3;o sistematizada desses estudos se intensificou ao final dos setecentos, embora tenha tido in&#xed;cio enquanto discuss&#xe3;o pol&#xed;tica e cient&#xed;fica j&#xe1; no in&#xed;cio do s&#xe9;culo, tornando-se um programa concreto a partir de 1755. Nesse per&#xed;odo, os objetivos da Coroa portuguesa passavam por conhecer, classificar e dominar o territ&#xf3;rio e as suas potencialidades, ao mesmo tempo que contribu&#xed;ram para estreitar os la&#xe7;os entre Portugal e os seus dom&#xed;nios coloniais (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>). </p>
			<p>Entretanto, este marco na hist&#xf3;ria da expans&#xe3;o dos conhecimentos sobre as col&#xf4;nias deixa transparecer outra quest&#xe3;o fundamental: a conex&#xe3;o entre a &#xc1;frica e o Brasil. No contexto das investiga&#xe7;&#xf5;es sobre a natureza, nota-se que &#xc1;frica teria ficado em posi&#xe7;&#xe3;o estrategicamente secund&#xe1;ria em rela&#xe7;&#xe3;o &#xe0; Am&#xe9;rica portuguesa, que passou a atrair o maior n&#xfa;mero de profissionais qualificados e fil&#xf3;sofos naturais dispostos a trabalhar e produzir conhecimentos sobre as culturas locais e as potencialidades naturais. As expedi&#xe7;&#xf5;es para o Brasil ganharam maior aten&#xe7;&#xe3;o por parte da Coroa (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>). Prova disso pode ser encontrada numa grande quantidade de trabalhos, produzidos ao longo do s&#xe9;culo, que cont&#xea;m descri&#xe7;&#xf5;es e observa&#xe7;&#xf5;es do ambiente natural do Brasil, em rela&#xe7;&#xe3;o ao n&#xfa;mero menos expressivo sobre o territ&#xf3;rio africano. </p>
			<p>Para al&#xe9;m dos textos e tratados m&#xe9;dicos, boa parte do conhecimento sobre medicina e farm&#xe1;cia que circulou, principalmente ao longo do s&#xe9;culo XVIII, tamb&#xe9;m foi produzido de maneira informal atrav&#xe9;s de textos escritos por funcion&#xe1;rios da Coroa e intelectuais, muitas vezes sem nunca terem viajado para as col&#xf4;nias. Estes indiv&#xed;duos, atrav&#xe9;s de trocas de correspond&#xea;ncia, faziam com que o conhecimento produzido em v&#xe1;rios pontos do Imp&#xe9;rio circulasse e fizesse parte da pr&#xe1;tica m&#xe9;dica seja na &#xc1;frica, Brasil, &#xc1;sia ou Europa (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>). Um exemplo marcante na hist&#xf3;ria da produ&#xe7;&#xe3;o e circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento no Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s foi o do m&#xe9;dico Ant&#xf3;nio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). </p>
			<p>Ribeiro Sanches foi figura de importante destaque na composi&#xe7;&#xe3;o de muitas das pol&#xed;ticas cient&#xed;ficas e educacionais implementadas em Portugal ao longo do s&#xe9;culo XVIII. Conectando-se com figuras centrais do Estado portugu&#xea;s, suas ideias (mesmo que n&#xe3;o na totalidade) puderam ser incorporadas nas reformas pombalinas (1750-1777) (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">2019</xref>). Ribeiro Sanches participou ativamente na constru&#xe7;&#xe3;o das bases pol&#xed;ticas e cient&#xed;ficas para uma restrutura&#xe7;&#xe3;o da Universidade de Coimbra<xref ref-type="fn" rid="fn2">
					<sup>2</sup>
				</xref>, em particular nos processos de desenvolvimento e reforma do pensamento m&#xe9;dico e educacional. Militante para que a Coroa portuguesa aumentasse os incentivos para que os intelectuais fizessem o p&#xe9;riplo europeu, suas ideias, seus trabalhos, suas cr&#xed;ticas, foram abundantes e circularam por todo o Imp&#xe9;rio, e fora dele. Neste sentido, sabe-se que o m&#xe9;dico portugu&#xea;s escreveu algumas p&#xe1;ginas, em momentos distintos, sobre as col&#xf4;nias, especialmente &#xc1;frica e Brasil, e suas potencialidades naturais que pudessem ser utilizadas pela Coroa (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">2019</xref>). O cen&#xe1;rio pol&#xed;tico-cient&#xed;fico em Portugal nesse per&#xed;odo estava totalmente voltado para a constru&#xe7;&#xe3;o de bases que pudessem organizar a Ci&#xea;ncia no pa&#xed;s, de acordo com o pensamento iluminista. </p>
			<p>Em 1763, em carta<xref ref-type="fn" rid="fn3">
					<sup>3</sup>
				</xref> possivelmente endere&#xe7;ada &#xe0; Sebasti&#xe3;o Jos&#xe9; de Carvalho e Melo (1699-1782), o Marqu&#xea;s de Pombal, Ribeiro Sanches escreveu que &#x201c;<italic>Tanto da America Portugueza, como da Africa [&#x2026; ] cheg&#xe3;o a Portugal muitas plantas, balsamos, e gomas j&#xe1; conhecidas nas boticas, e introduzidas na Medicina&#x201d;</italic>. Esta carta foi escrita por Ribeiro Sanches quando vivia em Paris, e, apesar de nunca ter estado nas col&#xf4;nias, ele tomou conhecimento sobre diversas plantas medicinais nativas do Brasil e da &#xc1;frica, e estabeleceu conex&#xf5;es entre ambos os pontos do Imp&#xe9;rio, tentando tra&#xe7;as semelhan&#xe7;as relativas &#xe0;s abundantes potencialidades naturais que poderiam ser extra&#xed;das e cultivadas em ambos os territ&#xf3;rios (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">2019</xref>). Tamb&#xe9;m salientou a necessidade de se explorar as potencialidades naturais dos territ&#xf3;rios coloniais de maneira mais objetiva e organizada, refor&#xe7;ando a ideia de que era necess&#xe1;rio serem &#x201c;<italic>mandados</italic> (homens instru&#xed;dos) <italic>a America Portugueza, e a Angola,</italic> para <italic>descobrir os produtos daqueles Continentes</italic>&#x201d; (Sanches, 1763), principalmente relacionados com a mat&#xe9;ria medica. </p>
			<p>Dentro deste contexto, abre-se um ponto fundamental de discuss&#xe3;o e an&#xe1;lise, esta, relativa &#xe0;s consequ&#xea;ncias deste direcionamento de recursos e objetivos de explora&#xe7;&#xe3;o e reconhecimento das potencialidades naturais do Brasil e n&#xe3;o tanto da &#xc1;frica - o impacto desta estrat&#xe9;gia imperial no sistema de assist&#xea;ncia aos enfermos em &#xc1;frica, mais precisamente em Angola. </p>
			<p>&#xc9; recorrente, nas fontes documentais, a exist&#xea;ncia de reclama&#xe7;&#xf5;es por parte dos profissionais e dos colonos em Angola, relativas &#xe0; falta de m&#xe9;dicos e botic&#xe1;rios bem formados, assim como de medicamentos e mesmo de hospitais bem equipados. &#xc9; poss&#xed;vel perceber que, ao longo de todo o s&#xe9;culo XVIII, boa parte dos profissionais da &#xe1;rea da sa&#xfa;de n&#xe3;o tinha interesse em permanecer trabalhando em &#xc1;frica. A maior parte dos que para l&#xe1; eram enviados, frequentemente, come&#xe7;avam a solicitar transfer&#xea;ncia para outros pontos do Imp&#xe9;rio, principalmente o Brasil, quase que imediatamente<xref ref-type="fn" rid="fn4">
					<sup>4</sup>
				</xref>. </p>
			<p>Desde o in&#xed;cio do s&#xe9;culo XVIII, percebe-se a conex&#xe3;o entre Luanda e o nordeste brasileiro relacionada &#xe0;s quest&#xf5;es de sa&#xfa;de e medicina. No Arquivo Hist&#xf3;rico Ultramarino, em Lisboa, h&#xe1; uma s&#xe9;rie de requerimentos que remetem &#xe0; circula&#xe7;&#xe3;o de m&#xe9;dicos entre o Brasil e Angola, e tamb&#xe9;m de pessoas que viviam em Angola e pretendiam encontrar tratamento de sa&#xfa;de nas cidades brasileiras. Ao longo de todo o s&#xe9;culo, foi constante a reclama&#xe7;&#xe3;o pela falta de m&#xe9;dicos em Luanda. Figuras da administra&#xe7;&#xe3;o central, escreviam para as autoridades metropolitanas em busca de solu&#xe7;&#xe3;o para o problema da assist&#xea;ncia aos enfermos; como no caso do requerimento do Bispo de Angola - Frei Manuel de Santa Catarina, que pediu ao Rei D. Jo&#xe3;o V &#x201c;<italic>licen&#xe7;a para ir &#xe0; Ba&#xed;a, em virtude de l&#xe1; haver muitos m&#xe9;dicos e boticas para se poder tratar</italic>&#x201d; (1726)<xref ref-type="fn" rid="fn5">
					<sup>5</sup>
				</xref>, j&#xe1; que em Luanda dava-se pela falta destes. </p>
			<p>Outro ponto de conex&#xe3;o fundamental, era o com&#xe9;rcio de drogas medicinais entre ambos os pontos do Imp&#xe9;rio. Na maior parte dos casos, os requerimentos demonstram um fluxo expressivo de drogas que partiam do Brasil com destino a Luanda, e que fizeram parte do com&#xe9;rcio local de f&#xe1;rmacos, seja de maneira legal ou clandestina. Um exemplo &#xe9; o do requerimento feito pelo botic&#xe1;rio de Angola, Pedro Marques Pereira, ao rei D. Jo&#xe3;o V, solicitando que este proibisse cirurgi&#xf5;es dos navios oriundos da Corte e do Brasil de comercializarem medicamentos em Angola, dada &#xe0; grande mortalidade causada pela m&#xe1; qualidade dos f&#xe1;rmacos vendidos<xref ref-type="fn" rid="fn6">
					<sup>6</sup>
				</xref>. </p>
			<p>Este com&#xe9;rcio, recorrentemente, suplantava a produ&#xe7;&#xe3;o local de medicamentos e gerava desconforto por parte dos botic&#xe1;rios residentes em Luanda. Este cen&#xe1;rio perdurou por todo o s&#xe9;culo, e se agravou com a expuls&#xe3;o dos jesu&#xed;tas entre 1760 e 1770, pois estes eram respons&#xe1;veis por muitas das boticas angolanas que produziam rem&#xe9;dios para a popula&#xe7;&#xe3;o local. Logo no in&#xed;cio da d&#xe9;cada de 1760 come&#xe7;ou a sentir-se a falta dos medicamentos produzidos pela Ordem. Em 1760 o governador e capit&#xe3;o-general de Angola, Ant&#xf3;nio de Vasconcelos, escreveu ao Conde de Oeiras e ent&#xe3;o Secret&#xe1;rio de Estado dos Neg&#xf3;cios Interiores do Reino, Sebasti&#xe3;o Jos&#xe9; de Carvalho e Melo, sobre ter deferido o pedido do senado da C&#xe2;mara, no qual solicitavam os rem&#xe9;dios sequestrados aos jesu&#xed;tas, porque os moradores necessitavam deles depois de ter sido fechada a botica dos irm&#xe3;os da Miseric&#xf3;rdia. No mesmo requerimento, o governador tamb&#xe9;m solicitou um novo m&#xe9;dico porque o que l&#xe1; estava era bom, mas a sua sa&#xfa;de impedia-o por vezes de prestar assist&#xea;ncia<xref ref-type="fn" rid="fn7">
					<sup>7</sup>
				</xref>
				<italic>.</italic>
			</p>
			<p>A falta de m&#xe9;dicos, medicamentos e a precariza&#xe7;&#xe3;o dos hospitais era uma das problem&#xe1;ticas mais recorrentes em Angola<xref ref-type="fn" rid="fn8">
					<sup>8</sup>
				</xref>. Neste &#xe2;mbito, &#xe0;s conex&#xf5;es entre Angola e o Brasil tornam-se ainda mais pr&#xf3;ximas, e percebemos que o cotidiano colonizat&#xf3;rio em &#xc1;frica estava intimamente ligado ao da Am&#xe9;rica, ao ponto de, em 1721 o Conselho Ultramarino ter ordenado que o procurador da Fazenda verificasse acerca da falta de m&#xe9;dicos em Angola, e para que se promovesse a colabora&#xe7;&#xe3;o entre o governador e capit&#xe3;o-general de Angola, Henrique de Figueiredo e Alarc&#xe3;o, e do governador do Rio de Janeiro, Aires de Saldanha, para que fosse enviado do Brasil o doutor Filipe Cortes de Velasco. As despesas da transfer&#xea;ncia seriam integralmente pagas com recursos angariados pelos moradores de Luanda<xref ref-type="fn" rid="fn9">
					<sup>9</sup>
				</xref>. </p>
			<p>A quest&#xe3;o da precariza&#xe7;&#xe3;o da sa&#xfa;de em Angola tamb&#xe9;m pode ser notada atrav&#xe9;s de alguns requerimentos que contam o caso do f&#xed;sico-mor Tom&#xe9; Guerreiro, formado na Universidade de Coimbra (licenciado e bacharel em Artes em 1704), m&#xe9;dico em Luanda entre 1717 e 1728<xref ref-type="fn" rid="fn10">
					<sup>10</sup>
				</xref>. Em uma carta enviada pelo governador e capit&#xe3;o-general de Angola, Henrique de Figueiredo ao rei D. Jo&#xe3;o V, relata: </p>
			<disp-quote>
				<p>a c&#xe2;mara de Luanda lhe ter pedido a ele e ao governador do Rio de Janeiro, para que viesse um m&#xe9;dico do Brasil para administrar medicamentos e curar os doentes da cidade, porque o f&#xed;sico-mor [Tom&#xe9; Guerreiro ] sempre que aplicava rem&#xe9;dios matava os doentes, sendo por isso preterido a favor dos cirurgi&#xf5;es, dos botic&#xe1;rios e dos enfermeiros do hospital; informando que os moradores se comprometiam a pagar uma ajuda de custo ao m&#xe9;dico que viesse.</p>
			</disp-quote>
			<p>Este processo foi adiante, e um m&#xe9;dico chegou a ser contratado vindo do Rio de Janeiro para substituir Tom&#xe9; Guerreiro. Entretanto, o que parece &#xe9; que a vinda do m&#xe9;dico foi sabotada por Guerreiro, que acabou preso e julgado pelo Tribunal do Santo Of&#xed;cio, sendo libertado mais tarde e enviado para o Brasil como castigo<xref ref-type="fn" rid="fn11">
					<sup>11</sup>
				</xref>. Por fim, os moradores da cidade ficaram sem ambos, o f&#xed;sico-mor e o m&#xe9;dico que viria do Brasil. </p>
			<p>Em Angola, a precariedade da assist&#xea;ncia aos enfermos, e as m&#xe1;s condi&#xe7;&#xf5;es de trabalho dadas aos profissionais de sa&#xfa;de, geravam in&#xfa;meros pedidos para que fossem autorizadas viagens para o Brasil, onde se acreditava haver melhores condi&#xe7;&#xf5;es para o tratamento m&#xe9;dico. A conex&#xe3;o entre Luanda e Salvador evidencia-se em pedidos como os do Frei Manuel de Santa Catarina &#x201c;<italic>solicitando licen&#xe7;a para ir &#xe0; Ba&#xed;a, em virtude de l&#xe1; haver muitos m&#xe9;dicos e boticas para se poder tratar e depois regressar ao seu Bispado apto a exercer as suas fun&#xe7;&#xf5;es</italic>&#x201d; (1726)<xref ref-type="fn" rid="fn12">
					<sup>12</sup>
				</xref>. Outro ponto a ser notado diz respeito ao perfil dos indiv&#xed;duos que faziam estes pedidos. Geralmente, eram pessoas ligadas ao servi&#xe7;o militar, cl&#xe9;rigos e os pr&#xf3;prios m&#xe9;dicos/cirurgi&#xf5;es e f&#xed;sicos-mor. Como o caso do f&#xed;sico-mor Eus&#xe9;bio Catela de Lemos, que solicitou junto ao Rei D. Jo&#xe3;o V que <italic>&#x201c;fosse nomeado seu sucessor e pedindo licen&#xe7;a para viajar para qualquer porto do Brasil, na companhia da sua mulher, para restabelecer a sua sa&#xfa;de</italic>&#x201d; (1741)<xref ref-type="fn" rid="fn13">
					<sup>13</sup>
				</xref>. Este processo durou 2 anos, e nos diversos requerimentos constantes, o f&#xed;sico-mor afirmou que poderia ser enviado para qualquer porto do Brasil, pois o clima lhe ajudaria a curar. Boa parte desses pedidos foi aprovada pelas autoridades em Lisboa, e muitas pessoas conseguiram viajar ao Brasil a fim de encontrar tratamentos m&#xe9;dicos. Entretanto, tamb&#xe9;m houve expressiva circula&#xe7;&#xe3;o de pessoas no sentido oposto, Brasil-Angola. </p>
			<p>Em geral, o caminho oposto era feito por m&#xe9;dicos e cirurgi&#xf5;es, contratados para atuar em Luanda por per&#xed;odos pr&#xe9;-determinados. O caso mais not&#xe1;vel foi, j&#xe1; no final do s&#xe9;culo, com a contrata&#xe7;&#xe3;o do m&#xe9;dico Jos&#xe9; Pinto de Azeredo, famoso por ter escrito uma s&#xe9;rie de textos sobre doen&#xe7;as locais e m&#xe9;todos de cura (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Walker et all, 2016</xref>). Entretanto, este fluxo existiu ao longo de todo o s&#xe9;culo XVIII, como demonstra o pedido analisado pelo Conselho Ultramarino, no in&#xed;cio do s&#xe9;culo, feito pelo m&#xe9;dico baiano formado na Universidade de Coimbra (1703)<xref ref-type="fn" rid="fn14">
					<sup>14</sup>
				</xref> - Manuel de Andrada e G&#xf3;is, para ir &#x201c;<italic>servir como m&#xe9;dico em Angola</italic>&#x201d; (1703)<xref ref-type="fn" rid="fn15">
					<sup>15</sup>
				</xref>. S&#xe3;o muitos os requerimentos que demonstram esta conex&#xe3;o entre ambos os pontos do Imp&#xe9;rio. </p>
			<p>O com&#xe9;rcio de seres humanos, estabelecido a partir dos portos em Angola, criou uma estreita conex&#xe3;o entre Brasil e &#xc1;frica (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Miller, 1988</xref>) tamb&#xe9;m do ponto de vista da sa&#xfa;de e da medicina. Parte deste fluxo de pessoas indo e vindo para curar ou ser curado, foi definido pelo pr&#xf3;prio tr&#xe1;fico negreiro que estreitou a liga&#xe7;&#xe3;o entre &#xc1;frica e o Brasil, em detrimento da conex&#xe3;o entre &#xc1;frica e a Corte em Lisboa, promovendo a circula&#xe7;&#xe3;o de medicamentos, m&#xe9;dicos e doentes. Os recursos do Estado, mais concentrados no Brasil, a col&#xf4;nia que, para o per&#xed;odo, era a mais importante do ponto de vista estrat&#xe9;gico, econ&#xf4;mico e pol&#xed;tico (Boxer, 2002), promoveu um fluxo de profissionais da &#xe1;rea da sa&#xfa;de partindo dali para a &#xc1;frica. Esta circula&#xe7;&#xe3;o foi intensa ao longo de todo o s&#xe9;culo XVIII, impulsionada pela facilidade de acesso aos portos de ambos os pontos do Imp&#xe9;rio a partir do tr&#xe1;fico de escravizados (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Miller, 1988</xref>). A partir da conex&#xe3;o entre estes dois mundos, houve expressiva circula&#xe7;&#xe3;o de plantas medicinais e conhecimento sobre pr&#xe1;ticas medicas, al&#xe9;m da transplanta&#xe7;&#xe3;o de esp&#xe9;cies nativas de ambos os locais para outros pontos do Imp&#xe9;rio (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Breen, 2015</xref>). </p>
			<p>Nos textos produzidos ao longo do s&#xe9;culo sobre a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em Angola, &#xe9; poss&#xed;vel perceber esta conex&#xe3;o entre Brasil e &#xc1;frica, n&#xe3;o apenas na preocupa&#xe7;&#xe3;o com a sa&#xfa;de dos escravos que estavam aguardando pelo transporte at&#xe9; o nordeste brasileiro, mas tamb&#xe9;m na pr&#xf3;pria prepara&#xe7;&#xe3;o de medicamentos que continham, muitas vezes, elementos de ambos os territ&#xf3;rios. </p>
		</sec>
		<sec id="sec3">
			<title>Mat&#xe9;ria m&#xe9;dica angolana, textos europeus</title>
			<p>Nos dom&#xed;nios da Coroa Portuguesa, durante o s&#xe9;culo XVIII, n&#xe3;o apenas do fomento promovido pela Coroa e dos indiv&#xed;duos com forma&#xe7;&#xe3;o acad&#xea;mica viveu a investiga&#xe7;&#xe3;o da natureza e o pensamento cr&#xed;tico. N&#xe3;o foram poucos os indiv&#xed;duos que, mesmo sem uma forma&#xe7;&#xe3;o acad&#xea;mica espec&#xed;fica, produziram trabalhos sobre a natureza das col&#xf4;nias. Parte consider&#xe1;vel dos estudos sobre as potencialidades naturais das col&#xf4;nias produzidos ao longo do s&#xe9;culo XVIII foram escritos por advogados, militares (possu&#xed;am forma&#xe7;&#xe3;o em Engenharia e Hist&#xf3;ria Natural), cl&#xe9;rigos (detinham algum conhecimento espec&#xed;fico em Hist&#xf3;ria Natural), pessoas ligadas aos setores administrativos, m&#xe9;dicos, cirurgi&#xf5;es, botic&#xe1;rios, que em grande medida pretendiam aumentar os conhecimentos sobre plantas medicinais e as artes de curar (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>). Estes <italic>homens de letras</italic> - indiv&#xed;duos que produziram trabalhos sobre os mais variados temas, foram tipificados por <xref ref-type="bibr" rid="B20">J&#xfa;nia Ferreira Furtado (2012)</xref> - para o cen&#xe1;rio portugu&#xea;s, e por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Roger Chartier (1996)</xref> - para o cen&#xe1;rio franc&#xea;s. Ambos definiram os perfis desta classe de letrados como sendo diverso e conectado aos aspectos pol&#xed;tico, econ&#xf4;mico e social do per&#xed;odo em quest&#xe3;o. Chartier, para a primeira metade do s&#xe9;culo XVIII, assumiu um quadro dividido em quatro grupos, formados, respetivamente por: <bold>1.</bold> cl&#xe9;rigos, nobres, oficiais, administradores e engenheiros; <bold>2.</bold> advogados, m&#xe9;dicos, botic&#xe1;rios e professores; <bold>3.</bold> indiv&#xed;duos que dependiam exclusivamente dos financiamentos estatais; e, <bold>4.</bold> &#x201c;nobres de gosto&#x201d;. Por outro lado, J&#xfa;nia Ferreira Furtado, que tipificou o cen&#xe1;rio de produtores de trabalhos para o caso portugu&#xea;s, tamb&#xe9;m para a primeira metade do s&#xe9;culo, assumiu que as classes estariam divididas em tr&#xea;s grupos: <bold>1.</bold> Nobres de gosto; <bold>2.</bold> Letrados; e <bold>3.</bold> Oficiais. As composi&#xe7;&#xf5;es dos cen&#xe1;rios gerais de produtores de trabalhos, tanto para o caso de Chartier, quanto para o de Furtado, foram delineadas para os indiv&#xed;duos que estavam, na primeira metade do s&#xe9;culo XVIII, conectados com os ideais do Estado de criar um circuito de agentes que pudesse compor uma <italic>Rep&#xfa;blica de Letras</italic>
				<xref ref-type="fn" rid="fn16">
					<sup>16</sup>
				</xref>, e construir conhecimento sobre os mais variados temas, fazendo com que este conhecimento circulasse (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019, p. 57-55</xref>). </p>
			<p>No caso do Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s, esta configura&#xe7;&#xe3;o tipol&#xf3;gica de produtores de conhecimento pode ser observada em todos os espa&#xe7;os coloniais. Da &#xc1;sia, Brasil e &#xc1;frica, os homens que produziram conhecimento sobre medicina, filosofia-natural, geografia, clima e as tradi&#xe7;&#xf5;es culturais aut&#xf3;ctones, formam um mesmo quadro de profiss&#xf5;es, atua&#xe7;&#xf5;es profissionais e, de certo modo, conex&#xf5;es com o poder metropolitano. Neste dom&#xed;nio, o papel dos militares e dos m&#xe9;dicos/cirurgi&#xf5;es foi especialmente relevante. A partir da rede de contatos estabelecida por estes agentes, o conhecimento produzido circulou por todo o Imp&#xe9;rio - e fora dele -, fazendo parte da constru&#xe7;&#xe3;o do pensamento moderno. No caso africano, estes estudos estavam diretamente relacionados com o cotidiano colonizat&#xf3;rio, e com o com&#xe9;rcio de seres humanos e as dificuldades que diziam respeito, principalmente, ao clima e a sa&#xfa;de dos escravos antes, durante e depois das viagens at&#xe9; o destino final (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B35">Sweet, 2003</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B2">Abreu, 2016</xref>).</p>
			<p>Para o caso da produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento em Angola, dentre os trabalhos que atualmente atraem as aten&#xe7;&#xf5;es dos historiadores da Hist&#xf3;ria da Medicina, est&#xe1; a obra <italic>Ensaios sobre Algumas Enfermidades d&#x2019;Angola</italic>, escrita no final do s&#xe9;culo XVIII pelo m&#xe9;dico Jos&#xe9; Pinto de Azeredo (1764-1810). Nascido no Brasil, Azeredo estudou medicina em Edimburgo (1786-1788) e Leiden, regressando ao Brasil em 1789. No mesmo ano, foi nomeado f&#xed;sico-mor de Angola e, em 1790, foi para Luanda para trabalhar no Hospital Real (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Abreu, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B41">Walker et all, 2016</xref>).</p>
			<p>Azeredo assim como muitos outros intelectuais do Antigo Regime, escrevia sobre diversos assuntos de forma por vezes diletante e, ao oferecer seus escritos a importantes nobres, cl&#xe9;rigos ou pol&#xed;ticos, esperava ter seu trabalho reconhecido com a correspondente melhoria de sua pr&#xf3;pria posi&#xe7;&#xe3;o social. Seus escritos s&#xe3;o especialmente importantes se considerarmos o panorama intelectual do final do s&#xe9;culo XVIII (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Walker et all, 2016</xref>). Especialistas na vida e obra de Azeredo afirmam que seu trabalho como m&#xe9;dico, mais principalmente, como produtor de conhecimentos m&#xe9;dicos, tanto no Brasil quanto em Angola, foi fundamental para a medicina portuguesa, e para a hist&#xf3;ria da medicina moderna (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Walker, 2016, p. 3</xref>). Por se tratar de um trabalho do final do s&#xe9;culo XVIII, &#xe9; percept&#xed;vel a proximidade do pensamento de Azeredo com os ideais iluministas, contribuindo para uma abordagem mais racional das doen&#xe7;as angolanas, suas curas e causas, mas ao mesmo tempo buscando conhecimento a partir do contato com as popula&#xe7;&#xf5;es angolanas, e terapias baseadas em medicamentos locais. Azeredo conseguiu distanciar-se dos padr&#xf5;es m&#xed;sticos e religiosos que caracterizavam a pr&#xe1;tica da Medicina em Angola, ao adotar uma compreens&#xe3;o mais cient&#xed;fica em que &#x201c;&#x2026; <italic>a arte em Ci&#xea;ncias da medicina chama a aten&#xe7;&#xe3;o para o org&#xe2;nico, psicossocial, e fatores antropol&#xf3;gicos que implicam uma concep&#xe7;&#xe3;o da medicina como ci&#xea;ncia natural e social</italic>&#x201d; (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Cardoso, 2016: 28</xref>).</p>
			<p>O trabalho de Jos&#xe9; Pinto de Azeredo n&#xe3;o &#xe9; apenas um comp&#xea;ndio em que o autor faz relatos sobre as doen&#xe7;as e seus poss&#xed;veis m&#xe9;todos de cura. Acima de tudo, o tratado de Azeredo estabelece uma s&#xe9;rie de teses sobre as doen&#xe7;as mais comuns em &#xc1;frica. Jos&#xe9; Pinto de Azeredo procurou conduzir seus leitores atrav&#xe9;s de uma narrativa hist&#xf3;rica sobre as doen&#xe7;as angolanas e as suas causas e tratamentos. A observa&#xe7;&#xe3;o do cotidiano das popula&#xe7;&#xf5;es locais relativas as artes de curar, foi notada por Azeredo, que descreveu os medicamentos feitos pelas popula&#xe7;&#xf5;es locais de Angola - chamados de <italic>milongos</italic>, e salientou a maior import&#xe2;ncia dada aos <italic>milongos</italic>, em detrimento dos medicamentos produzidos pelos europeus (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Azeredo, 1799; Walker et all, 2016</xref>). Mesmo que seu trabalho tenha sido produzido &#xe0; luz dos princ&#xed;pios iluministas, o m&#xe9;dico n&#xe3;o deixou de observar e incorporar em seu trabalho o conhecimento africano. </p>
			<p>Anterior ao de Azeredo, o trabalho do m&#xe9;dico portugu&#xea;s Francisco Dami&#xe3;o Cosme &#xe9; tamb&#xe9;m exemplo do modelo de conhecimento produzido sobre a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em Angola, e das intera&#xe7;&#xf5;es transculturais presentes nesses textos produzidos ao longo do s&#xe9;culo XVIII. Dami&#xe3;o Cosme viveu em Angola e foi o F&#xed;sico-Mor e m&#xe9;dico oficial do Governador local - D. Francisco de Sousa Coutinho (1764-1772) (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Pina, 1967</xref>). Em seu &#x201c;<italic>Tractado das queixas endemicas, e mais fataes nesta Conquista</italic>&#x201d; (1770)<xref ref-type="fn" rid="fn17">
					<sup>17</sup>
				</xref>, ele procurou abordar as doen&#xe7;as angolanas, suas causas e tratamentos, atrav&#xe9;s de sua experi&#xea;ncia como m&#xe9;dico, mas foi um cr&#xed;tico ativo em rela&#xe7;&#xe3;o &#xe0; utiliza&#xe7;&#xe3;o de medicamentos e conhecimentos locais para a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica. Sua obra &#xe9; uma importante fonte para compreender a quest&#xe3;o da sa&#xfa;de dos escravizados que estavam &#xe0; espera do embarque para o Brasil, e tamb&#xe9;m no tratamento destes ao longo da viagem (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ferreira, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Miller, 1988</xref>). Dami&#xe3;o Cosme fez relatos sobre a falta de cuidados com os cativos, os maus tratos, a p&#xe9;ssima alimenta&#xe7;&#xe3;o, a falta de higiene e de cuidados b&#xe1;sicos de sa&#xfa;de, que favoreciam para a prolifera&#xe7;&#xe3;o de doen&#xe7;as que matavam muitos dos escravos antes mesmo de embarcarem rumo &#xe0; Am&#xe9;rica portuguesa (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kananoja, 2015</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B22">2019</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B23">2021</xref>). </p>
			<p>Outro ponto levantando por Francisco Dami&#xe3;o Cosme em seu <italic>Tractado</italic> est&#xe1; relacionado com as constantes queixas dos m&#xe9;dicos e botic&#xe1;rios, e tamb&#xe9;m da popula&#xe7;&#xe3;o, em rela&#xe7;&#xe3;o ao que se denominava como insalubridade do clima africano. Para a maior parte dos profissionais da sa&#xfa;de, os desafios impostos pelo clima em Angola eram obst&#xe1;culos de dif&#xed;cil transposi&#xe7;&#xe3;o e que mereciam total aten&#xe7;&#xe3;o por aqueles que pretendessem conhecer as causas das doen&#xe7;as e as pr&#xe1;ticas de cura (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Breen, 2015</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B10">2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B21">Kananoja, 2015</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B22">2019</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B23">2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">Abreu, 2016</xref>). Neste sentido, muitas doen&#xe7;as tinham sua origem e sua poss&#xed;vel cura, diretamente relacionadas ao clima - quente e &#xfa;mido. </p>
			<p>No <italic>Tractado</italic> de Dami&#xe3;o Cosme, &#xe9; tamb&#xe9;m quest&#xe3;o fundamental &#xe0; estreita conex&#xe3;o entre medicina e religiosidade. Sa&#xfa;de e culturas religiosas eram un&#xed;ssonos da pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em Angola. Para James Sweet, que estudou o caso particular do escravizado Domingos Alvares que atuou como curandeiro em &#xc1;frica, Brasil e Portugal (2011), as quest&#xf5;es religiosas eram parte fundamental das artes de curar pelas popula&#xe7;&#xf5;es aut&#xf3;ctones. Mesmo quando transferidos para outras regi&#xf5;es e entrando em contato com culturas m&#xe9;dicas diversas, os africanos continuavam a incorporar a m&#xed;stica religiosa na pr&#xe1;tica m&#xe9;dica di&#xe1;ria (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Sweet, 2011</xref>). Os europeus observaram com aten&#xe7;&#xe3;o estes aspectos das artes de curar locais, por raz&#xf5;es pr&#xe1;ticas e tamb&#xe9;m pol&#xed;ticas. Em parte, porque, as ordens mission&#xe1;rias, temiam que as culturas m&#xed;sticas das popula&#xe7;&#xf5;es locais ganhassem espa&#xe7;o, sendo obst&#xe1;culo &#xe0; evangeliza&#xe7;&#xe3;o e tamb&#xe9;m o com&#xe9;rcio de medicamentos por elas promovido. Al&#xe9;m dessa quest&#xe3;o, tamb&#xe9;m havia aquelas de car&#xe1;ter cient&#xed;fico. Ao longo do s&#xe9;culo XVIII, os m&#xe9;dicos formados na Europa e que estavam na &#xc1;frica a escrever sobre doen&#xe7;as e m&#xe9;todos de cura, em geral, criticavam os procedimentos baseados nos conhecimentos e pr&#xe1;ticas m&#xe9;dicas dos aut&#xf3;ctones, justamente por inserirem o misticismo religioso nos m&#xe9;todos de cura. Chamados de curandeiros pelos m&#xe9;dicos europeus, os angolanos dificilmente encontravam lugar junto aos m&#xe9;dicos que atuavam nos hospitais, ou mesmo nos atendimentos domiciliares (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Walker, 2004</xref>). </p>
			<p>De maneira geral, os m&#xe9;dicos com forma&#xe7;&#xe3;o acad&#xea;mica que escreveram sobre a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em Angola, deixaram expressas, em seus textos, cr&#xed;ticas sobre as pr&#xe1;ticas de cura locais, afirmando que somente os m&#xe9;dicos formados na Europa &#xe9; que poderiam reconhecer as melhores formas de curar as doen&#xe7;as africanas. Entretanto, apesar de existir a tentativa de distanciamento dos conhecimentos locais, as fontes documentais podem demonstrar o contr&#xe1;rio - havia a incorpora&#xe7;&#xe3;o dos conhecimentos locais e das plantas nativas de Angola, seus usos e efic&#xe1;cia para tratar as doen&#xe7;as locais mais comuns. </p>
			<p>Neste contexto, um texto escrito em 1731 chama a aten&#xe7;&#xe3;o - <italic>Arvore da Vida, e Thezouro Descuberto da Arvore Irm&#xe3;a da que se fez a Cruz da Nossa Redemp&#xe7;&#xe3;o: Para Livrar dos Maleficios do Demonio, para Vida e Saude dos Enfeiti&#xe7;ados ou Vexados do Mesmo Demonio, e outras muitas enfermides e muitos e Singulares Remedios para Muitos Achaques Aprovado Tudo Com Muitas Experiencias Prodigiozas</italic>
				<xref ref-type="fn" rid="fn18">
					<sup>18</sup>
				</xref>. O autor, Francisco de Buytrago, foi um engenheiro-militar portugu&#xea;s que viveu e trabalhou em Angola durante 20 anos. Ap&#xf3;s 10 anos de regresso a Lisboa, Buytrago decidiu escrever o seu guia medicinal. Segundo ele, o livro seria &#xfa;til para quem pretendesse saber mais sobre as doen&#xe7;as angolanas e as pr&#xe1;ticas de cura, bem como, sobre o conhecimento das pessoas locais sobre as artes de curar. As poucas informa&#xe7;&#xf5;es dispon&#xed;veis sobre a vida e trajet&#xf3;ria profissional de Francisco de Buytrago est&#xe3;o em requerimentos do acervo do Arquivo Hist&#xf3;rico Ultramarino de Portugal - s&#xe9;rie Angola<xref ref-type="fn" rid="fn19">
					<sup>19</sup>
				</xref>. A partir desses requerimentos, &#xe9; poss&#xed;vel saber, por exemplo, que Buytrago conseguiu atingir bons n&#xed;veis hier&#xe1;rquicos e sociais na sociedade angolana, especialmente no que se refere aos engenheiros-militares, uma classe importante no contexto do Imp&#xe9;rio Atl&#xe2;ntico portugu&#xea;s (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>).</p>
			<p>Buytrago organizou a estrutura da <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic> pensando na obra como um livro, provavelmente a ser publicado, dividindo-a em tr&#xea;s partes: a primeira &#xe9; uma discuss&#xe3;o sobre o que seria uma &#xe1;rvore da vida e como o misticismo e a religiosidade estiveram presentes nos processos de cura locais; na segunda parte descreveu as potencialidades naturais de Angola a partir do vi&#xe9;s de suas virtudes medicinais; e na terceira parte, construiu um cat&#xe1;logo com uma s&#xe9;rie de medicamentos, produzidos por ele, a partir de suas observa&#xe7;&#xf5;es e pr&#xe1;tica di&#xe1;ria, deixando claro em alguns momentos que o conhecimento local seria fundamental para conhecer os melhores m&#xe9;todos de cura e pr&#xe1;tica m&#xe9;dica.</p>
			<p>A <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic> &#xe9; um tratado com caracter&#xed;sticas t&#xed;picas da &#xe9;poca. No in&#xed;cio do s&#xe9;culo XVIII, ainda havia uma presen&#xe7;a marcante de aspectos religiosos nos contextos m&#xe9;dicos - doen&#xe7;as e misticismo, rem&#xe9;dios e ora&#xe7;&#xf5;es caminhavam lado a lado. Em Angola, isso era ainda mais evidente. Buytrago, por exemplo, se referiu &#xe0; bruxaria em v&#xe1;rias passagens de sua obra, e deixou claro que as pr&#xe1;ticas m&#xed;sticas estavam intrinsecamente ligadas &#xe0;s artes de curar locais. A pr&#xe1;tica de cura descrita por ele envolvia, por sua vez, n&#xe3;o apenas o combate &#xe0; pr&#xf3;pria doen&#xe7;a, mas tamb&#xe9;m os poss&#xed;veis feiti&#xe7;os que poderiam ter sido lan&#xe7;ados ao doente - em muitos momentos, padres eram chamados para ajud&#xe1;-lo no processo de cura, que envolvia exorcismos: &#x201c;<italic>casca de pao grossa, como a do nosso pinho; &#xe9; singular&#xed;ssima e milagrosa para os feiti&#xe7;os, ainda que estejam queimados, ou botados no mar ou de qualquer sorte que estejam feitos, as expulsa os demoniados e para outras muitas cousas</italic>&#x201d; (BNP, COD. 13114, p. 6). Este processo de constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimento, baseado em encontros culturais, estava presente nas artes de curar em territ&#xf3;rio africano e fazia parte do cotidiano colonizat&#xf3;rio (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Sweet, 2011</xref>). O envolvimento de religi&#xe3;o e medicina, artes de curar de origem africanas e europeias, e n&#xe3;o raramente, a presen&#xe7;a de padres cat&#xf3;licos na din&#xe2;mica da sa&#xfa;de p&#xfa;blica, eram constantes. </p>
			<p>As refer&#xea;ncias ao misticismo religioso ficaram restritas &#xe0; primeira parte da <italic>&#xc1;rvore da Vida.</italic> Nas partes II e III, Buytrago procurou destacar as virtudes dos componentes bot&#xe2;nicos locais para a fabrica&#xe7;&#xe3;o de medicamentos, descrevendo seus usos e qualidades. &#xc9; nesse ponto que temos um tratado m&#xe9;dico do s&#xe9;culo XVIII em todo o sentido de seu significado. Dando o nome de cada elemento e seus usos, Buytrago fez descri&#xe7;&#xf5;es detalhadas e acrescentou seus pr&#xf3;prios conhecimentos a cada elemento. Descreveu detalhes do conhecimento que adquiriu atrav&#xe9;s da sua pr&#xe1;tica di&#xe1;ria de cura e das suas observa&#xe7;&#xf5;es sobre os usos e resultados aplicados pelas popula&#xe7;&#xf5;es locais. Ele tamb&#xe9;m procurou descrever o elemento medicinal em seus detalhes, para que pudesse ser facilmente reconhecido, especificando as virtudes medicinais e a quantidade necess&#xe1;ria para obter o melhor resultado para cada medicamento, para cada doen&#xe7;a espec&#xed;fica. Foi o caso dos Cocos de Hat&#xea;va: <italic>&#x201c;o coco de dentro que &#xe9; o que serve para os cordeais o qual &#xe9; tamb&#xe9;m muito duro [&#x2026; ] pouca quantidade da massinha &#xe9; singular cordeal para febres&#x201d;</italic> (BNP, COD. 13114, p. 74). </p>
			<p>Francisco de Buytrago procurou incorporar ao seu trabalho elementos do saber local relacionados com as pr&#xe1;ticas de cura: &#x201c;<italic>Pau Guiseco [&#x2026; ] encontrado no Reino de Benguela [&#x2026; ] &#xe9; bom para febres. O gentio veste o corpo todo com a massinha, e assim ou a limpar, ou pelo cheiro que se d&#xe1;, e se o fazem pela manh&#xe3; se lavam a noite ou vice e versa&#x201d;</italic> (BNP, COD. 13114, p. 74). Assim, elaborou um tratado com caracter&#xed;sticas pr&#xf3;prias, influenciado pelas condicionantes sociais, pol&#xed;ticas e econ&#xf3;micas a que esteve envolvido durante o per&#xed;odo em que viveu em Angola. Neste per&#xed;odo, e como foi poss&#xed;vel observar atrav&#xe9;s dos diversos requerimentos j&#xe1; analisados, havia falta de m&#xe9;dicos e medicamentos em Angola. Em v&#xe1;rias passagens de sua <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic>, Buytrago relata que tamb&#xe9;m aplicava seus conhecimentos medicinais no tratamento das popula&#xe7;&#xf5;es de escravizados, fossem eles dom&#xe9;sticos, ou cativos esperando para o embarque. Foi a partir de sua pr&#xe1;tica m&#xe9;dica di&#xe1;ria, e do contato com m&#xe9;dicos locais, muitos deles padres, e tamb&#xe9;m com os curandeiros das regi&#xf5;es por onde passou, que Buytrago reuniu o conhecimento descrito na <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic>. </p>
			<p>Neste ponto podemos falar de processos de constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimento que envolvem rela&#xe7;&#xf5;es de poder, interc&#xe2;mbios e negocia&#xe7;&#xf5;es entre agentes europeus e comunidades locais. Estes surgem como elementos fundamentais para a compreens&#xe3;o do processo de constru&#xe7;&#xe3;o desse conhecimento e das rela&#xe7;&#xf5;es interpessoais que proporcionaram tais trocas. A partir da an&#xe1;lise da obra de Francisco de Buytrago, podemos perceber que o local pode ser um fator de influ&#xea;ncia na produ&#xe7;&#xe3;o do conhecimento, tanto no que diz respeito &#xe0; transmiss&#xe3;o, quanto ao que &#xe9; observado e como ele &#xe9; observado. As contribui&#xe7;&#xf5;es de elementos locais, neste caso a mat&#xe9;ria m&#xe9;dica angolana, na obra de Francisco de Buytrago podem ser analisadas, n&#xe3;o s&#xf3; nas esp&#xe9;cies e doen&#xe7;as que catalogou, mas tamb&#xe9;m no pr&#xf3;prio m&#xe9;todo de recolha, identifica&#xe7;&#xe3;o e descri&#xe7;&#xe3;o. Ao incorporar conhecimentos das popula&#xe7;&#xf5;es nativas e t&#xe9;cnicas locais, a <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic> acaba assumindo um car&#xe1;ter pr&#xf3;prio. Nesse caso, n&#xe3;o &#xe9; s&#xf3; o lugar que importa, mas todos os agentes e mecanismos associados &#xe0; transmiss&#xe3;o, observa&#xe7;&#xe3;o e produ&#xe7;&#xe3;o do conhecimento.</p>
			<p>No caso dos trabalhos produzidos em territ&#xf3;rio africano, &#xe9; preciso entender esta produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos n&#xe3;o apenas como uma simples dissemina&#xe7;&#xe3;o ou transmiss&#xe3;o de ideias, mas como intera&#xe7;&#xf5;es transculturais que ocorreram em <italic>zonas de contato</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Pratt, 1992</xref>), nas quais os conhecimentos dos europeus e das popula&#xe7;&#xf5;es locais teriam se encontrado em processos transculturais, dando origem a um novo conhecimento que, entretanto, n&#xe3;o pode ser compreendido como puramente europeu. A produ&#xe7;&#xe3;o de conhecimento seria ent&#xe3;o baseada em muito mais do que as simples trocas culturais, a partir das quais as culturas dos povos dominadores eram impostas e incorporadas pelos dominados, quase sem nenhuma resist&#xea;ncia (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Raj, 2013, p. 337-347</xref>). Do contato entre ambas as partes, surgem &#x201c;adapta&#xe7;&#xf5;es&#x201d; nos v&#xe1;rios aspectos culturais ou cient&#xed;ficos, fazendo com que um grupo incorpore o sistema do outro, sem que isso pressuponha a elimina&#xe7;&#xe3;o de um ou outro sistema (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>). &#xc9; uma via de m&#xfa;ltiplas dire&#xe7;&#xf5;es, na qual importam os desequil&#xed;brios nas rela&#xe7;&#xf5;es de for&#xe7;a, sem que isso signifique que a cultura dos dominadores prevaleceu, inalterada, sobre a dos dominados. No caso dos tratados m&#xe9;dicos e dos livros sobre as artes de curar, essas intera&#xe7;&#xf5;es culturais podem ser observadas de maneira clara. Quando uma droga de um local outro &#xe9; incorporada ao sistema pr&#xe9;-existente, este, passa a se tornar um conhecimento novo, com caracter&#xed;sticas pr&#xf3;prias. Nos manuais m&#xe9;dicos produzidos a partir do contato dos europeus com as popula&#xe7;&#xf5;es locais em Angola, com as doen&#xe7;as e artes de curar locais, &#xe9; poss&#xed;vel perceber que houve incorpora&#xe7;&#xe3;o dos conhecimentos de origem angolana, assim como de outros pontos do Imp&#xe9;rio. </p>
			<p>Como era comum ao longo do per&#xed;odo moderno, plantas medicinais nativas de diversos ambientes naturais circulavam e eram incorporadas &#xe0; mat&#xe9;ria m&#xe9;dica, seja nos tratados, textos n&#xe3;o oficiais e na pr&#xe1;tica di&#xe1;ria dos m&#xe9;dicos e botic&#xe1;rios. Muitas vezes, esp&#xe9;cies diferentes, mas dentro de um mesmo g&#xea;nero bot&#xe2;nico, eram comercializadas com o mesmo nome e circulavam por todo o Imp&#xe9;rio (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Bracht, 2020</xref>). Na <italic>&#xc1;rvore da Vida</italic>, pode-se verificar este tipo de circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento, especificamente entre Brasil e Angola, atrav&#xe9;s da descri&#xe7;&#xe3;o de duas plantas classificadas por Buytrago: <italic>mal&#xed;cia de mulher (&#x2026;)</italic> e <italic>Abutua</italic>/<italic>Parreira Brava (&#x2026;)</italic>. Ambas s&#xe3;o nativas do Brasil e de regi&#xf5;es sul americanas, e tamb&#xe9;m aparecem, algumas d&#xe9;cadas mais tarde, j&#xe1; no final do s&#xe9;culo XVIII, por exemplo, na &#x201c;<italic>Hist&#xf3;ria dos reinos vegetal, animal e mineral pertencente a medicina</italic>&#x201d; (1782) escrita pelo m&#xe9;dico Francisco Ant&#xf3;nio de Sampaio<xref ref-type="fn" rid="fn20">
					<sup>20</sup>
				</xref>, na Vila da Cachoeira na Bahia (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2018</xref>). Ambos, Buytrago e Sampaio, d&#xe3;o os mesmos nomes e usos &#xe0;s duas plantas, entretanto, &#xe9; prov&#xe1;vel que Buytrago estivesse diante de uma esp&#xe9;cie outra, contudo, com propriedades medicinais bastante similares. </p>
			<p>Neste caso, &#xe9; preciso salientar a import&#xe2;ncia das redes auto-organizadas, que serviam como circuitos extraoficiais e promoviam a conex&#xe3;o entre colonizadores e popula&#xe7;&#xf5;es locais, potencializando os processos de circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento entre os diferentes espa&#xe7;os imperiais (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Bracht, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Antunes &amp; Pol&#xf3;nia, 2016</xref>). Buytrago era um agente extraoficial na conjuntura m&#xe9;dica local, mas atuou como intermedi&#xe1;rio na produ&#xe7;&#xe3;o e circula&#xe7;&#xe3;o de conhecimento naquele per&#xed;odo. Al&#xe9;m disso, o conhecimento que circulava a partir dessas redes, promovia um intenso interc&#xe2;mbio, fazendo com que o conhecimento m&#xe9;dico produzido em um territ&#xf3;rio, pudesse ser incorporado em outros. Atrav&#xe9;s destas redes, n&#xe3;o circulavam apenas as plantas medicinais em si, mas o conhecimento sobre seus usos e as descri&#xe7;&#xf5;es das esp&#xe9;cies, que, por sua vez, podiam ser aplicados na averigua&#xe7;&#xe3;o das potencialidades naturais de outros territ&#xf3;rios. Buytrago, que tamb&#xe9;m esteve por v&#xe1;rios e dispersos per&#xed;odos na Bahia<xref ref-type="fn" rid="fn21">
					<sup>21</sup>
				</xref>, teve contato com essas esp&#xe9;cies de plantas medicinais, e incorporou-as ao conhecimento que estava sendo produzido em &#xc1;frica, muito antes de Francisco Ant&#xf3;nio de Sampaio (Bahia, 1780). </p>
			<p>Neste contexto, a import&#xe2;ncia do local, do espa&#xe7;o como constituinte do sistema de intera&#xe7;&#xf5;es entre os agentes, passa a ter uma import&#xe2;ncia significativa. Como o processo de constru&#xe7;&#xe3;o do conhecimento n&#xe3;o &#xe9; linear e t&#xe3;o pouco produzido a partir de um modelo &#xfa;nico para todas as comunidades, a influ&#xea;ncia de fatores externos, como ideias, padr&#xf5;es, teorias vindas de outras localidades, de outros indiv&#xed;duos, dotam a produ&#xe7;&#xe3;o cient&#xed;fica de caracter&#xed;sticas pr&#xf3;prias do local no qual ela foi realizada (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Schaffer, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Bracht, 2019</xref>). Compreender a constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos m&#xe9;dicos em Angola considerando &#xe0; influ&#xea;ncia de fatores locais que s&#xe3;o &#xfa;nicos de cada comunidade, &#xe9; fundamental para compreendermos at&#xe9; que ponto as culturas m&#xe9;dicas locais foram incorporadas nos textos produzidos pelos europeus, mesmo que estes n&#xe3;o tenham assumido a validade deste conhecimento prim&#xe1;rio. </p>
		</sec>
		<sec id="sec4" sec-type="conclusions">
			<title>Considera&#xe7;&#xf5;es finais</title>
			<p>A conex&#xe3;o entre Angola e o Brasil, fomentada pelo tr&#xe1;fico de seres humanos atrav&#xe9;s da rota atl&#xe2;ntica mais importante do per&#xed;odo moderno, fomentou a circula&#xe7;&#xe3;o de bens e conhecimento que marcou a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica e o pr&#xf3;prio conhecimento produzido sobre as potencialidades naturais de ambos os territ&#xf3;rios. Neste sentido, &#xe9; preciso compreender que em cada local, os agentes hist&#xf3;ricos estiveram envolvidos em contextos sociais, religiosos e geogr&#xe1;ficos distintos entre si, e que estes, s&#xe3;o pragm&#xe1;ticos na escolha daquilo que querem apreender, e definem construir o conhecimento de acordo com uma s&#xe9;rie de fatores que acreditam fazer sentido, n&#xe3;o apenas para si pr&#xf3;prios, mas tamb&#xe9;m para a comunidade que ir&#xe1; receber e validar o trabalho produzido. Neste caso, a quest&#xe3;o da sa&#xfa;de dos povos escravizados que estavam a espera para serem levados ao local de seu cativeiro, tornou-se um fator fundamental na constru&#xe7;&#xe3;o de conhecimentos m&#xe9;dicos locais. Em meio a comunidades de traficantes e senhores de escravos, as preocupa&#xe7;&#xf5;es com as enfermidades incapacitantes, ou mesmo a perda de vidas cativas e, consequentemente, a diminui&#xe7;&#xe3;o de seus lucros ou for&#xe7;a de trabalho, estavam sempre na ordem do dia. Outro fator relevante na escolha pela produ&#xe7;&#xe3;o de textos sobre as artes de curar subsaarianas, plantas medicinais e o pr&#xf3;prio clima, estavam relacionadas com o cotidiano colonizat&#xf3;rio, em que os europeus enfrentavam dificuldades de adapta&#xe7;&#xe3;o e eram recorrentemente acometidos pelas doen&#xe7;as tropicais, tendo que recorrer, por vezes, aos agentes locais em busca de poss&#xed;veis tratamentos. A conex&#xe3;o entre os dois principais pontos do Imp&#xe9;rio portugu&#xea;s foi fundamental para a forma&#xe7;&#xe3;o da pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em ambos os territ&#xf3;rios, mas, podemos perceber que em Angola a influ&#xea;ncia do conhecimento que vinha do Brasil foi relevante, principalmente na pr&#xe1;tica m&#xe9;dica di&#xe1;ria. </p>
			<p>Nesse sentido, de forma relevante, boa parte dos tratados m&#xe9;dicos produzidos sobre a pr&#xe1;tica m&#xe9;dica em Angola, deixa transparecer, que os conhecimentos das popula&#xe7;&#xf5;es locais foram incorporados e validados atrav&#xe9;s da circula&#xe7;&#xe3;o de textos escritos por europeus, da pr&#xe1;tica m&#xe9;dica di&#xe1;ria, e do reconhecimento das potencialidades naturais de origem africana.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<title>Notas</title>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>
					<sup>1</sup>
				</label>
				<p>No s&#xe9;culo XVIII, o territ&#xf3;rio a que comumente denominamos de Angola, compreendia, principalmente, as &#xe1;reas litor&#xe2;neas adjacentes &#xe0; cidade de S&#xe3;o Paulo de Luanda. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>
					<sup>2</sup>
				</label>
				<p>Foi neste per&#xed;odo que a c&#xe1;tedra de Hist&#xf3;ria Natural da Universidade de Coimbra foi ocupada pelo m&#xe9;dico e fil&#xf3;sofo natural italiano Domenico Vandelli (1735-1816). A partir de 1764, quando contratado, Vandelli foi o principal idealizador de uma s&#xe9;rie de viagens pelo Reino e possess&#xf5;es ultramarinas, todas elas ligando o car&#xe1;ter cient&#xed;fico &#xe0;s inten&#xe7;&#xf5;es de cunho econ&#xf4;mico e pol&#xed;tico, tais como as de fazer um invent&#xe1;rio dos recursos naturais que pudessem ser explorados no futuro (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Concei&#xe7;&#xe3;o, 2019, p. 57-58</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>
					<sup>3</sup>
				</label>
				<p>BNP (Biblioteca Nacional de Portugal), sec&#xe7;&#xe3;o dos Reservados, COD. 6941//4. <italic>Apontamentos para descobrir na Am&#xe9;rica Portuguesa aquelas produ&#xe7;&#xf5;es naturais que podem enriquecer a Medicina, e o Com&#xe9;rcio</italic>, 1763.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>
					<sup>4</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>
					<sup>5</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 24, D. 2468.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>
					<sup>6</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 33, D. 3141</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>
					<sup>7</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_Angola, CX. 47, D 4297</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>
					<sup>8</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 22, D. 2238. AHU_CU_001, Cx. 24, D. 2413. AHU_CU_001, Cx. 25, D. 2513. AHU_CU_001, Cx. 30, D. 2948. AHU_CU_001, Cx. 35, D. 3335. AHU_CU_001, Cx. 38, D. 3613.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>
					<sup>9</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 22, D. 2259.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>
					<sup>10</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 33, D. 3136.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>
					<sup>11</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 29, D. 2801.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>
					<sup>12</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 24, D. 2468.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>
					<sup>13</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 35, D. 3335.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>
					<sup>14</sup>
				</label>
				<p>PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/G/001738 - Arquivo da Universidade de Coimbra. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>
					<sup>15</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 18, D. 1944.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>
					<sup>16</sup>
				</label>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B28">Jose Pardo Tom&#xe1;s (2010)</xref>: &#x201c;La cultura cient&#xed;fica de la <italic>Rep&#xfa;blica de las Letras</italic> se fue identificando progresivamente (al tempo que, podr&#xed;amos decir, se constru&#xed;a a s&#xed; misma) com una serie de pr&#xe1;cticas culturales originales o, em todo caso, renovadas com componentes t&#xed;picos de la &#xe9;poca&#x201d;, p. 8.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>
					<sup>17</sup>
				</label>
				<p>BPMP (Biblioteca P&#xfa;blica Municipal do Porto), 2&#xaa; S&#xe9;rie &#xc1;frica - COD. 1355.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>
					<sup>18</sup>
				</label>
				<p>BNP (Biblioteca Nacional de Portugal), sec&#xe7;&#xe3;o de manuscritos reservados, COD. 13114. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>
					<sup>19</sup>
				</label>
				<p>AHU_CU_001, Cx. 19, D. 2027; AHU_CU_001, Cx. 20, D. 2084; AHU_CU_001, Cx. 22, D. 2238.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>
					<sup>20</sup>
				</label>
				<p>Nasceu em Vila Real, Portugal. Mudou-se para o Brasil possivelmente em 1748. Estabeleceu-se na Vila da Cachoeira - Capitania da Bahia, e, entre 1782 e 1789 produziu dois grandes trabalhos sobre Medicina e Hist&#xf3;ria Natural: Hist&#xf3;ria dos reinos Vegetal, Animal e Mineral do Brasil, pertencente &#xe0; Medicina - Tomos I e II (Funda&#xe7;&#xe3;o Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: FBN, manuscritos, I-12,01,019 e FBN, manuscritos, I-12,01,020).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>
					<sup>21</sup>
				</label>
				<p>A liga&#xe7;&#xe3;o de Buytrago com o Brasil pode ser notado em requerimentos do Arquivo Hist&#xf3;rico Ultramarino - s&#xe9;rie Bahia, que reportam a sua desloca&#xe7;&#xe3;o para Salvador, onde teve lugar como militar.</p>
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