Na década de 1920, não era incomum aos leitores de revistas de variedades da cidade do Rio de Janeiro encontrarem, em meio às notícias e novidades do momento, colunas de aconselhamentos, crônicas e artigos que destacavam a dimensão psicológica individual. Porém, foi na década de 1930 que este movimento de divulgação dos debates científicos sobre teorias médico-psicológicas -provenientes da psiquiatria, psicologia e psicanálise- cresceu e ganhou amplitude nestes veículos de comunicação, de modo que tais teorias circularam1O termo circulação é aqui utilizado como uma categoria analítica mais ampla que a ideia de divulgação, quando vista como sinônimo de “transmissão” de informações em um único sentido, do “produtor” ao “receptor”. A construção do que é comumente aceito como conhecimento científico (teorias, práticas e métodos, entre outros) é aqui pensada como um processo dinâmico que não está restrito ao seu contexto de produção, mas que se configura como uma “forma de ação comunicativa”, abrangendo práticas de circulação, tradução e divulgação (Secord, 2004, p. 661). Deste modo, considero a circulação de conhecimentos como um processo que engloba a produção, apropriação, ressignificação e divulgação de ideias e práticas. Nesse processo de circulação, que se constitui por meio de uma série de movimentos de negociação, acomodação e resistência, Kapil Raj salienta o papel do que ele chama de intermediários ou mediadores, que possibilitam o contato e facilitam o intercâmbio entre culturas diversas, sejam estas áreas do conhecimento, disciplinas especializadas, públicos heterogêneos e mesmo entre nações (Raj, 2013). no Rio de Janeiro, tanto em espaços acadêmicos -universidades e associações médicas e científicas- quanto em ambientes não especializados, como as redações e bancas de jornais e revistas. Podemos citar como exemplos de teorias médico-psicológicas que ganharam espaço na imprensa carioca da década de 1930 a psiquiatria organicista definida pelo médico alemão Emil Kraepelin (1856-1926), a psicanálise segundo Sigmund Freud (1856-1939), a biotipologia humana desenvolvida pelo médico italiano Nicola Pende (1880-1970), dentre outras.
A circulação dessas teorias em espaços não especializados se fez a partir de processos de seleção, hibridização e adequação destas para fins diversos, realizados por intelectuais mediadores brasileiros. Estes foram sujeitos históricos dedicados ao processo de mediação cultural, envolvendo tanto a produção como a circulação de conhecimentos, em um processo direta ou indiretamente vinculado à intervenção social e política destes intelectuais em contextos específicos (Gomes e Hansen, 2016, pp. 9-10Gomes, Angela de Castro; Hansen, Patricia Santos (2016), “Intelectuais, mediação cultural e projetos políticos: uma introdução para a delimitação do objeto de estudio”. En: Gomes, Angela de Castro; Hansen, Patricia Santos (orgs.), Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, pp. 7-40.). Tais mediadores culturais brasileiros apresentavam perfis profissionais variados, pois eram médicos, juristas, jornalistas, educadores, escritores, dentre outros. O que os unia, além do interesse em promover a divulgação científica, era seu caráter intelectual multifacetado, que dificilmente poderia ser compreendido através de um viés unilateral que focalizasse apenas na sua principal atividade profissional.
Dentre as diferentes teorias médico-psicológicas que circulavam na imprensa de variedades, podemos destacar os estudos sobre a constituição e o caráter individual, e a genialidade desenvolvidos pelo psiquiatra alemão Ernest Kretschmer2Kretschmer foi discípulo do psiquiatra e neurologista Robert Eugen Gaupp (1870-1953), na Universidade de Tübingen, onde defendeu sua tese doutoral, sob o título de “Formação do delírio e complexo sintomático maníaco-depressivo”, em 1918 (Beraldo, 2021). Foi médico, professor de Neurologia e Psiquiatria e diretor das Clínicas Neurológicas de Tübingen e de Marburg. Devido ao seu posicionamento contrário ao nazismo, teve que se afastar da presidência da Sociedade Alemã de Psicoterapia em 1933. Após o final da Segunda Guerra Mundial, teve uma participação ativa no processo de reconstrução da psiquiatria alemã (Yahn, 1953; Sagarra, 1954; Roudinesco e Plon, 1998; Gil e Weber, 2002). (1888-1964). Em seus livros publicados no início da década de 20, Kretschmer defendeu a existência de correlações entre a constituição corporal (estrutura anatômica baseada na hereditariedade), o temperamento (influenciado pelos humores, que estão diretamente relacionados aos “aparatos neuroendócrinos e psíquicos”)3O termo temperamento em Kretschmer não pode ser entendido a partir de um conceito unitário, pois está mais próximo de uma visão heurística das ligações “hemoquímicas e humorais” que afetam o aparelho psíquico e servem como ponte na correlação entre a constituição e o caráter (Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor, pp. 385-386). e o caráter (a personalidade individual formada a partir das predisposições hereditárias em conjunto com as influências do meio social) (Kretschmer, 1954, pp. 384-385Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.). As obras de Kretschmer começaram a ser divulgadas nas ciências médicas no Rio de Janeiro já nessa mesma década de 1920, em manuais e revistas especializadas.4Dentre as produções historiográficas mais recentes, existem trabalhos que, direta ou indiretamente, analisaram diferentes aspectos da recepção e apropriação da obra de Kretschmer no contexto especializado, seja observando os debates sobre teorias da biocriminologia (Ferla, 2012) e as aplicações das teorias de Kretschmer às agendas médico-criminológicas brasileiras (Dias, 2015), ou analisando a divulgação científica da biotipologia ( Vimieiro-Gomes, 2016); o holismo médico e constitucionalismo kretschmeriano na medicina e psiquiatria (Beraldo, 2021) e o cruzamento com o processo de institucionalização da endocrinologia no Brasil (Lima, 2021). Já em relação ao público não especializado, temos a análise da mediação cultural das ideias de Kretschmer em conjunto com outras teorias médico-psicológicas na imprensa diária (Cerqueira, 2019). Em paralelo, no mesmo período e na década seguinte, observa-se que médicos, escritores, jornalistas e educadores se dedicaram a pensar, explicar e escrever a respeito das teorias de Kretschmer, em livros de divulgação, estudos biográficos, artigos e colunas de jornais diários e revistas de variedades. Nestes espaços, as ideias de Kretschmer foram mobilizadas e apropriadas por intelectuais brasileiros de diferentes maneiras, para discutir temáticas várias que estavam no topo das agendas locais da época. Neste processo de circulação, tais teorias também passaram por um processo de hibridização com outras teorias que estavam em voga naquele mesmo contexto.
Não é objetivo deste artigo discutir a teoria constitucional de Kretschmer e seus conceitos por si próprios, mas a sua recepção, apropriação e possíveis ressignificações em um contexto diverso da sua publicação original. O intuito não é determinar qual apropriação foi mais “fiel” ou mais “correta”, mas mapear as diferentes influências que levaram aos processos de ressignificação.
Assim, analiso como a teoria constitucional de Kretschmer foi apropriada e divulgada pelo médico e escritor João Peregrino Jr. (1898-1983),5João Peregrino Júnior da Rocha Fagundes nasceu na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, na região Nordeste do Brasil, onde iniciou sua carreira como jornalista. Em 1920, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, na região Sudeste, então capital do país, onde trabalhou como cronista e jornalista na Gazeta de Notícias, O Jornal, Careta e Vamos Lêr, dentre outros. A maior parte de sua produção intelectual como contista e cronista esteve concentrada entre 1928 e 1938. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1945. Concluiu o curso de medicina em 1929. Foi médico adjunto da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e fundador e diretor do Serviço de Endocrinologia da Policlínica do Rio de Janeiro. Trabalhou como docente na Faculdade Nacional de Medicina (Clínica Médica e Biometria). Também foi fundador e o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Biotipologia e Nutrição e diretor-presidente da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, dentre outros cargos. Tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina (ANM) em 1955 (ABL, s. d.; ANM, s. d.). no período de 1930 a 1941. Observo como Peregrino Jr. aplicou essa teoria na crítica literária e artística de biografias médicas e psicológicas -as patografias-6A chamada patografia moderna, surgida na segunda metade do século XIX, diferenciou-se do modelo de estudo clínico clássico de análise de qualquer indivíduo adoecido para se debruçar sobre o estudo de um grupo específico: os intelectuais e artistas considerados gênios criativos, assumindo um tom generalizante e estigmatizante, ao mesmo tempo em que se tornava uma forma de divulgação e popularização das teorias médicas na Europa. Psiquiatras e psicanalistas desenvolveram estudos de caso da psiquê dos gênios, considerados como indivíduos excepcionais, que envolviam investigações de aspectos da sua vida familiar, sexualidade e também sua produção artística. Nesses estudos de caso existia assim uma tendência para a generalização, onde o estudo das personalidades de artistas e intelectuais era utilizado como ilustração para a defesa de teorias médicas já estabelecidas, que poderiam ser aplicadas à população em geral (Lang, 2017, pp. 54-57).bem como em debates locais sobre a relação entre medicina e literatura. O caso de Peregrino Jr., assim, será analisado como um exemplo da apropriação e divulgação das teorias do médico alemão no contexto não especializado.
Peregrino Jr., enquanto mediador cultural das ideias de Kretschmer7O fato das obras de Kretschmer terem sido escritas em alemão, língua conhecida por poucos no Brasil, somado ao próprio estilo do autor, pouco didático, e o caráter especializado das obras, sem dúvida contribuiu para que os seus conceitos fossem considerados como de difícil compreensão, abrindo espaço para o surgimento de comentadores e mediadores culturais como Peregrino Jr. Para tais mediadores era importante construir uma reputação, em espaços de popularização da ciência como jornais e revistas, como especialistas no assunto e por isso capazes de divulgá-lo e sobretudo explicá-lo para um público não especializado em medicina. , defendeu o uso destas para a elaboração de críticas literárias e artísticas, assim como de análises biográficas de artistas, que ele considerava mais completas e profundas do que as embasadas em outras correntes médicas e psicológicas, como a psicanálise. Paralelamente, ele defendia que os médicos eram os maiores especialistas no corpo e na alma humana, o que os deixava em vantagem em relação aos escritores para escrever sobre a personalidade dos indivíduos. Assim, meu argumento é que Peregrino Jr., neste momento inicial de sua carreira médica, na década de 1930, buscou se firmar como expert, por conseguinte, divulgador da biotipologia e endocrinologia, em paralelo à sua trajetória como escritor e intelectual, defendendo a aproximação entre literatura e medicina, ciência e arte. Para conseguir isto, ele deslocou a discussão sobre as teorias de Kretschmer para revistas e livros não especializados, contribuindo com a formação de um público leitor leigo interessado nos debates sobre tipos biopsíquicos.
TIPOS CONSTITUCIONAIS, TEMPERAMENTO, CARÁTER E GENIALIDADE SEGUNDO KRETSCHMER
⌅Os primeiros livros de Kretschmer divulgados em revistas cariocas, ainda no final da década de 1920 e início da década seguinte, foram Körperbau und Charakter: Untersuchungen zum Konstitutionsproblem und zur Lehre von den Temperamenten (Estrutura corporal e caráter: estudos sobre o problema da constituição e a teoria dos temperamentos), Psicologia Médica (1922) e Histeria, Reflexo e Instinto (1923). O livro Körperbau und Charakter, publicado em 1921, se destacou dentre as obras de Kretschmer como uma das mais comentadas, traduzidas e divulgadas em outros países8Körperbau und Charakter foi reeditado vinte vezes em língua alemã até o início da década de 1950, sendo traduzido para o inglês em 1925 e para o francês em 1930. (Sagarra, 1954Sagarra, J. Solé (1954), “Prólogo a la segunda edición española”. En: Kretschmer, Ernst. Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor, pp. v-vi.), inclusive no Brasil. O livro obteve tal destaque, em parte, por reunir no formato de compêndio as principais ideias do autor sobre as relações entre a estrutura corporal, o temperamento e o caráter dos indivíduos, divulgadas em artigos e conferências e que também aparecem em outras obras do médico alemão.
A tipologia constitucional de Kretschmer representou uma busca pela modificação e aperfeiçoamento dos “quadros degenerativos clássicos” e resultou em uma teoria combinatória. Esta teoria estava inserida no conjunto de estudos da “psicopatologia constitucional e reativa” e, ao mesmo tempo integrava um movimento de reação às concepções clássicas da psiquiatria alemã de Kraepelin. A teoria kretschmeriana sobre a constituição individual visava, sobretudo, relacionar tipos de estruturas morfológicas características do corpo humano com formas de temperamentos (relativos às reações endócrino-humorais e neurovegetativas), e com aspectos da personalidade (o caráter) (Kretschmer, 1954, pp. 384-385Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.). Tal linha teórica, porém, além de focalizar os aspectos orgânicos e anatômicos, também se preocupava tanto com os resultados provenientes da interação do indivíduo com as experiências vividas (educacionais, sexuais e profissionais) -condicionantes do caráter-, quanto com a influência hereditária (Bercherie, 1989, pp. 225-248Bercherie, Paul (1989), Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber psiquiátrico, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.).
Esse viés teórico multidimensional defendido por Kretschmer estava inscrito na tradição dos estudos de medicina constitucional,9Na Alemanha, os principais defensores da medicina constitucional foram Friedrich Wilhelm Beneke (1824-1882), Friedrich Kraus (1858-1936) e o austríaco Friedrich von Martius (1850-1923). Já na França, foram desenvolvidos estudos morfológicos por Jean-Noel Hallé (1754-1822), Auguste Chaillou (1866-1915) e Léon Mac-Auliff (1876-1937). E, na Itália, Achille De Giovanni (1838-1916) introduziu o sistema da antropometria na clínica (Albrizio, 2007, pp. 112-113). desenvolvidos entre o século XIX e início do XX em estreita ligação com a antropometria. O interesse da medicina pelo estudo da constituição individual, entretanto, não era algo novo. Ele já estava presente na tradição hipocrática e na teoria dos humores desenvolvida por Galeno, fazendo-se notar em acirrados debates que, durante séculos, envolveram os binômios alma e corpo, soma e psiquê. Os estudos oitocentistas configuravam uma crítica à medicina experimental e à recém-constituída microbiologia e a busca por um retorno à visão anterior, denominada de “humanista”, da prática médica. O programa de pesquisa desta medicina constitucional moderna visava conhecer o indivíduo por completo, utilizando-se de instrumentos de medição, da matemática e principalmente da estatística para determinar as diferenças entre os indivíduos. Era fundamental para este programa identificar os tipos de temperamento e a constituição humana, medir o nível de reatividade e suscetibilidade frente à ação de agentes patogênicos e, por fim, demonstrar que determinados tipos físicos estariam predispostos ao desenvolvimento de determinadas doenças (Albrizio, 2007, pp. 112-113Albrizio, Angelo (2007), “Biometry and Anthropometry: from Galton to Constitutional Medicine”, Journal of Anthropological Sciences, 85.).
A teoria psiquiátrica de Kretschmer propunha um deslocamento do foco dos estudos da noção de “entidade mórbida” para uma análise psicopatológica dos mecanismos que afetariam o indivíduo como um todo (Bercherie, 1989, pp. 246-248Bercherie, Paul (1989), Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber psiquiátrico, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.), desenvolvendo uma classificação de tipos psicofísicos10Entretanto, o psiquiatra alemão não foi o único a desenvolver uma tipologia a partir da correlação entre tipos físicos, traços de personalidade, comportamento e estruturas endócrinas. Na Itália, por exemplo, Giacinto Viola (1870-1943) aperfeiçoou o método antropométrico desenvolvido por seu mestre De Giovanni, incorporando a este o uso da estatística, e Nicola Pende (1880-1970) desenvolveu uma teoria -“biotipologia humana”- que abarcava os campos da endocrinologia e da psicologia, descrevendo diferentes tipos de temperamentos diretamente relacionados aos hormônios (Albrizio, 2007, pp. 112-113; 115-118).. Em seu livro Körperbau und Charakter, o médico alemão observava características físicas que eram frequentes em determinadas patologias mentais. Seu método de medida do corpo humano chegou à classificação de três tipos de estrutura corporal principais (Tabela 1)11Além destes tipos físicos principais ele considerava a existência do grupo dos displásicos especiais, que apresentavam deficiências hormonais (eunucóide, viril, adiposo pluriglandular e infantil hipoplástico).:
| Pícnico | Leptossômico (astênico) | Atlético |
|---|---|---|
| cheio, físico arredondado | frágil, fisico linear | muscular, fisico vigoroso |
Estes tipos eram determinados pelas “descrições diagramáticas, mensurações antropológicas e análise de esboços e fotografias”. Por este método, Kretschmer afirmava que cada tipo físico teria predisposição a uma patologia mental específica; assim, o “pícnico” teria uma tendência para a psicose maníaco-depressiva (cicloide) e o astênico para a esquizofrenia (esquizoide). Entre os indivíduos considerados “normais”, a relação estabelecida pelo psiquiatra alemão dava-se entre o “pícnico” como extrovertido e o “leptossômico” como introvertido (Kretschmer, 1954, pp. 23-41Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.). Além disso, correlacionado a cada uma dessas estruturas corporais, o psiquiatra alemão estabelecia um “temperamento” específico, o qual era visto como expressão da “vitalidade individual” (Tabela 2):
| Constituição física | Temperamento | Condições mórbidas |
|---|---|---|
| Pícnico | Ciclotímico: bipomaníaco (alegre e móvel); sintônico (realistas práticos); melancólico (triste, moroso, deprimido) | Formas cíclicas (maníaco- depressivo) |
| Leptossômico | Esquizotímico: hiperestésico (delicado, nervoso, idealista); esquizotímico intermediário (moderado, enérgico, sistemático, calmo); anestésico (frio, friamente nervoso, lento e preguiçoso) | Esquizofrenia |
| Atlético | Viscoso: Fleumático (apático); Explosivo | Catatonia, demência precoce, epilepsia |
Partindo deste esquema psicofisiológico, ainda caberiam correspondências entre o temperamento, o psicológico (o caráter) e o sociológico; por exemplo, os indivíduos ciclotímicos em posição de chefia tenderiam a ser “organizadores audaciosos” ou “negociadores inteligentes”, já os esquizotímicos estariam mais propensos a ser “idealistas puros”, “déspotas e fanáticos” ou “calculadores frios” (Kretschmer, 1954, pp. 23-41Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.).
No citado livro, Kretschmer também dedicou um capítulo para o estudo da constituição, temperamento e caráter dos indivíduos considerados geniais. Para ele, a distância intelectual e social que separava os “superdotados” dos “delinquentes”, outro grupo que ele investigou, era apropriada para a melhor definição de como as principais leis biológicas atuavam sobre os tipos extremos, assim como sobre o são e o doente (Kretschmer, 1954, p. 355Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.). Para o estudo dos gênios, o médico alemão os dividia em três grupos: os artistas, os intelectuais (poetas e literatos) e o grupo dos caudilhos e heróis. Dentre estes grupos, ele se dedicou a estudar, principalmente, os poetas e literatos, pois havia grande quantidade de material biográfico disponível sobre esses indivíduos, assim como retratos e notas bibliográficas, além “da autodescrição do próprio temperamento na totalidade de sua obra”, o que o autor considerava ser “um documento psicológico objetivo de valor incalculável” (Kretschmer, 1954, p. 356Kretschmer, Ernst (1954) [1921], Constitución y carácter, Buenos Aires, Editorial Labor.), e impossível de ser replicado em qualquer outro grupo de gênios. No final da década de 1920, ele escreveu um livro dedicado ao estudo destes indivíduos, sob o título de Geniale Menschen (Pessoas geniais). Certamente este não era um tema novo no campo médico-psiquiátrico, havendo uma longa tradição de escritos sobre a genialidade desde o século XIX12Na psiquiatria do final do século XIX temos os estudos de Lombroso sobre Gênio e loucura (1874) e de Möbius sobre Rousseau (1889), Goethe (1890, 1898), Schopenhauer (1899) e Nietzsche (1900) (Lang, 2017). No início do XX, se dedicaram a esta temática, por exemplo, os médicos Ferdinand Probst, Edgar Allan Poe (1906); Reibmayr, Die Entwicklungsgeschichte des Talentes und Genies (História evolutiva do talento e do gênio), de 1908; Freud, Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci (1910). Ver também Huertas e Winston (1993) e Ginés (2009).. Contudo, ao se apropriar das discussões a este respeito, as produções do médico alemão tiveram grande influência nos debates sobre a genialidade, nas produções biográficas e em livros de divulgação sobre a genialidade criativa, no contexto brasileiro, entre as décadas de 1930 e 1940.
A CIRCULAÇÃO DAS IDEIAS DE KRETSCHMER EM JORNAIS E REVISTAS CARIOCAS
⌅O início da circulação da teoria de Kretschmer em revistas cariocas, ainda na década de 1920, ocorreu concomitantemente à sua recepção no âmbito das instituições acadêmicas, não somente na área da medicina geral13 Vimieiro-Gomes (2016) destaca o papel do médico Juvenil da Rocha Vaz como um importante divulgador da medicina constitucional e da biotipologia entre os médicos cariocas. Ele trabalhou como chefe do Gabinete Biotipológico da Clínica Propedêutica da FMRJ e participou da formação de um grupo de médicos que se destacaram como biotipologistas, como Waldemar Berardinelli e Peregrino Júnior, dentre outros. Nas áreas da medicina legal, psiquiatria forense e criminologia, Allister Dias destaca o papel desempenhado pelo médico Heitor Carrilho na divulgação da biotipologia (Dias, 2015), enquanto Luis Ferla observa que a “biotipologia humana” desenvolvida por Pende teve o médico Leonídio Ribeiro como um dos principais divulgadores no campo da endocrinologia e psiquiatria forense (Ferla, 2012). como na psiquiatria, medicina legal, endocrinologia, direito, educação, estando presente em cursos, discussões e produção de teses e manuais14A circulação das ideias constitucionalistas entre acadêmicos brasileiros, ente os anos de 1920 e 1940, gerou uma vasta produção de estudos brasileiros que procuravam apresentar e explicar as teorias sobre “constituições” e “biotipos”, dirigidos tanto ao leitor especializado ou em formação, quanto ao público em geral. Podemos citar como exemplos os seguintes trabalhos: Peregrino Jr., João (1936c), Biotipologia e educação, Rio de Janeiro, Diretoria Nacional de Saúde e Assistência Médico-Social; Peregrino Jr., João (1936d), Interpretação biotipológica das artes plásticas, Rio de Janeiro; Berardinelli, Waldomiro (1942) [1932], Tratado de biotipologia, 4.ª ed., Rio de Janeiro; Backheuser, Everardo (1941), “Novos rumos à pedagogia?”, Revista Brasileira; Lopes, Inácio da Cunha (1942), “Contribuição ao estudo dos tipos morfológicos na mulher psicopata”, Arquivos da Polícia Civil de São Paulo, IV, dentre outros.. A forma como as ideias de Kretschmer foram apropriadas e transmitidas nas citadas especialidades acadêmicas influenciou diretamente na sua divulgação. Elas foram frequentemente citadas por estudiosos destas áreas como parte de um conjunto maior de teorias constitucionalistas, agrupadas sob o termo genérico de biotipologia15O termo “biotipologia”, da maneira como foi compreendido e referenciado nas revistas consultadas, abarcava um conjunto amplo de teorias constitucionalistas que englobava a “biotipologia humana” desenvolvida por Pende e as teorias de De Giovanni, Viola e Mario Barbára, que em conjunto formavam a chamada “escola italiana”, e as ideias dos franceses Sigaud e Mac-Aullife, além da teoria kretschmeriana.. Este ponto importa para a análise aqui desenvolvida por demonstrar que o movimento de apropriação e divulgação de tais teorias constitucionalistas por intelectuais brasileiros foi pautado por um processo de aglutinação e hibridização destas teorias que eram, originalmente, independentes.
Para além dos debates ocorridos no meio acadêmico e nas associações médicas, a divulgação na imprensa, objeto deste artigo, foi um dos meios que possibilitou uma ampla e rápida circulação das teorias de Kretschmer, no Rio de Janeiro, juntamente com outros teóricos da biotipologia e medicina constitucional. Nos citados veículos de comunicação, que alcançavam públicos leitores diversos do especialista médico, tais teorias foram discutidas em textos variados que ocuparam diferentes posições de destaque na estrutura interna destas publicações. Assim, encontramos referências às ideias do médico alemão em colunas de aconselhamento, de crônicas e crítica literária, textos biográficos, artigos de discussão científica e filosófica, resumos de palestras em associações e propagandas de livros do próprio Kretschmer ou de brasileiros que faziam referência a ele.
Os textos em revistas que mais citavam as teorias do médico psiquiatra alemão podem ser agrupados em três tipos: as resenhas de crítica literária de livros estrangeiros e nacionais especializados ou não em medicina e de teses médicas; os artigos e ensaios que buscavam definir a tipologia constitucional e a biotipologia aplicando-as a determinadas áreas do conhecimento e a debates locais que envolviam o direito, a educação, a nutrição etc.; e, por fim, os textos biográficos sobre atores históricos renomados e personagens da literatura. Eram textos escritos por jornalistas, escritores e críticos literários como Alceu Amoroso Lima, Medeiros e Albuquerque, Nelson Werneck Sodré, mas principalmente por médicos, como Arthur Ramos, Renato Kehl, Heitor Peres, Waldemar Berardinelli, Gastão Pereira da Silva16Sobre a divulgação da psicanálise em revistas por Gastão, ver Marcondes (2015)., dentre outros; sendo que muitos destes últimos atuavam com certa regularidade também como literatos. Interessa-nos aqui, sobretudo, os textos relacionados ao estudo do temperamento de personalidades históricas (escritores, artistas e políticos considerados gênios) e personagens literários, uma das áreas onde as ideias de Kretschmer foram mais discutidas no âmbito da imprensa.
No Brasil, percebe-se, por meio da pesquisa em revistas, que a década de 1930 ficou marcada como um período de ampla circulação de patografias, provenientes da França, Inglaterra, Alemanha e países latino-americanos, assim como pela publicação de livros nacionais e ensaios inspirados nesse tipo de narrativa. Este tipo de literatura, que mesclava elementos do diagnóstico médico com a literatura biográfica, mobilizava teorias médicas e psicológicas diversas. As patografias eram divulgadas em veículos da imprensa que, à época, estavam voltados para a formação de um público leitor não especializado em medicina, mas que, desde a metade da década de 1920, vinha sendo educado e incentivado a tornar-se um consumidor de ideias, teorias e interpretações psicológicas feitas tanto por médicos como por escritores leigos.
Os textos de Peregrino Jr., que analisaremos a seguir, são exemplares deste movimento e circulação de ideias, traduzindo um debate sobre a relação entre ciência e arte e principalmente entre medicina e literatura. Algumas questões permeavam este debate, a saber: a ciência deve tentar analisar a arte? Os médicos, ao fazer literatura, acabam por produzir postulados de medicina? Só os médicos podem utilizar termos e conceitos da medicina em suas obras? Qual a melhor forma de estudar a genialidade criativa? Os artistas considerados “geniais” eram doentes ou apenas expressavam em suas obras reflexos de temperamentos normais?
PEREGRINO JR. E A CIRCULAÇÃO DA TEORIA DE KRETSCHMER
⌅Peregrino Jr. foi um importante mediador cultural da medicina constitucional, principalmente da biotipologia italiana segundo Pende e das ideias de Kretschmer, em revistas de variedades, livros e palestras de divulgação científica, na década de 1930. Na revista de variedades Careta17A revista Careta, onde Peregrino Jr. publicava duas colunas, foi criada em 1908 pelo jornalista e empresário Jorge Schmidt como uma revista ilustrada que elencava o humor político, as crônicas de costumes e principalmente as charges, caricaturas e fotogravuras como seus pontos fortes (Nogueira, 2010)., onde publicava colunas e textos avulsos, ele apresentava resenhas críticas de publicações recentes que tratavam sobre a temática “gênios criativos”; produzia análises próprias sobre o assunto e discutia, de maneira clara e didática, os tipos de temperamento em relação às suas respectivas constituições físicas, segundo Kretschmer e outros autores.
A coluna fixa semanal que assinava na revista Careta, denominada “Block Notes”, era dedicada à crônica de variedades e crítica literária ao longo do período de 1927 a 1936, onde ele comentava sobre atualidades da moda, das artes, da literatura, medicina, feminismo, acontecimentos sociais e políticos. Como uma coluna de “crônicas mundanas”, ela tratava de tudo um pouco, sempre com uma linguagem simples, acessível, mas bastante irônica. O público pretendido parecia ser da classe média de ambos os gêneros, apesar dele, em algumas colunas, falar diretamente sobre mulheres e para mulheres. Dentre os vários temas discutidos por Peregrino Jr., nesta coluna, analisaremos seu posicionamento sobre a relação entre medicina e literatura e os “diagnósticos retrospectivos” (patografias) como um tipo de literatura biográfica, dois temas interrelacionados que convergiam para um debate mais amplo sobre a relação entre ciência e arte.
Em 1930, em um texto intitulado “Tecnologia médica na literatura dos leigos”, Peregrino Jr. apontava para os perigos do uso excessivo e indiscriminado de termos científicos e médicos na literatura feita por escritores leigos. Ele destacava que autores brasileiros como Euclides da Cunha, Machado de Assis, Aloísio de Azevedo e Lima Barreto utilizaram estes termos de uma forma interessante que mereceria um estudo mais aprofundado. Porém, outros autores eram criticados pelo cronista pelo uso abusivo de “tecnologias científicas” -termos, conceitos e teorias provenientes não só da medicina, como do direito e da engenharia- em seus textos. Este era o caso de Humberto de Campos, Alceu de Amoroso Lima e Medeiros e Albuquerque, dentre outros. No caso desses dois últimos autores, a crítica de Peregrino Jr., era dirigida não apenas ao uso inadequado dos termos médicos, mas também à autoria de longas colunas onde explicavam temas médicos e psicológicos. Para o cronista, “os escritores leigos que empregam termos científicos não entendem bem sua exata significação”18Peregrino Jr., João (19/04/1930a), “Tecnologia médica na literatura dos leigos”, Block Notes, Careta, pp. 28-29.. Para ele, a culpa era dos jornais que permitiam a publicação e “vulgarização dos mais deslavados disparates de tecnologia científica” em suas páginas. Uma situação que só poderia ser sanada, em sua opinião, pela criação, nas redações de jornais e revistas, do cargo de consultores técnicos (os atuais experts) para matérias científicas (médicas, jurídicas e da engenharia) que pudessem corrigir os erros dos escritores leigos nessas matérias. Sua opinião era enfática em definir o uso de termos técnicos por leigos como “nocivos e integralmente ridículos”19Peregrino Jr., João (19/04/1930a), “Tecnologia médica na literatura dos leigos”, Block Notes, Careta, p. 29..
No mesmo ano, Peregrino Jr. publicou, sob o título de “Dostoievsky, caso clínico”20Os artigos e colunas, publicados por Peregrino Jr. sobre pessoas ilustres, em geral apresentavam uma foto do indivíduo, mas tais imagens, em sua maioria, eram pouco exploradas nas análises tecidas pelo médico brasileiro., um ensaio que apresentava um balanço sobre as novas produções literárias que procuravam “fixar, narrar e comentar a vida dos grandes homens”, fosse para o “encanto, espanto ou edificação das criaturas”. Entre os eleitos como dignos de estudo estavam “santos, poetas, sábios ou loucos”, aqueles que “legaram à humanidade alguma obra imperecível de bondade, de beleza, de sabedoria ou de extravagância”. O médico ensaísta apresentava este tipo de literatura como novidade no Brasil, apesar de já ser muito comum em países como a França, Inglaterra e EUA, onde, segundo o autor, despertava excepcional interesse. O gênero do “romance da vida” -que reunia ilustres biografados como Napoleão, Luís XIV, Pasteur, Dostoievsky, Anatole France, Bismarck, dentre outros- apresentava então como subcategoria as patografias, definidas por Peregrino Jr. como “diagnósticos retrospectivos e estudos clínicos póstumos dos grandes homens”. O autor indicava como patografias populares no Brasil os trabalhos do médico, escritor e político argentino José Maria Ramos Mejía (1849-1914) sobre os “caudilhos dos pampas”, como La neurosis de los hombres célebres en la história argentina (1878) e La locura de la história (1895)21Peregrino Jr., João (19/07/1930b), “Dostoievsky, caso clínico”, Block Notes, Careta, pp. 28-29..
No mesmo artigo, Peregrino Jr. analisava um texto escrito pelo médico Artemio Moreno e publicado originalmente em uma revista especializada -a Revista de Criminologia, Psiquiatria e Medicina Legal- sobre a epilepsia de Dostoievsky. Peregrino Jr. procurava descontruir o principal argumento defendido por Moreno, de que haveria uma equivalência entre a genialidade e a doença mental, mais especificamente a epilepsia. Para Peregrino Jr., o autor estava equivocado e defendia teorias há muito ultrapassadas, haja vista o número crescente nos manicômios de enfermos em contraste com o desaparecimento dos “gênios”. Discordando de Moreno, Peregrino defendia que o fato de indivíduos considerados geniais, como Dostoievsky, Gustav Flaubert e Machado de Assis, coincidentemente sofrerem da mesma enfermidade -a epilepsia- não significava que todo gênio poderia ser diagnosticado como padecendo do mesmo mal, assim como não se poderia considerar que todos os epilépticos eram gênios. No caso particular de Dostoievsky, o cronista destacava, além do diagnóstico de epilepsia, o temperamento esquizoide, segundo a classificação de Kretschmer22Peregrino Jr., João (19/07/1930b), “Dostoievsky, caso clínico”, Block Notes, Careta, pp. 28-29..
Outra obra comentada por Peregrino Jr. em sua coluna foi o estudo do médico uruguaio José Maria Estapé sobre a psicopatologia de Goethe, publicado no ano de 1933. Nesta obra, Estapé desenvolvia uma análise da vida amorosa e da genealogia do poeta alemão, procurando estabelecer correlações entre a morfologia, o caráter, a posição social e a ocorrência de mortes prematuras e patologias mentais de seus familiares e descendentes. Segundo Peregrino Jr., o trabalho do médico uruguaio poderia ser classificado como um “estudo de psicopatologia histórica”, com pretensões de chegar a ser uma “patografia integral”. Em sua análise, Estapé utilizava as teorias de Kretschmer e da biotipologia em combinação com o estudo das “taras hereditárias” do poeta alemão, realizado por Paul Julius Möbius, para chegar a duas conclusões: primeiro, que Goethe era um ciclotímico, influenciado pelas glândulas suprarrenais e genitais em seu temperamento, podendo ser classificado como um desequilibrado superior; e segundo, que o fator psicopatológico foi altamente determinante no destino tanto da ascendência como da descendência de Goethe. Desta maneira, o médico uruguaio defendia que o escritor alemão teria surgido em uma família em processo de degeneração que se encaminhava para uma progressiva diminuição do número de descendentes concomitante ao crescimento da mortalidade23Peregrino Jr., João (1933), “A psicopatologia de Goethe”, Block Notes, Careta, pp. 28-29.. Ou seja, neste caso, a biotipologia e as teorias de Kretschmer eram mobilizadas por Estapé não para justificar a obra do escritor alemão como uma expressão do seu temperamento e afastar o estigma da loucura e degeneração entre os gênios, mas, ao contrário, para reforçar essa ideia. A apropriação realizada por Estapé das citadas teorias possibilitava que ele afirmasse que o gênio era fruto da combinação entre o “talento superior” e o “fator psicopático”.
Em 1936, Peregrino Jr. também tratou em sua coluna sobre a relação entre arte e ciência, defendendo que a “arte quase sempre antecipa e ultrapassa a ciência”, e que esta última, por sua vez, quando procurava explicar a arte e os artistas pelo viés da análise científica, cometia sérios equívocos. Para ele, os fisiologistas, psicotécnicos, patologistas e psicanalistas que tentaram explicar “altos fenômenos de ordem intelectual” à luz de suas especialidades cometeram o erro de propor “soluções unilaterais, incompletas ou falsas”. Para o cronista, durante um longo tempo alimentou-se o modismo de considerar artistas e escritores como loucos e degenerados, enquadrando-os nos quadros nosográficos da psiquiatria, ou buscando explicar as obras a partir de complexos e “tendências subconscientes” atribuídas aos artistas. Seu argumento principal era de que todas essas ciências e cientistas só visualizavam e se preocupavam em identificar na arte o elemento patológico, produzindo uma compreensão incompleta e falha. A biotipologia e as teorias constitucionais, incluindo a de Kretschmer, ao contrário, teriam a vantagem de poder compreender a arte e os artistas em sua totalidade por um “critério geral de normalidade”, onde a correlação entre o temperamento, o caráter e a morfologia é que explicaria tudo, desde a produção artística e intelectual até as doenças. E finalizava seu texto citando o escritor francês Émile Zola como precursor desta “verdade” constitucionalista, pois este teria afirmado que “a arte era a Natureza vista através de um temperamento”24Peregrino Jr., João (08/08/1936a), “Arte e ciência”, Block Notes, Careta, pp. 31-32..
Discutir a relação entre ciência e arte naquele momento era importante para Peregrino Jr., não só por motivos teóricos, mas também por uma questão prática: ele precisava divulgar seu livro recém-lançado Interpretação biotipológica das artes plásticas (1936c) e, ao mesmo tempo, rebater as críticas que poderiam pesar sobre este. No texto “Medicina e literatura”, publicado no Block Notes, ainda em 1936, ele rebatia os autores que defendiam a incompatibilidade entre medicina e literatura, fazendo um inventário de grandes escritores da literatura, sobretudo francesa, que também eram médicos. Para o caso brasileiro, ele enumerava os médicos que eram membros da Academia Brasileira de Letras, como Afrânio Peixoto, Aloísio de Castro, Roquette Pinto, Fernando Magalhães, Cláudio de Sousa, Miguel Osório, dentre tantos outros. A tese defendida pelo autor era de que a preocupação central da literatura era a natureza humana, de modo que os médicos, por serem os profissionais que mergulhavam mais fundo nos mistérios do corpo e da alma, estariam em posição privilegiada para descrever a esta natureza humana. Assim, para ele, estava justificada a influência de tantos médicos na literatura moderna25Peregrino Jr., João (1936b), “Medicina e Literatura”, Block Notes, Careta, s. p..
Além da publicação da coluna na revista Careta, Peregrino Jr. utilizou de outros meios e espaços para divulgar sua leitura da obra de Kretschmer e de autores da biotipologia. Em 1936, ele apresentou uma conferência intitulada “Interpretações biotipológicas das artes plásticas”, com o objetivo de divulgação do livro citado acima, cujo programa se dividia em analisar as relações entre “arte e ciência”, os “equívocos da ciência” ao caracterizar artistas célebres como “loucos e degenerados”, e, também, explicar “a arte pelos temperamentos” e as principais escolas da biotipologia e suas aplicações práticas. Esta conferência foi organizada pela Associação dos Artistas Brasileiros e publicada resumidamente no jornal Diário de Notícias, no suplemento dedicado a artes, letras e variedades. Na conferência, Peregrino Jr. afirmava ter se baseado nos estudos de Kretschmer sobre o expressionismo alemão para desenvolver sua análise sobre as tendências e temperamentos de artistas brasileiros. Ele tomava a tipologia desenvolvida pelo médico alemão, em constante aproximação das teorias de Pende, como modelos universais para descrever o temperamento26A utilização do termo “temperamento” em alguns dos textos de Peregrino Jr. tem um significado dúbio, ora aplicado no sentido humoral-endócrino, como utilizado por Kretschmer, ora como sinônimo de personalidade, como aplicado pelo senso comum. dos artistas modernistas brasileiros, tomando como ponto de partida para seu diagnóstico a constituição física do indivíduo e elementos presentes na sua produção artística, como cores, formas, uso de sombras, estilização, deformação etc. Assim, ele definia Victor Brecheret, Portinari, Cícero Dias como esquizotímicos, Ismael Nery como leptossômico esquizoide com predominância do componente autista em sua obra. Já Tarsila do Amaral era caracterizada como um “normotipo com tendências leptossômicas”, enquanto Di Cavalcanti e De Santa Rosa eram classificados como pícnicos ciclotímicos, perfeitos de inteligência e sensibilidade aguçadas e equilíbrio invejável27“Interpretação biotipológica das artes plásticas” (1936), Diário de Notícias, suplemento 1, pp. 19-20..
Em 1938, Peregrino Jr. publicou Doença e constituição de Machado de Assis, pela editora José Olympio, onde desenvolvia uma patografia do escritor. Neste livro, o autor procurava combinar o tipo de temperamento esquizoide, segundo a classificação de Kretschmer, com a componente gliscróide ou epileptoide, para explicar não só o comportamento de Machado de Assis, como a sua obra. Neste ponto, Peregrino Jr. utilizava os trabalhos da psiquiatra de origem polonesa Françoise Minkowska (1882-1950) sobre a constituição do tipo gliscróide28O tipo de constituição gliscróide ou epileptoide foi definido por Minkowska ao desenvolver pesquisas genealógicas em um asilo de Zurich sob a direção de Bleuler. Ela pesquisou famílias de lavradores suíços, cuja ascendência conhecida mais antiga havia sido de epilépticos ou esquizofrênicos, concluindo, a partir deste estudo, que existiria um fator de regeneração na natureza que poderia contrabalançar os efeitos da degeneração. Com base nestes estudos, ela escreveu a patografia Van Gogh, sua vida, sua moléstia, sua obra, publicada em 1932. Ver Yahn (1952).. O autor observava que os antecedentes hereditários de Machado de Assis (1839-1908), apesar das raras informações sobre sua família, apontavam para dois estigmas: o da morte prematura e o da esterilidade. Caracterizava-o como um tipo físico leptossômico com um certo grau de displasia, através da análise de algumas fotografias do escritor e mesmo da estátua erguida em sua homenagem. Quanto ao humor e afetividade de Machado de Assis, o autor defendia a ideia de que, a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), suas obras refletiriam a profunda tristeza e a melancolia, assim como uma tendência para o niilismo, o masoquismo e o sadismo. Segundo Peregrino Jr., esta mudança humoral devia-se ao agravamento da epilepsia, afetando diretamente suas características psicológicas assim como sua produção literária29Peregrino Jr., João (1976) [1938], Doença e constituição de Machado de Assis, Rio de Janeiro, José Olympio/MEC, pp. 41-46; 122..
Em um número da coluna Panorama Literário da revista Vamos Lêr!, o livro Doença e constituição de Machado de Assis foi apresentado como “um estudo bastante completo do temperamento de Machado de Assis”, escrito por uma “indiscutível autoridade de biotipologista”. Segundo o crítico da citada revista, Peregrino Jr. analisou o “temperamento mórbido” do romancista, levando em consideração vários elementos sócio-ambientais e idiossincráticos, como os antecedentes familiares do romancista, suas relações com amigos e conhecidos, o apego à cidade natal, o comportamento tímido, “a perda inesperada e rápida do controle pessoal, a ambivalência do pensamento e do sentimento”30Panorama Literário (07/07/1938), “O temperamento de Machado de Assis”, Vamos Lêr!, p. 15..
O crítico literário Nelson Werneck Sodré também escreveu uma detalhada e muito elogiosa crítica ao livro de Peregrino Jr. sobre Machado de Assis para o jornal Correio Paulistano, republicada em Vamos Lêr!. Além de comentar os pontos focais da obra e ressaltar suas qualidades, Sodré destacava a dualidade -escritor e médico- na figura de Peregrino Jr., segundo ele em perfeita harmonia:
Vemos, nessa união do escritor e do médico, o segredo do valor da obra. O segundo pôde, pela posse dos conhecimentos indispensáveis, dissociar todos os males que atormentaram o mestre do romance brasileiro, e o primeiro, com a segurança do verdadeiro manejador do idioma e com o critério mais sólido de leitor atiladíssimo de tudo que escreveu Machado, pôde dar forma ao saber científico e dosar convenientemente o assunto, tornando a obra um fruto perfeitamente equilibrado dessa ligação que realizou sem esforço31Sodré, Nelson Werneck (1938), “Machado de Assis, através de um estudo de Peregrino Jr.”, Vamos Lêr!, p. 11..
No ano de 1941, na coluna “Um sorriso para todas” da revista Careta, Peregrino Jr. se confessava incapaz de escrever um artigo em homenagem ao poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, e se justificava dizendo que “egresso da literatura, sou hoje apenas médico. Não faço artigos. Faço diagnósticos. Se fosse escrever sobre Carlos Drummond, em vez de um artigo faria certamente um diagnóstico. Colocaria talvez uma etiqueta biotipológica no poeta. Um rótulo conciso e simples: esquizotímico”. Para o médico, aquela era uma palavra definidora do temperamento de Drummond, pois representava bem a “complexidade interior, a dolorosa inadaptação, a introversão agreste e triste, o mistério subterrâneo do poeta”, esse “homem noturno”, tão solitário e estranho, um homem grave, frio, mordaz e sarcástico, tão distante de todos que o único contato que mantinha com os outros homens se dava pela poesia32Peregrino Jr., João (1941), “Um sorriso para todas”, Careta, p. 25..
Este tipo de diagnóstico psicopatológico desenvolvido por Peregrino Jr. sobre Drummond não era algo incomum nas páginas de periódicos do período. Outros médicos escritores também se dedicavam a estudar personalidades da literatura brasileira, fato que gerava certo descontentamento entre alguns jornalistas e literatos. Este foi o caso do jornalista e escritor José Cesar Borba, que escreveu para O Jornal o artigo “Literatura de médicos”, em resposta ao citado comentário de Peregrino Jr. a respeito de Drummond. Neste artigo, Borba partia da premissa de que os médicos literatos brasileiros nunca se separavam completamente de sua condição de médicos, ou pelo menos de seu “preconceito científico”. Para ele, Peregrino não parecia egresso da literatura, como o próprio dizia, pois, pelo comentário que teceu sobre o poeta mineiro e por outras crônicas que publicava semanalmente na revista Careta, Peregrino Jr. parecia praticar medicina dentro da literatura33Borba, José Cesar (1941), “Literatura de médicos”, O Jornal, pp. 1-2..
A partir de 1942, houve uma redução no número de artigos de Peregrino em revistas de variedades que mobilizavam as teorias de Kretschmer e de autores da biotipologia para análises de artistas e escritores. Nos jornais e revistas consultados foi encontrado apenas mais um artigo de Peregrino Júnior, no final da década de 1950, no qual ele escreve sobre os retratos de Machado de Assis, relacionando as mudanças na fisionomia do escritor, ao longo da vida, com variações em seu caráter34Peregrino Jr., João (22/06/1958), “Iconografia de Machado de Assis. Estudo da evolução fisionômica do autor através dos seus retratos”, Jornal do Brasil, p. 5..
Tal redução na produção de Peregrino Jr. sobre o tema, em parte, é reflexo de um contexto maior, uma vez que coincide com uma diminuição do número de artigos literários que citavam o psiquiatra alemão e a biotipologia. Essa redução demonstra uma mudança considerável em relação à década anterior, onde eram mais frequentes as menções às teorias de Kretschmer no estudo da biografia de escritores, principalmente nas patografias. Tal desinteresse pode ser explicado em parte pelas críticas a este tipo de biografias médicas, principalmente por parte de críticos literários, de escritores como José Borba e de intelectuais marxistas, sobretudo na década de 1940. Por outro lado, também é importante observar que os artigos que faziam menção direta ao psiquiatra alemão, nas várias áreas do conhecimento, tornaram-se menos frequentes entre os anos de 1942 e 1945, período em que o Brasil aderiu ao grupo dos países aliados contra as forças do Eixo, durante a Segunda Guerra. Neste contexto, a campanha antinazista se intensificou nas revistas e jornais, e tudo que era relativo à Alemanha foi rechaçado, ou pelo menos evitado, de maneira que não era raro encontrar, neste período, referências às teorias de Kretschmer sem que seu nome fosse citado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
⌅Neste artigo procurei colaborar com a historiografia que trata da história das ciências no Brasil, e, mais especificamente, com as discussões sobre a circulação de conhecimentos sobre o físico, o mental e o moral, no início do século XX, através dos processos de mediação cultural realizados por intelectuais brasileiros. Para isso, ao longo do texto, analisei como o médico e escritor Peregrino Jr. desempenhou um papel de mediador cultural, contribuindo para a circulação das teorias de Kretschmer em conjunto com outras teorias da medicina constitucional, em suas colunas de revistas de variedades, como Careta, livros de divulgação e palestras. Nos artigos publicados em sua coluna Block Notes, em meio a uma série de outros temas, o cronista desenvolveu críticas literárias sobre diversas publicações brasileiras e estrangeiras que tratavam sobre a genialidade criativa. Nestes textos, Peregrino Jr. defendeu a utilização de teorias baseadas em tipologias constitucionais como a melhor forma de promover uma análise completa da biografia dos artistas e do conteúdo de sua obra, sem cair em um “viés unilateral e falho”, como ele considerava que outros críticos faziam ao empregar teorias psicológicas.
Como vimos, ele também defendeu a participação dos médicos, como escritores, na literatura, como sendo aqueles que melhor conheciam o indivíduo na sua totalidade, corpo e alma. Esta defesa estava presente tanto nos textos de sua coluna e em artigos avulsos, como nas conferências que realizou, falando da aplicação da biotipologia na análise das artes plásticas, educação e produção biográfica, e ainda nos livros que publicou sobre essas temáticas. Neste ponto, ele participava de uma contenda entre médicos e escritores sobre quem poderia tratar de questões médicas e psicológicas em seus textos. Uma disputa que envolvia, por um lado, a busca dos médicos por reconhecimento, pelo público leitor, como especialistas na matéria e a consequente credibilidade, e, por outro, as críticas dos escritores não-médicos ao tipo de literatura que vinha sendo produzida pelos doutores em medicina. Importa frisar que estes debates sobre a relação entre medicina e literatura e ciência e arte aconteciam em um contexto em que escritores, médicos e editores incentivavam a constituição de um público leitor brasileiro interessado em consumir desde os artigos de jornais até as patografias, todos voltados para as questões mais íntimas da personalidade do indivíduo.