Sanjad: Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século xx

RESUMO

O artigo analisa a participação da zoóloga alemã Emília Snethlage (1868-‍1929), pesquisadora e depois diretora do Museu Goeldi, em Belém, Brasil, na rede de conhecimento que se estabeleceu no início do século XX na região amazônica, destinada à investigação etnológica e à coleta de artefatos indígenas, e que teve, entre seus mais conhecidos atores, os alemães Theodor Koch-Grünberg (1872-‍1924) e Curt Nimuendajú (1883-‍1945). Ambos são reconhecidos pelo trabalho em prol dos povos indígenas do Brasil e pelo legado científico nos campos da antropologia, arqueologia e linguística. Menos conhecida, Snethlage teve, entretanto, decisiva participação na inserção de Nimuendajú no meio científico. A partir de uma extensa pesquisa em fontes documentais localizadas no Brasil e na Alemanha, demonstra-se que, no primeiro período em que Nimuendajú esteve vinculado ao Museu Goeldi, entre 1913 e 1921, Snethlage viabilizou suas primeiras expedições e publicações científicas, além de articular suas relações com museus e etnólogos alemães, incluindo aquele que viria a ser seu dileto amigo e interlocutor, Koch-Grünberg, de maneira a lhe permitir trabalhar também como coletor profissional.

Palavras chave: Etnologia; Coleção etnográfica; Rede de conhecimento; Relações de gênero; Amazônia.

ABSTRACT

The article analyses the participation of the German zoologist Emilia Snethlage (1868-‍1929), researcher and later director of the Goeldi Museum, in Belém, Brazil, in the network of knowledge that was established in the early 20th century in the Amazonian region, aimed at ethnological research and to the collection of indigenous artifacts, and among its best known actors were Germans Theodor Koch-Grünberg (1872-‍1924) and Curt Nimuendajú (1883-‍1945). Both are recognized for working for the indigenous peoples of Brazil and for the scientific legacy in the fields of anthropology, archaeology and linguistics. Less well-known, Snethlage had, however, decisive participation in the insertion of Nimuendajú in the scientific environment. From an extensive research on documentary sources located in Brazil and Germany, it is shown that in the first period when Nimuendajú was linked to the Goeldi Museum between 1913 and 1921, Snethlage made possible his first expeditions and scientific publications, in addition to articulating his relations with German museums and ethnologists, including the one who would become his beloved friend and interlocutor, Koch-Grünberg, in order to allow him to work as a professional collector.

Keywords: Ethnology; Ethnographic collection; Network of knowledge; Gender relations; Amazonia.

Cómo citar este artículo / Citation: Sanjad, Nelson (2019), “Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século XX”, Asclepio, 71(2): p273. https://doi.org/10.3989/asclepio.2019.14

INTRODUÇÃO[Subir]

Em 18 de maio de 1915, Curt Nimuendajú escreveu uma carta para Theodor Koch-Grünberg, que assim iniciava: “Para minha grande alegria, encontrei, no dia 13 de maio, em Belém, sua resposta à remessa que eu lhe havia feito”.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. Philipps-Universität Marburg, Fachgebiet Kultur- und Sozialanthropologie Völkerkundliche Sammlung, Nachlass Theodor Koch-Grünberg (doravante, NTKG), VK MR A.19. Tradução de Miriam Junghans.

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Ao recebê-la, Koch-Grünberg grifou com lápis vermelho o trecho que inicia com “sua resposta” e acrescentou um ponto de interrogação na margem esquerda (Figura 1). O trecho que Koch-Grünberg, aparentemente, não entendeu diz respeito a uma suposta remessa de manuscritos por Nimuendajú. Na sequência, este complementou: “Muito me honra ter meus modestos trabalhos reconhecidos por alguém tão competente (...)”. O que teria, então, escapado à compreensão de Koch-Grünberg?

Figura 1.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. Philipps-Universität Marburg, Nachlass Theodor Koch-Grünberg, VK MR A.19.

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É possível vislumbrar uma explicação se levarmos em consideração que esta foi a primeira das cartas de Nimuendajú ao diretor do Museu Linden, em Stuttgart. Sendo assim, os textos que chegaram às mãos de Koch-Grünberg não foram enviados por Nimuendajú e sim por uma terceira pessoa, mantida em completa invisibilidade neste trecho da carta. Suponho que esta pessoa seja uma mulher, Emília Snethlage (1868-‍1929), então diretora do Museu Goeldi, em Belém, e antiga correspondente de Koch-Grünberg. Ao usar a primeira pessoa do singular para se referir à remessa dos textos, Nimuendajú confundiu seu interlocutor a ponto de este marcar com uma interrogação a frase que lhe pareceu desconexa. Estaria Nimuendajú se referindo aos textos que Snethlage enviou ou a outros, que ele teria enviado pessoalmente?

Hoje sabemos que é improvável que Nimuendajú tenha enviado pessoalmente algum texto a Koch-Grünberg naquele início de 1915, pois esteve trabalhando para o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), no leste do Pará, até fevereiro ou março desse ano, quando retornou a Belém. Suponho que o texto que Koch-Grünberg recebeu e que motivou sua primeira carta a Nimuendajú, datada de 17 de março de 1915, aquela que ele recebeu com “grande alegria” somente em meados de maio,

Essa primeira carta de Koch-Grünberg a Nimuendajú, que deu origem à correspondência de ambos, não consta no espólio documental preservado na Philipps-Universität Marburg.

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tenha sido enviado, na verdade, por Snethlage com a finalidade de vê-lo publicado na Zeitschrift für Ethnologie. Trata-se, provavelmente, do conjunto de lendas Tembé e do vocabulário Timbira, ambos coligidos por Nimuendajú ao longo de 1914 e, de fato, publicados na revista berlinense em outubro de 1915 ( ‍Nimuendajú, Curt (1915a), “Sagen der Tembé-Indianer (Pará und Maranhão)”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 281-301.Nimuendajú, 1915a,  ‍Nimuendajú, Curt (1915b), “Vokabulare der Timbiras von Maranhão und Pará”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 302-305.1915b). O que pretendo destacar é o fato de a operação verbal de Nimuendajú, atribuindo a si uma ação executada por outrem, ter como finalidade deslocar Snethlage da posição de intermediadora de uma relação que, àquela altura, mostrava-se promissora e altamente interessante para Nimuendajú. Como ele mesmo expressou para seu interlocutor, em 18 de maio, “seu desejo de estabelecermos uma correspondência e troca de artigos vem ao encontro do meu”. Mesmo que o ato de Nimuendajú não tenha sido intencional, ele não deixa de ser simbólico das relações de gênero no mundo da ciência do início do século XX e também um prenúncio do que viria a ocorrer com a figura de Snethlage nas narrativas relacionadas tanto a Nimuendajú quanto a Koch-Grünberg.

O objetivo do presente artigo é, justamente, evidenciar o papel proeminente de Emília Snethlage no início da carreira de Nimuendajú como coletor, etnólogo e correspondente de antropólogos bem situados em instituições alemãs. Esse papel é visível na correspondência entre Nimuendajú e Koch-Grünberg, pois Snethlage é um dos sujeitos regularmente citados pelos missivistas. Ela está presente constantemente nas cartas até 1921, quando se transferiu de Belém para o Rio de Janeiro e Nimuendajú, até então um fiel colaborador de Snethlage no Museu Goeldi, deu outro rumo para sua vida. Até esse momento, Nimuendajú não esconde ou disfarça sua dependência de Snethlage, apesar da operação de deslocamento aqui mencionada, compreensível pelo fato de ele desejar estabelecer relações profissionais com Koch-Grünberg, sem intermediações. Pelo contrário, nessas primeiras cartas, Nimuendajú sempre coloca Snethlage em uma posição de destaque e se refere a ela com grande respeito.

Pode-se assumir, portanto, que a amizade entre Nimuendajú e Koch-Grünberg foi tecida de forma triangular, com participação de uma mulher, e depois se fechou em uma relação mais próxima entre os dois homens. Isso nos remete à presença de mulheres nas redes científicas e acadêmicas do início do século XX, ocupando posições subalternas ou invisíveis para seus contemporâneos e sucedâneos ( ‍Jordanova, Ludmilla (1993), “Gender and the Historiography of Science”, The British Journal for the History of Science, 26, pp. 469-483.Jordanova, 1993;  ‍Oreskes, Naomi (1996), “Objectivity or Heroism? On the Invisibility of Women in Science”, Osiris, 11, pp. 87-113.Oreskes, 1996;  ‍Lopes, Maria Margaret (2001), “Mulheres e ciências no Brasil: uma história a ser escrita”. In: Pérez Sedeño, Eulália; Alcalá Cortijo, Paloma (orgs.), Ciencia y Género, Madrid, Facultad de Filosofia de la Universidad Complutense, pp. 53-67.Lopes, 2001;  ‍Lopes, Maria Margaret; Souza, Lia Gomes Pinto de; Sombrio, Mariana (2004), “A construção da invisibilidade das mulheres nas ciências: a exemplaridade de Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976)”, Gênero, 5 (1), pp. 97-109.Lopes, Souza e Sombrio, 2004;  ‍Sombrio, Mariana (2014), “Em busca pelo campo: ciências, coleções, gênero e outras histórias sobre mulheres viajantes no Brasil em meados do século XX”, Tese (Doutorado em Política Científica e Tecnológica), Campinas, Universidade Estadual de Campinas. Sombrio, 2014,  ‍Sombrio, Mariana (2018), “Os museus, as mulheres e a participação no campo de estudos etnológicos no Brasil: aspectos contextuais do início do século XX”, Museologia & Interdisciplinaridade, 7 (13), pp. 87-106.2018). Esse foi o caso de Snethlage, diretora de um dos principais museus brasileiros e reconhecida ornitóloga, com trânsito em importantes instituições científicas, correspondente de luminares (homens) da ciência, mas ausente da extensa literatura sobre Nimuendajú e Koch-Grünberg. Existem raras menções ou notas sobre a possibilidade de Snethlage ter tido alguma participação no encontro epistolar de Nimuendajú e Koch-Grünberg, ou no início das atividades de coletor de Nimuendajú ou mesmo no contato deste com museus alemães.

Alguns autores merecem referência por terem apontado na direção que pretendo seguir: Welper (

Welper, Elena (2002), Curt Unckel Nimuendajú: um capítulo alemão na tradição etnográfica brasileira, Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional.

2002: 58
), que chamou a atenção para a possibilidade de Snethlage ter “contribuído para a introdução de Nimuendajú na academia científica europeia”, incluindo na mediação do contato com Koch-Grünberg e com os editores da Zeitschrift für Ethnologie; Schröder (

Schröder, Peter (2011), “Curt Nimuendajú e os museus etnológicos na Alemanha”, Anthropológicas, 22 (1), pp. 141-160.

2011
), que também mencionou a possibilidade de Snethlage ter estabelecido os primeiros contatos de Nimuendajú com os círculos acadêmicos europeus; e Hoffmann (

Hoffmann, Beatrix (2015), “100 Jahre Xipaya- und Kuruaya-Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin”, Baessler-Archiv, 62, pp. 45-66.

2015
,

Hoffmann, Beatrix (2017), “Early journeys to the Brazilian Apalai: Kurt Nimuendajú, Felix Speiser and Protásio Frikel”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 15-68.

2017
), que vem destacando o papel pioneiro de Snethlage na coleta de artefatos indígenas e na investigação etnológica na Amazônia, inclusive no agenciamento da carreira de Nimuendajú. Deixo claro que a análise do pensamento antropológico e do trabalho de campo dos sujeitos aqui citados não está entre meus objetivos.

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Snethlage foi, no entanto, fundamental para que Nimuendajú publicasse seus primeiros trabalhos científicos e enveredasse pela etnologia, principalmente, por meio de viagens na Amazônia, da coleta e venda de artefatos indígenas e do contato com museus estrangeiros.

É essa hipótese de trabalho que será desenvolvida neste texto, com o auxílio de documentos atualmente preservados em três instituições: no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém, Brasil), onde existem um fundo documental da gestão de Snethlage (1914-‍1921), uma coleção de cartas dessa cientista e um fundo privado cedido em comodato pela família de Jacques Huber (1867-‍1914), botânico que a antecedeu na direção do museu; na Philipps-Universität Marburg (Alemanha), onde está depositado o espólio documental de Theodor Koch-Grünberg (1872-‍1924), incluindo a correspondência deste com pesquisadores do Museu Goeldi, como o próprio Nimuendajú e ainda Snethlage, Huber e Emílio Goeldi (1859-‍1917); e no Ethnologisches Museum Berlin (Alemanha), em cujo arquivo se encontra a correspondência de Snethlage com dois antropólogos que incentivaram Nimuendajú a entrar na seara científica, Eduard Seler (1849-‍1922) e Max Schmidt (1874-‍1950).

Além desses arquivos, o levantamento bibliográfico de Schröder (

Schröder, Peter (2013), “Curt Unckel Nimuendajú– um levantamento bibliográfico”, Tellus, 24, pp. 39-76.

2013
) foi de fundamental importância para esta pesquisa.

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A CONEXÃO ENTRE A AMAZÔNIA E O MUNDO DE LÍNGUA ALEMÃ[Subir]

O encontro de nossos três sujeitos – todos alemães: Snethlage, Koch-Grünberg e Nimuendajú – deu-se em Belém do Pará. No início de século XX, a cidade era referência no mundo acadêmico germânico por ser o porto de acesso à Amazônia. Esta região foi, desde finais do século XVIII, sobretudo a partir das viagens de Alexander von Humboldt (1769-‍1859), entre 1799 e 1804, e de Friedrich Wilhelm Sieber (1775-‍1831), entre 1801 e 1812, um dos locais priorizados em viagens de cientistas, coletores e exploradores nascidos, principalmente, na Alemanha, Suíça e Áustria. As razões desse interesse vão desde a importância do mundo tropical na economia e no imaginário alemães ( ‍Kellenbenz, Hermann; Schneider, Jürgen (1980), “A imagem do Brasil na Alemanha do século XIX: impressões e estereótipos: da Independência ao fim da Monarquia”, Estudios Latinoamericanos, 6, p. II, pp. 71-101.Kellenbenz e Schneider, 1980;  ‍Süssekind, Flora (1990), Brasil não é longe daqui: o narrador, a viagem, São Paulo, Companhia das Letras.Süssekind, 1990;  ‍Rinke, Stefan (2014), “Alemanha e Brasil, 1870-1945: uma relação entre espaços”, História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 21 (1), pp. 299-316.Rinke, 2014;  ‍Chernela, Janet; Pereira, Ester (2018), “An End to Difference: Imagining Amazonian Modernity at the Dawn of the Twentieth Century”, Journal of Anthropological Research, 74 (1), pp. 10-31.Chernela e Pereira, 2018) até questões de ordem política, institucional e intelectual, como as que trouxeram ao Brasil a chamada Missão Austríaca, em 1817, e a série de etnólogos que, a exemplo de Karl von den Steinen (1855-‍1929) e Paul Ehrenreich (1855-‍1914), transformou em definitivo o conhecimento arqueológico, antropológico e linguístico das terras baixas sul-americanas ( ‍Coelho, Vera Penteado (org.) (1993), Karl von den Steinen: um século de antropologia no Xingu, São Paulo, Edusp.Coelho, 1993;  ‍Kraus, Michael (2004), Bildungsbürger im Urwald. Die deutsche ethnologische Amazonienforschung (1884-1929), Marburg, Curupira.Kraus, 2004;  ‍Drude, Sebastian (2005), “A contribuição alemãà linguística e antropologia dos índios do Brasil, especialmente da Amazônia”. In: Alves, José Jerônimo (org.), Múltiplas faces da história das ciências na Amazônia, Belém, Edufpa, pp. 175-196.Drude, 2005;  ‍Rebok, Sandra (2009), “Zwischen Tradition und Innovation: Karl von den Steinens Völkerkundliche Forschungen im Xinguquellgebiet (1883-1887) und Ihre Bedeutung für die Deutsche Amerikanistik des 19. Jahrunderts”, Arbor, 185(735), pp. 199-213.Rebok, 2009;  ‍Petschelies, Erik (2018), “Karl von den Steinen’s ethnography in the context of the Brazilian Empire”, Sociologia & Antropologia, 8 (2), pp. 543-569.Petschelies, 2018).

Muitos autores, sob diferentes perspectivas e abordagens teóricas, analisaram a expansão do sistema universitário alemão, a ‘diáspora científica’ decorrente desse processo e as questões políticas e culturais que permitiram a inserção de cientistas alemães em várias regiões do mundo, incluindo a América Latina. Ver, por exemplo, os clássicos Ringer (

Ringer, Fritz K. (1969), The decline of the German Mandarins: the German academic community, 1890-1933, Harvard University Press.

1969
), Ben-David (

Ben-David, Joseph (1971), The Scientist’s Role in Society. A Comparative Study, Englewood Cliffs, N.J., Prentice-Hall.

1971
) e Pyenson (

Pyenson, Lewis (1985), Cultural imperialism and Exact Sciences: German expansion overseas, 1900-1930, New York, Peter Lang.

1985
). Sobre o desenvolvimento da etnologia alemã (Völkerkunde) e dos museus etnográficos, ver Penny (

Penny, H. Glenn (2003), Objects of culture. Ethnology and ethnographic museums in Imperial Germany, Chapel Hill, The University of North Carolina Press.

2003
), Fischer et al. (

Fischer, Manuela; Bolz, Peter; Kamel, Susan (eds.) (2007), Adolf Bastian and his Universal Archive of Humanity: The origins of German Anthropology. Hildesheim, Georg Olms Verlag.

2007
), particularmente o estudo de Kraus (

Kraus, Michael (2007), “Philological Embedments – Ethnological research in South America in the ambiance of Adolf Bastian”. In: Fischer, Manuela; Bolz, Peter; Kamel, Susan (eds.), Adolf Bastian and his Universal Archive of Humanity: The origins of German Anthropology, Hildesheim, Georg Olms Verlag, pp. 140-152.

2007
), e Viertler (

Viertler, Renate Brigitte (2018), Os fundamentos da teoria antropológica alemã. Etnologia e antropologia em países de língua alemã: 1700-1950, São Paulo, Annablume.

2018
).

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Em um sentido inverso, a Europa Central – com seu amplo sistema universitário, museológico e industrial – tornou-se referência mundial no campo da ciência e tecnologia. Até o início do século XX, muitos estrangeiros para lá rumaram em busca de formação e treinamento. Intelectuais de diversos países mantiveram estreitas relações com academias e sociedades científicas daquela região, enquanto muitos governantes, inclusive da América Latina, motivados pela reputação que as instituições germânicas adquiriram, contrataram cientistas oriundos das universidades e dos museus locais. A inserção desses cientistas em países tão diversos como o México, a Argentina, o Chile ou o Brasil, ao longo do século XIX e da primeira metade do XX, pode ser interpretada dentro de um processo continental de abertura econômica e cultural, de transformação e ampliação de espaços institucionais dedicados à ciência e, consequentemente, de internacionalização das redes científicas. ‍[6]

A reforma do Museu Paraense de História Natural e Etnografia (Museu Goeldi a partir de 1901), entre 1891 e 1894, é um bom exemplo desse duplo processo, político e intelectual, que operou em duas direções. De um lado, uma elite governante, de matriz republicana e positivista, que desejava construir uma imagem de si mesma baseada em ícones de civilidade e urbanidade, assim como projetar o estado do Pará – o maior exportador de borracha do mundo – em círculos internacionais, como potência econômica e cultural. De outro lado, o ambiente acadêmico e científico centro-europeu, já com estreitos laços atados com a indústria e o Estado, mas relativamente fechado ao ingresso dos jovens profissionais que se formavam a cada ano e que, por essa razão, necessitava expandir seus limites geográficos de atuação por meio de correspondentes sediados em diversos países e de viagens para o desenvolvimento de coleções. A reforma e ampliação de um museu de história natural, na Belém do final do século XIX, viria a satisfazer tanto o desejo de modernização da elite local quanto o desejo de acesso à região amazônica que muitos cientistas de língua alemã tornaram explícito naquele momento ( ‍Sanjad, Nelson (2010), A Coruja de Minerva: o Museu Paraense entre o Império e a República, 1866-1907, Brasília, Instituto Brasileiro de Museus.Sanjad, 2010).

A pessoa escolhida pelo governo do Pará para liderar essa reforma foi o zoólogo suíço Emílio Goeldi, nascido no cantão de Sankt Gallen e formado em Jena e Leipzig. Em 1894, ele recebeu autonomia do governador Lauro Sodré (1858-‍1944) para construir uma agenda de pesquisa, instalar a infraestrutura necessária e selecionar o pessoal científico e técnico do museu. Goeldi alinhou a nova instituição à rede de universidades e museus da Europa Central, o que significa dizer que lá residiam seus principais interlocutores, que os funcionários mais graduados foram ali contratados, que seus principais trabalhos científicos foram lá publicados (em alemão) e que o intercâmbio de coleções, sobretudo a remessa de duplicatas, teve como destino principal instituições daquela região.

Segundo afirmou Goeldi em relatório ao governador do Pará no ano de 1895, era “de máxima utilidade aplicar a este Instituto o cunho e caráter de uma ‘colônia científica’”.

Goeldi, Emilio. Relatório apresentado pelo Diretor do Museu Paraense ao Sr. Dr. Lauro Sodré, Governador do Estado do Pará. Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, v. 2, n. 1, p. 14, 1897.

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Isso implicava no estabelecimento de uma rígida disciplina de trabalho e na residência de todos os funcionários dentro da instituição, com dedicação integral e exclusiva. Pode-se acrescentar, entre os fundamentos dessa ‘colônia’, o desenvolvimento de um padrão teórico e linguístico, fornecido pela língua alemã e pelas modernas correntes evolucionistas e ecológicas, e de protocolos técnicos, que iam desde instruções de coleta, transporte, acondicionamento e identificação de espécimes até a uniformização de regras de nomenclatura e classificação científica.

Uma vez estruturada, a ‘colônia’ de Goeldi e de seus sucessores foi povoada por 29 cientistas e técnicos, quase todos originários da Europa Central.

As exceções foram o botânico Charles Fuller Baker (1872-‍1927) e o taxidermista Paul Fair, ambos norte-americanos contratados por Jacques Huber em 1907 por indicação de David Starr Jordan (1851-‍1931), fundador da Universidade de Stanford. A contratação dos dois foi excepcional e ocorreu em razão dos interesses de Jordan no Brasil, que acabaram por criar vínculos com as instituições locais.

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Os cientistas vieram, sobretudo, da Universidade de Basel, na Suíça, mas também das Universidades de Strassburg, Giessen, München e Freiburg, à época, pertencentes ao Império Alemão. Eles foram indicados pela rede de contatos de Goeldi, que incluía nomes como o botânico suíço Carl Schröter (1855-‍1939), o ornitólogo alemão Anton Reichenow (1847-‍1941) e o entomólogo, também alemão, mas com carreira construída, principalmente, na Áustria, Heinrich Friese (1860-‍1948). Quanto aos taxidermistas, foram contratados junto a oficinas especializadas existentes na Suíça, como a da Eidgenössische Technische Hochschule Zürich (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique) e a do ateliê de Ernst Heinrich Zollikofer (1859-‍1930), em Sankt Gallen. Houve, por fim, os que não tinham curso universitário, mas que adquiriram alto grau de profissionalização no mercado de trabalho, como o fotógrafo-litógrafo alemão Ernst Lohse (1873-‍1930), ou em experiências de campo, como o agrônomo suíço Andreas Goeldi (1872-‍1919?) e o entomólogo e botânico austríaco Adolf Ducke (1876-‍1959). Curt Nimuendajú pode ser considerado o último a ingressar no museu durante essa fase, na gestão de Snethlage.

Goeldi criou, de fato, uma casa de estudos germânicos à porta da floresta amazônica. Ela se manteve ativa por quase trinta anos, até a saída de Snethlage e Nimuendajú da instituição, já aqui referida. Cabe ressaltar a notável produção científica nesse período, cujo inventário ainda não foi concluído, mas que certamente soma algumas centenas de trabalhos publicados, principalmente, em periódicos da Europa Central. Entre eles, destaca-se o primeiro catálogo de aves amazônicas, com informações taxonômicas, biogeográficas e biológicas de 1.117 espécies, de autoria de Snethlage ( ‍Snethlage, Emilia (1914), “Catálogo de aves amazônicas”, Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, 8, pp. 1-530.1914). Outra característica do período foi o desenvolvimento de importantes coleções geológicas, biológicas, etnográficas, arqueológicas e bibliográficas, com destaque para a atuação de Huber à frente do herbário e de Goeldi e Snethlage, da coleção ornitológica. A distribuição de duplicatas era feita, sobretudo, para museus e colecionadores da Europa Central, o que fez do Museu Goeldi uma referência para muitos cientistas e instituições de todo o continente, que recorriam com frequência aos seus pesquisadores em busca de espécimes, informações, publicações, fotografias, apoio para viajantes em trânsito por Belém ou mesmo a colaboração em expedições pela Amazônia. Ficaram célebres, por exemplo, a expedição conjunta do Museu Goeldi e do Museu de História Natural de Viena, em 1903, liderada por Goeldi e pelo zoólogo austríaco Franz Steindachner (1834-‍1919), e a colaboração de Goeldi na segunda viagem de Koch-Grünberg à Amazônia, entre 1903 e 1905. Esse segundo episódio interessa-nos de perto, pois ele ampliaria o contato do Museu Goeldi com etnólogos alemães.

KOCH-GRÜNBERG E O MUSEU GOELDI[Subir]

Segundo Goeldi, o plano original de Koch-Grünberg, em 1903, era percorrer o rio Purus.

Goeldi, Emilio. Duas cartas do Dr. Theodor Koch, relativas à sua actual expedição ethnographica entre os índios do alto rio Negro, dirigidas ao Director do Museu. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, v. 4, n. 2-‍3, p. 481-‍488, 1904.

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Este, contudo, modificou o percurso da viagem após consultá-lo sobre a viabilidade desta expedição, em razão dos conflitos sociais ali existentes. Goeldi teria indicado o rio Uaupés, afluente do Negro, como a melhor opção para uma “exploração etnográfica” naquele momento – para onde Koch-Grünberg, de fato, seguiu. Além disso, algumas despesas da viagem, que correu sob os auspícios do Königliches Museum für Völkerkunde, em Berlim, foram acertadas com o Museu Goeldi mediante a aquisição das “duplicatas” da coleção reunida por Koch-Grünberg. A oferta foi aceita com “grande alegria” por Goeldi e a negociação ocorreu por meio de cartas trocadas entre os dois durante a viagem.

Carta de Emílio Goeldi a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1904. NTKG, Pasta A1.

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No início de 1906, já de posse de cerca de 500 objetos, Goeldi solicitou do governo estadual a liberação de 8.000 marcos ou 5:760$000 (cinco contos, setecentos e sessenta mil réis), já autorizados pelo governador, “pela aquisição das importantes coleções etnográficas feitas pelo Dr. Theodor Koch, de Berlim, durante a sua memorável expedição entre os índios dos rios Negro e Uaupés nos anos de 1903 e 1904”.

Ofício de Emílio Goeldi ao Secretário da Justiça, Interior e Instrução Pública do Pará. Belém, 2 de março de 1906. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Museu Paraense Emílio Goeldi (doravante, FMPEG), Gestão Emílio Goeldi, Livro de cópias de ofícios enviados.

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O pagamento, contudo, só começou a ser feito em dezembro daquele ano, quando Goeldi enviou a Koch-Grünberg uma primeira parcela no valor de 3.000 marcos. O restante foi enviado pouco antes de Goeldi se retirar definitivamente para a Suíça, em março de 1907. ‍[12]

Quitada a dívida, Koch-Grünberg escreveu para Huber informando o acerto com Goeldi e garantindo que, apesar da saída deste, suas “simpatias” pelo Museu Goeldi, “excelente instituição”, seriam as mesmas. Como prova, continuaria enviando suas publicações para o museu e pedia que Huber fizesse o mesmo em retribuição.

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 4 de abril de 1907. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Jacques Huber (doravante FJH), Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

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Koch-Grünberg interessava-se, particularmente, por uma série iconográfica editada por Huber, chamada “Arboretum Amazonicum” e lançada em 1900 na Exposição Universal de Paris. Foi por causa dela que Koch-Grünberg entrou em contato com Huber, pela primeira vez, antes mesmo da viagem de 1903-‍1905. Por intermédio de um professor da Universidade de Giessen, Wilhelm Sievers (1860-‍1921), referência em geografia sul-americana no mundo germânico e um velho conhecido de Goeldi, Koch-Grünberg tomou conhecimento do “Arboretum...” e foi incentivado a escrever para Huber. Na ocasião, se disse “encantado com a verdade natural [Naturwahrheit]” da vegetação e das paisagens representadas por Huber, as quais ele havia conhecido pessoalmente no rio Xingu em 1898-‍1900, em companhia de Herrmann Meyer (1871-‍1932). Segundo Koch-Grünberg, a publicação seria “bastante útil” nas palestras e demonstrações que fazia no museu berlinense.

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 8 de dezembro de 1902. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

‍[14]

Em dezembro de 1907, Koch-Grünberg voltaria a contactar Huber, desta vez para solicitar ajuda no planejamento da viagem que Wilhelm Kissenberth (1878-‍1944) faria no ano seguinte ao rio Araguaia. Segundo Koch-Grünberg, Kissenberth deveria passar um longo tempo entre os Apinayé, Karajá e Kayapó, com a finalidade de desenvolver pesquisas etnológicas e reunir coleções. Especial atenção deveria ser dada a este último grupo, os “Kayapó do Norte”, contactado nos anos 1890 por “missionários franciscanos franceses”.

Segundo Koch-Grünberg, a fonte dessa informação havia sido um livro de Henri Coudreau (1859-‍1899), “Voyage au Tapajoz”, publicado em 1897. Contudo, ele enganou-se duas vezes: o livro em que Coudreau dá notícias sobre missionários que atuavam no rio Araguaia é “Voyage au Tocantins-Araguaya”, também de 1897; e os missionários eram dominicanos, e não franciscanos, liderados pelo francês Frei Gil de Vilanova (1851-‍1904).

‍[15]
Koch-Grünberg pediu a Huber que tentasse descobrir se os missionários ainda trabalhavam na comunidade por eles fundada, “pois com a ajuda deles se poderia conseguir muito”.

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 16 de dezembro de 1907. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

‍[16]
Pediu, ainda, que Huber informasse sobre a navegabilidade do rio e sobre a disponibilidade de barcos para o transporte da expedição.

A resposta não tardou. Logo em janeiro, Huber escreveu que Kissenberth seria “muito bem-vindo” e que faria o possível para que ele atingisse seus objetivos.

Carta de Jacques Huber para Theodor Koch. Pará, 17 de janeiro de 1908. NTKG, Pasta A4.

‍[17]
Huber indicou o melhor momento para viajar e se prontificou a contactar a rede de apoio local, que incluía não apenas os missionários como também o “mais rico comerciante” do rio Tocantins, ‘coronel’ Raimundo da Rocha Pereira, através do qual se poderia, a qualquer momento, fazer o transbordo das cachoeiras existentes naquele trecho do rio.

Raimundo da Rocha Pereira era um dos ‘coronéis de barranco’ existentes na Amazônia da época, homens ricos que se consideravam donos dos rios, se apropriavam de grandes extensões de terra, exploravam a navegação e os recursos naturais e submetiam aos seus desígnios os ribeirinhos e os indígenas, frequentemente os escravizando. Estavam na base do poder político da região e mantinham estreitas relações com o governo. Muitos atuavam como mecenas de artistas e protetores de viajantes, inclusive dos pesquisadores do Museu Goeldi. A citada carta de Huber deixa claro que, sem a autorização do ‘coronel’, Kissenberth não conseguiria subir o rio.

‍[18]
Em fevereiro, Huber voltou a escrever para sugerir que o caminho ao rio Araguaia fosse feito não pelo Tocantins, mas através do Maranhão, via São Luís, Barra do Corda e Carolina, alternativa recomendada pelo ‘coronel’ Pereira. Esse percurso seria mais barato, mais rápido e menos perigoso, informação confirmada por um dos missionários com quem Huber também havia conversado.

Carta de Jacques Huber a Theodor Koch. Pará, 7 de fevereiro de 1908. NTKG, Pasta A4.

‍[19]
A decisão de Koch-Grünberg não tardou a chegar. Em carta de 28 de fevereiro – e falando, pela primeira vez, em nome de Eduard Seler (1849-‍1922), diretor do Departamento Americano do museu berlinense –, Koch-Grünberg agradeceu formalmente os “esforços extremamente graciosos” de Huber e anunciou que Kissenberth seguiria ao Araguaia por terra através do Maranhão.

Carta de Theodor Koch para Jacques Huber. Berlim, 28 de fevereiro de 1908. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

‍[20]

O auxílio de Goeldi na viagem de Koch-Grünberg e o de Huber na de Kissenberth são exemplos do papel estratégico que os pesquisadores do Museu Goeldi desempenhavam junto a instituições estrangeiras, enquanto provedores de informações confiáveis e agenciadores da rede local de apoio, sem os quais os viajantes certamente encontrariam dificuldades maiores do que as usuais. Em 1910, Snethlage seria integrada a essa rede de circulação de conhecimentos e objetos, que conectava, ainda que de maneira assimétrica, índios, missionários, ‘coronéis de barranco’, museus e cientistas.

Faulhaber (

Faulhaber, Priscila (1997), “Nos varadouros das representações: redes etnográficas na Amazônia do início do século XX”, Revista de Antropologia, 40 (2), pp.101-143.

1997
) trabalhou com o conceito de “rede etnográfica” na Amazônia do início do século XX, entendida como relações de saber e poder que conectavam etnólogos e instituições, como museus, associações científicas e editoras. Foram estudados os intercâmbios na obra de Constant Tastevin, Theodor Koch-Grünberg, Ermanno Stradelli e Curt Nimuendajú. Diferentemente, o que proponho neste artigo é a ampliação da ideia de ‘rede’ por meio da incorporação de outros sujeitos que interferiram, direta ou indiretamente, na produção do conhecimento etnológico e na coleta de artefatos indígenas. O termo é usado por mim no seu sentido descritivo, isto é, para designar um conjunto de pessoas que interage em determinado tempo e espaço.

‍[21]
Koch-Grünberg teve um papel preponderante na articulação dessa rede, mesmo depois de deixar o Museum für Völkerkunde e se transferir para a Universidade de Freiburg, em 1909, pois a ele tudo interessava e com todos procurava manter contatos pessoais, sobretudo se o assunto fosse o índio amazônico. No caso de Snethlage, o contato se deu a partir da viagem que ela fez entre junho e outubro de 1909, quando percorreu, em companhia de índios Xipaya e Kuruaya, o interflúvio entre os rios Curuá, um dos formadores do Xingu, e o Jamanxim, afluente do Tapajós. À primeira notícia da viagem, Koch-Grünberg logo pediu um relato da experiência e informações sobre a língua daqueles grupos.

Figura 2.

Páginas dois e três de carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. Philipps-Universität Marburg, Nachlass Theodor Koch-Grünberg, Pasta A8.

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Em março de 1910, Snethlage enviou sua primeira carta, que foi quase toda grifada por Koch-Grünberg nas cores azul e vermelho, com destaque para datas e nomes, sinal da atenção com que ele a leu (Figura 2). Nela, a zoóloga descreveu, de maneira resumida, o trajeto da viagem, o tempo decorrido em cada trecho e a rede de apoio com que contou, incluindo Ernesto Accioly, outro ‘coronel de barranco’ importante para o Museu Goeldi, residente em Forte Ambé (atual Altamira), o “influente Xipaya” de nome Manoelsinho, responsável pelo agenciamento dos guias indígenas no rio Curuá, e os quatro homens e três mulheres Kuruaya que a acompanharam – “com a maior lealdade” – até a primeira cabana de seringueiros avistada no Jamanxim.

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

‍[22]
Além desse relato, Snethlage enviou a Koch-Grünberg um texto com informações sobre os dois grupos indígenas, alertando que ele talvez se decepcionasse, pois ela não tinha “educação etnográfica”. Isso, certamente, não aconteceu, pois Koch-Grünberg o apresentou, na sessão do dia 28 de maio de 1910, à Berliner Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte (Sociedade Berlinense para a Antropologia, Etnologia e Pré-História), então presidida por um etnólogo que esteve duas vezes no rio Xingu, Karl von den Steinen.

Sitzung vom 28. Mai 1910. Zeitschrift für Ethnologie, v. 42, p. 609, 1910.

‍[23]
As notas de Snethlage acabaram publicadas na Zeitschrift für Ethnologie, periódico da Sociedade, com um preâmbulo do próprio Koch-Grünberg, fotografias e vocabulários de ambas as línguas ( ‍Koch-Grünberg, Theodor (1910), “Vorbemerkung”, Zeitschrift für Ethnologie, 42, pp. 609-611.Koch-Grünberg, 1910;  ‍Snethlage, Emilia (1910), “Zur Ethnographie der Chipaya und Curuhaé”, Zeitschrift für Ethnologie, 42, pp. 612-637.Snethlage, 1910). ‍[24]

Esse foi o primeiro texto etnológico publicado por Snethlage, o qual marcou seu ingresso no círculo de antropólogos berlinenses, todos homens. Snethlage parecia ter a exata noção de que aquele ambiente pudesse lhe ser hostil, razão pela qual pediu a Koch-Grünberg que fosse apresentada sem o Fräulein (Senhorita) junto ao seu nome, o que, de fato, aconteceu. Na sessão do dia 28 de maio, seu texto foi anunciado com um simples “Recebemos o seguinte manuscrito” e a autoria foi identificada com um “Dr. E. Snethlage”. Não fosse o preâmbulo de Koch-Grünberg, que a apresentou como “Zoóloga do Museu Goeldi no Pará”, nada ali faria menção ao fato de a viajante ser uma mulher. Essa era a intenção de Snethlage, pois, segundo ela mesma revelou a Koch-Grünberg, “infelizmente, há hoje pessoas suficientes que atribuem significado a um assunto que não é importante em si, se for realizado por uma mulher. Eu quero evitar isso, tanto quanto eu possa prevenir”.

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage. A mesma estratégia política – centrada no deliberado desejo de elipsar o gênero de quem fala para que o narrador possa se impor – foi utilizada pela exploradora Octavie Coudreau (1867-‍1938), que também viajou pela Amazônia e evitava assinar seu nome nas suas publicações e cartas, limitando-se a um “O. Coudreau” (

Ferretti, Federico (2017), “Imperial ambivalences. Histories of lady travellers and the French explorer Octavie Renard-Coudreau (1867-1938)”, Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, 99 (3), pp. 238-255.

Ferretti, 2017
).

‍[25]

A partir desse momento, Snethlage tornar-se-ia correspondente de Koch-Grünberg, trocando com ele informações etnológicas, informando sobre seus amigos pessoais residentes no Pará, os passos de Kissenberth e os planos mútuos de publicações e viagens.

Carta de Theodor Koch a Emilia Snethlage. Freiburg im Bresgau, 22 de abril de 1910; Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 6 de agosto de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

‍[26]
Aproveitando-se da oportunidade aberta com a viagem de Snethlage, cujos resultados relativamente limitados, mas corretos, parecem ter lhe agradado, Koch-Grünberg escreveu a Huber para cobrar maior empenho na pesquisa etnológica:

Por meio da viagem de Snethlage, mais uma vez tornou-se claro o quanto de etnografia ainda precisa ser feita na Amazônia, uma vez que basta alguns dias de jornada longe do curso principal dos rios para se aprender mais com tribos desconhecidas e intocadas [unberührte]. É realmente lamentável que o senhor não tenha etnólogos treinados no seu excelente Instituto, os quais poderiam explorar sistematicamente essas áreas relativamente fáceis de alcançar, sem mencionar o maravilhoso material etnográfico que seu museu possui. Esse trabalho é urgentemente necessário! As plantas e os animais sobrevivem, mas os povos, com seus usos e costumes interessantes, suas línguas desaparecem inexoravelmente, especialmente agora sob o comércio da borracha que tudo regula. Com isso, documentos inestimáveis para o desenvolvimento [Entwicklung] da raça humana [Menschengeschlechtes] ficam irremediavelmente perdidos!

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Jacques Huber. Freiburg im Breisgau, 22 de agosto de 1910. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg. Grifo do autor.

‍[27]

Esse trecho permite vislumbrar não apenas as motivações pessoais de Koch-Grünberg na pesquisa etnológica e o lugar privilegiado em que colocava os povos indígenas amazônicos no panorama da diversidade cultural humana, como também um projeto científico por ele concebido, associado à dispersão étnica e linguística desses povos ao longo da bacia amazônica e do qual o Museu Goeldi parecia fazer parte. Essa não foi a única vez em que Koch-Grünberg cobrou dos diretores da instituição, Goeldi e Huber, a contratação de etnólogos profissionais e o incentivo às viagens de campo. Ele percebia que ambos os cientistas suíços haviam priorizado, desde a década de 1890, a zoologia e a botânica, algo perceptível no número de pesquisadores e preparadores contratados para essas duas seções e também no número de publicações científicas nessas áreas. A etnologia, por outro lado, estava em visível desvantagem, embora houvesse, na região, um imenso campo de investigação e, no próprio museu, uma boa coleção etnográfica e arqueológica que, por si só, justificava a contratação de profissionais.

Na visão de Koch-Grünberg, o Museu Goeldi tinha um papel estratégico a desempenhar em um projeto científico de dimensões regionais. Contudo, a expectativa que ele nutriu com relação à instituição era vista com alguma desconfiança pelos pesquisadores do Museu Goeldi. Em 1911, quando Koch-Grünberg retornou a Belém para sua terceira viagem à região amazônica, o reencontro com o museu parece ter sido bem diferente do primeiro contato. Huber estava em Londres como delegado do estado do Pará na segunda Exposição Internacional da Borracha. Foi Snethlage, portanto, quem recebeu Koch-Grünberg. No relato que fez desse encontro a Huber, ela destacou o grande constragimento que sentiu com as insistentes perguntas que Koch-Grünberg fez sobre Kissenberth, sugerindo que parte da coleção formada por ele no Araguaia pudesse ter ficado no Museu Goeldi. Segundo Snethlage, “o pensamento de que ele [Koch-Grünberg] pudesse imaginar que havíamos feito um acordo secreto com K. [Kissenberth] me indignou tanto que a visita, de outra maneira tão agradável, acabou deixando em mim um travo ruim [üblen Nachgeschmack].”

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Belém, 26 de maio de 1911. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Emilia Snethlage (doravante, FES), Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

‍[28]

Koch-Grünberg devia estar se perguntando onde estariam as “belas coleções” de Kissenberth que a própria Snethlage mencionara em carta um ano antes,

Em 16 de março de 1910, Snethlage enviou notícias de Kissenberth para Koch-Grünberg, dando destaque para a coleção que ele estava reunindo: “Será de seu interesse saber que Dr. Kissenberth está temporariamente aqui [em Belém]. Ele está, aparentemente, bastante satisfeito e tem feito belas coleções”. Kissenberth, contudo, retornou a Berlim com material considerado insuficiente por Koch-Grünberg. Ver Kraus (

Kraus, Michael (2015), “More news will follow”– Wilhelm Kissenberth’s ethnographic photographs from Northeast and Central Brazil”. In: Fischer, Manuela; Kraus, Michael (eds.), Exploring the Archive: Historical Photography from Latin America. The Collection of the Ethnologisches Museum Berlin, Köln, Böhlau, pp. 244-278.

2015: 278, nota 79
); e Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

‍[29]
enquanto Snethlage (e, pode-se dizer, Huber também) ressentia-se das palavras de Koch-Grünberg, que talvez considerasse inoportunas, e de seu incisivo interesse por tudo o que dissesse respeito à etnologia amazônica – e isso incluía o Museu Goeldi. Nessa mesma carta a Huber, Snethlage sugere que Koch-Grünberg teria ficado incomodado com o fato de o Museu Goeldi ter contratado um profissional de fora do seu círculo de contatos e que não disfarçava certa aversão aos chamados ‘etnógrafos berlinenses’: “ele [Koch-Grünberg] também sabia do chifre que o Sch. [Rudolf Schüller] tinha para ele e os berlinenses – quase até melhor do que eu”. Após saber que Schüller “não era etnógrafo”, ou seja, que sua especialidade não era a formação de coleções e nem havia sido essa a missão que recebera no Museu Goeldi,

De fato, no Museu Goeldi, Schüller dedicou-se à pesquisa histórica e ao levantamento de fontes documentais relacionadas à Amazônia em bibliotecas brasileiras e europeias. Ver “Inventário analítico do Fundo Rudolf Schüller”, Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi, 1987.

‍[30]
Koch-Grünberg teria prosseguido na conversa e proposto negócios. Segundo Snethlage, ele ofereceu suas gravações cinematográficas, fotografias e “outras coisas”.

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Belém, 26 de maio de 1911. FES, Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

‍[31]

Sob alegação de não ter recursos, Huber não fez negócio com Koch-Grünberg, assim como não fez com Kissenberth, algum tempo depois, quando este escreveu da Alemanha solicitando apoio do Museu Goeldi para uma nova viagem à Amazônia, que seria feita em companhia de sua esposa em 1914, em troca de coleções etnográficas ou botânicas.

Carta de Wilhelm Kissenberth a Jacques Huber. Berlim [dezembro de 1913]; Carta de Jacques Huber a Wilhelm Kissenberth. Belém, 7 de janeiro de 1914. FJH, Dossiê Wilhelm Kissenberth. A nova viagem de Kissenberth não se concretizou.

‍[32]
Huber, pelo contrário, assim que retornou de um longo período de ausência, durante o qual esteve na Europa, no Oriente e nos Estados Unidos, usou os recursos do Museu Goeldi para enviar Snethlage à Alemanha, em abril de 1913, com uma dupla finalidade: finalizar e imprimir o seu catálogo de aves amazônicas e angariar fundos para uma nova expedição etnológica ao Xingu – entre os mesmos financiadores das viagens de Kissenberth e Koch-Grünberg.

A SENHORITA DOUTORA E OS ETNÓGRAFOS BERLINENSES[Subir]

Ao embarcar para a Europa, Snethlage acreditava que já havia se tornado suficientemente conhecida no meio antropológico local com seus artigos e vocabulários ( ‍Snethlage, Emilia (1910), “Zur Ethnographie der Chipaya und Curuhaé”, Zeitschrift für Ethnologie, 42, pp. 612-637.Snethlage, 1910,  ‍Snethlage, Emilia (1913a), “A travessia entre o Xingu e o Tapajóz”, Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, 7, pp. 49-92.1913a,  ‍Snethlage, Emilia (1913b), “Vocabulário comparativo dos índios Chipaya e Curuahé”, Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, 7, pp. 93-99.1913b) e com o mapa dos rios Iriri, Curuá e Jamanxim, elaborado pelo geólogo e geógrafo Maximilian Josef Mayr (1885-‍1912) e publicado na Petermann’s Geographische Mitteilungen ( ‍Mayr, Max (1912), “Die Routenaufnahme von Dr. E. Snethlage vom Xingú zum Tapajoz”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 58, pp. 209-213. Mayr, 1912).

O mapa fora desenhado a pedido de Snethlage, a partir de suas anotações de campo, consideradas por Mayr (

Mayr, Max (1912), “Die Routenaufnahme von Dr. E. Snethlage vom Xingú zum Tapajoz”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 58, pp. 209-213.

1912, p. 210
) como “valiosas” por apresentarem informações geográficas de áreas pouco ou nada conhecidas. Ver carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Pará, 16 de fevereiro de 1911. FES, Correspondência.

‍[33]
Em seu entendimento, isso a habilitava a apresentar, na Alemanha, um novo plano de viagem, mais ambicioso que o anterior por se propor a fazer coleções etnográficas. Em meados de maio de 1913, ela já havia encontrado Steinen na residência dele em Berlim e apresentado seus planos, que o agradaram a ponto de leva-la, no dia seguinte, ao Museum für Völkerkunde para que conhecesse Seler pessoalmente. No relato que fez a Huber desse encontro, Snethlage disse ter “simpatizado muito” com ambos e que eles haviam feito a seguinte proposta: “eu recebo de contribuição 5.000 (cinco mil) marcos pela expedição planejada, que devo realizar totalmente por minha conta (isto é, por conta do Museu Goeldi), e em contrapartida nos comprometemos a repassar duplicatas para o Museu de Berlim dos objetos indígenas trazidos por mim”.

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Berlim [provavelmente, 15 de maio de 1913]. FES, Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

‍[34]

Esse foi, em essência, o acordo feito entre Koch-Grünberg e Goeldi em 1903-‍1904, mas de maneira invertida: o Museu Goeldi financiaria a viagem e o museu berlinense pagaria pelas duplicatas. No caso de Snethlage, a proposta foi considerada “muito oportuna”, pois o valor a ser repassado pelo museu berlinense era suficiente para custear toda a viagem, independentemente do financiamento do Museu Goeldi. O plano traçado por ela, portanto, tentava contornar a crise financeira da instituição utilizando-se de um procedimento que parecia ser padrão entre os museus alemães, isto é, o co-financiamento das viagens por meio da venda do que os coletores consideravam ‘duplicatas’.

Uma vez autorizado o acordo por Huber e pelo governador do Pará, Snethlage finalizou a impressão de seu catálogo de aves e retornou a Belém no final de 1913. Em janeiro de 1914, ela anunciou a Seler que estava pronta para partir ao Xingu. A resposta dele, positiva, foi enviada no final de fevereiro, juntamente com o prometido apoio e algumas instruções.

Carta de Eduard Seler para Emilia Snethlage. Berlim, 20 de fevereiro de 1914. Ethnologisches Museum Berlin, Archiv, E 231/14, Acta betreffend die Erwerbung ethnologischer Gegenstände aus Amerika, v. 37, Pars IB. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

‍[35]
Snethlage agradeceu por ele tê-la lembrado “das muitas pequenas coisas que se pode achar desimportantes e negligenciar, especialmente porque ainda sou um iniciante nesse trabalho de coleta etnográfica propriamente dita”.

No original, a frase foi construída no masculino, conforme advertência feita a mim pela Dra. Beatrix Hoffmann. Esse é mais um indício de como Snethlage se impunha profissionalmente, apropriando-se de formas comumente usadas no mundo masculino. Além da elipse de gênero, mencionada anteriormente, Snethlage construiu uma variante de sua personalidade que existiu apenas na sua narrativa, criada para viabilizar o diálogo com seus pares homens. Novamente, a comparação com Octavie Coudreau é inevitável, pois ela também escrevia no masculino (

Ferretti, Federico (2017), “Imperial ambivalences. Histories of lady travellers and the French explorer Octavie Renard-Coudreau (1867-1938)”, Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, 99 (3), pp. 238-255.

Ferretti, 2017
).

‍[36]
Na mesma carta, ela relata que já havia entrado em contato com o ‘coronel’ José Porfírio Miranda, “proprietário [Besitzer] do baixo Iriri e Curuá”, e que ele havia lhe garantido total apoio à expedição: “Essa é uma ajuda muito importante”. Em seguida, anuncia seu plano de exploração de ambos os rios e os locais onde pretendia encontrar os Xipaya, Kuruaya, talvez os Arara e, possivelmente, “os índios do Steinen das nascentes do Xingu ou tribos semelhantes”.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 17 de março de 1914. Ethnologisches Museum Berlin, Archiv, E 231/14, E 979/14, E 383/15, Acta betreffend die Erwerbung ethnologischer Gegenstände aus Amerika, v. 38, Pars IB (doravante, EMB, Acta). Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

‍[37]

Nem mesmo o falecimento de Huber, em 18 de fevereiro, protelaria a viagem de Snethlage, mesmo que ela tenha se confrontado com uma situação bastante difícil: como não havia outro pesquisador (homem) disponível, com o mesmo grau universitário e maturidade científica, ela teve de assumir a direção interina do museu. Isso significava administrar as quatro seções científicas, a biblioteca, o jardim zoológico, o horto botânico, além de interagir cotidianamente com as autoridades públicas do estado do Pará, os visitantes do museu, a imprensa e a viúva de Huber com seus três filhos, que residiam dentro da instituição e desejaram retornar para a Suíça. Ainda assim, à frente de uma instituição em crise financeira, com o pagamento de salários em atraso, Snethlage partiu em abril para o Xingu e só retornou em dezembro de 1914. Ducke e outros técnicos ficaram encarregados da administração. O compromisso com o Museum für Völkerkunde seria honrado, apesar de todas as dificuldades que se apresentavam.

Em sua nova expedição, Snethlage acionou, mais uma vez, a rede de apoio local que vinha sustentando as atividades do Museu Goeldi ao longo da bacia amazônica. Além dos ‘coronéis’ Porfírio e Accioly, barqueiros e os próprios indígenas foram novamente arregimentados como guias e intérpretes. Desta vez, duas famílias Xipaya e uma Kuruaya acompanharam a viagem. Segundo o primeiro relatório de Snethlage a Seler, enviado em fevereiro de 1915, o encontro com os Xipaya, previsto para acontecer no alto Iriri, ocorreu antes do esperado, no baixo curso do rio, pois eles vinham fugindo de conflitos com os seringueiros. Quanto aos Kuruaya, ainda estavam “em suas antigas residências em afluentes do rio Curuá”, onde Snethlage reencontrou seu “velho guia João”. Ali, ela participou de rituais, registrou um vocabulário com o auxílio do tuxaua Carurema e coletou “o máximo e o mais completamente possível os poucos e pobres pertences dos Curuahés [Kuruaya]”. Quando Snethlage retornou a Belém, a Primeira Guerra Mundial já havia começado na Europa. Por essa razão, ela avisou Seler que a coleção só seria remetida para a Alemanha quando a rota estivesse “livre e segura”.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 4 de fevereiro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad. Snethlage entregaria pessoalmente a coleção ao Museum für Völkerkunde, mas somente em 1925, quando visitou a Alemanha pela última vez. Essa coleção foi estudada por Hoffmann (2015), segundo a qual seria a segunda coleção etnográfica feita por uma mulher na Amazônia (precedida por Therese von Bayern em 1888) e a única existente para os povos Xipaya e Kuruaya. Esse é um interessante caso para um estudo sobre gênero e colecionismo, tema que vem ganhando visibilidade nos últimos anos (

Belk, Russell W.; Wallendorf, Melanie (1994), “Of mice and men: gender identity in collecting”. In: Pierce, Susan (ed.), Interpreting Objects and Collections, London, Routledge, pp. 240-253.

Belk e Wallendorf, 1994
;

Oliveira, Ana Cristina Audebert Ramos (2018), “Colecionismo a partir da perspectiva de gênero”, Museologia & Interdisciplinaridade, 7 (13), pp. 15-30.

Oliveira, 2018
).

‍[38]

Em razão da guerra, os resultados impressos da segunda viagem de Snethlage ao Xingu também atrasaram. Somente em 1921 aparece um estudo sobre os Xipaya e Kuruaya na Zeitschrift für Ethnologie, também com algumas informações sobre os Arara e Asurini (Awaeté) ( ‍Snethlage, Emilia (1921), “Die Indianerstämme am mittleren Xingú. Im besonderen die Chipaya und Curuaya”, Zeitschrift für Ethnologie, 52-53, pp. 395-427.Snethlage, 1921). Em 1925, a Zeitschrift der Gesellschaft für Erdkunde zu Berlin publica uma descrição geográfica, ecológica, botânica e zoológica dos rios Iriri e Curuá, incluindo a composição da população local [Bevölkerung], formada por índios Xipaya, Kuruaya, Arara e os ditos “civilizados”, e sua localização ( ‍Snethlage, Emilia (1925), “Die Flüsse Iriri und Curuá im Gebiet des Xingú”, Zeitschrift der Gesellschaft für Erdkunde zu Berlin, pp. 328-354.Snethlage, 1925). Esse texto apareceu juntamente com um novo mapa dos rios Iriri, Curuá e Jamanxim, melhor ajustado e mais detalhado do que o publicado por Mayr ( ‍Mayr, Max (1912), “Die Routenaufnahme von Dr. E. Snethlage vom Xingú zum Tapajoz”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 58, pp. 209-213. 1912), mas com a mesma escala.

Essa foi a segunda e última expedição etnográfica de Snethlage. Ao longo de sua carreira, ela não manifestaria o mesmo interesse por outros rios e nem por outros grupos indígenas. A viagem foi, contudo, suficientemente importante não apenas pelos registros escritos, pelo mapa e pela coleção que Snethlage reuniu, mas também por ter inspirado e influenciado Curt Nimuendajú, que, em 1914, havia recém-chegado à Amazônia e ainda não vislumbrava uma carreira de etnólogo. Veremos, no próximo tópico, como a experiência de Snethlage em viagens pela Amazônia, incluindo o conhecimento da rede local de apoio às expedições do Museu Goeldi, e como seus contatos prévios com Koch-Grünberg e Seler abriram caminho para a carreira de Nimuendajú como coletor e etnólogo. Pretendo enfatizar que a inserção de Nimuendajú em uma complexa rede de relações sociais, que possibilitou o início de sua carreira profissional e que conectava etnólogos bem posicionados em instituições alemães, cientistas que atuavam na Amazônia, governantes do estado do Pará, ‘coronéis de barranco’ e indígenas, foi possível graças à atuação de Snethlage e à aproximação de Nimuendajú com o Museu Goeldi por meio de vínculos formais ou informais.

NIMUENDAJÚ ENTRA EM CENA[Subir]

Pouco se sabe sobre os primeiros anos de Nimuendajú no Brasil, em que condições viajou da Alemanha para São Paulo, quem o recebeu nessa cidade, como ocorreu sua inserção na sociedade local e como foram viabilizados os contatos com a Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, o Museu Paulista e o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), primeiras instituições a contratá-lo para serviços e viagens etnográficas e de exploração pelo sul e sudeste do país ( ‍Welper, Elena (2002), Curt Unckel Nimuendajú: um capítulo alemão na tradição etnográfica brasileira, Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional.Welper, 2002;  ‍Welper, Elena; Barbosa, Pablo (2013), “Nimuendajú e os índios do sul do Brasil”, Tellus, 13 (24), pp. 385-407.Welper e Barbosa, 2013). Da mesma forma, pouco se conhece as razões e condições de sua transferência para Belém e até mesmo a data precisa da mudança. Os autores que escreveram sobre Nimuendajú mencionam os anos de 1913 ou 1914, mas poucas fontes são citadas sobre o assunto.

Em um ofício ao Secretário Geral do Estado do Pará, datado de 19 de novembro de 1920, Snethlage afirma que Nimuendajú era ligado ao Museu Goeldi “por laços de amizade e colaboração já desde os tempos do finado Dr. Jacques Huber”.

No oficio, Snethlage pede e justifica a renovação do contrato de Nimuendajú com o Museu Goeldi. Ver Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 19 de novembro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

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Levando em consideração que Huber adoeceu em novembro de 1913 (e faleceu em fevereiro de 1914), é muito provável que Nimuendajú o tenha conhecido em Belém antes daquela data e que o acesso às coleções do museu lhe tenha sido franqueado pelo próprio Huber, enquanto Snethlage estava na Europa cuidando de seu catálogo de aves e negociando apoio para a segunda expedição ao Xingu. Essa ideia é corroborada por um relato do próprio Nimuendajú ( ‍Nimuendajú, Curt (1914c), “Vokabular der Pararí-Sprache”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 619-625.1914c: 625), que informa o seguinte:

Depois de ter estado em completa inatividade em Belém desde setembro do ano passado [1913], finalmente pedi minha transferência para qualquer ponto em que meus serviços fossem necessários para o contato com os índios. Fui chamado para o Maranhão depois disso, mas estou firmemente convencido de que lá não me sentirei melhor.

Como Nimuendajú foi encaminhado para o rio Gurupi somente em agosto de 1914, para participar do processo de ‘pacificação’ dos povos indígenas residentes na divisa entre o Pará e o Maranhão,

Conforme Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. NTKG, VK MR A.19.

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torna-se evidente que ele passou ao menos dez meses em Belém. Nesse período, certamente estabeleceu contato com o Museu Goeldi, talvez intermediado pelo próprio SPI. Pode-se afirmar, portanto, que, em algum momento entre janeiro e março de 1914, na sequência de cartas trocadas entre Snethlage e Seler com a finalidade de ajustar os termos e as condições da segunda viagem dela ao Xingu, o manuscrito de Nimuendajú sobre os Guarani tenha sido enviado a Berlim – o qual se tornaria sua primeira e elogiada publicação propriamente científica. Esse contato inicial de Nimuendajú com os ‘etnógrafos berlinenses’ foi, seguramente, estabelecido por Snethlage, antes de ela partir em viagem. Ela mesma relatou, de maneira inusitada, a Koch-Grünberg, como o manuscrito lhe foi entregue por Nimuendajú: “Naquela época, ele me deu seu manuscrito sobre os Guarani e o colocou à minha disposição; eu deveria queimá-lo ou jogá-lo fora, como eu quisesse. Eu estou agora muito orgulhosa de não ter feito uso dessa permissão, mas sim de tê-lo enviado ao Prof. Seler”.

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Karl Arenz e Nelson Sanjad. O ‘ensaio’ foi publicado assim que Seler o recebeu, nos fascículos 2-‍3 da Zeitschrift, que vieram conjuntamente à luz em julho de 1914. Apareceu com 120 páginas e 14 fotografias, bastante extenso para o padrão da revista (

Nimuendajú, Curt (1914a), “Die Sagen von der Erschaffung und Vernichtung der Welt als Grundlagen der Religion der Apapocúva-Guaraní”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 284-403.

Nimuendajú, 1914a
). Ainda em 1914, apareceram, na mesma revista, mas nos fascículos 4-‍5, três vocabulários coligidos por Nimuendajú em entrevistas que ele realizou com indígenas de diferentes etnias em Belém e São Luís (

Nimuendajú, Curt (1914b), “Vocabulários da Língua Geral do Brazil nos dialectos dos Manajé do Rio Ararandéua, Tembé do Rio Acará Pequeno e Turiwára do Rio Acará Grande, Est. do Pará”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 615-618.

Nimuendajú, 1914b
,

Nimuendajú, Curt (1914c), “Vokabular der Pararí-Sprache”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 619-625.

1914c
,

Nimuendajú, Curt (1914d), “Vokabular und Sagen der Crengêz- Indianer (Tājé)”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 626-636.

1914d
).

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Pouco depois de retornar do Xingu, Snethlage soube que Nimuendajú havia se desligado do SPI. Em 24 de março de 1915, logo após enviar seu primeiro relatório a Seler, já aqui mencionado, escreveu novamente para ele “para alertá-lo de que o Sr. Unkel perdeu o emprego na Proteção dos Índios, que, por falta de verba, foi quase completamente fechada e, devido a isso, ele está por ora aqui no Pará [Belém]”. Snethlage teria impedido Nimuendajú de voltar, por conta própria, para seus “amados índios” e tomou a iniciativa de consultar Seler sobre a possibilidade de contratá-lo para realizar coletas no Araguaia ou no Xingu – rios que, desde Steinen e a viagem de Kissenberth, ela sabia interessarem aos ‘etnógrafos berlinenses’. Segundo Snethlage, Seler “não poderia encontrar aqui personalidade mais adequada para fazer extensas coleções, que poderiam ser cientificamente úteis para a observação e a descrição de todos os aspectos importantes da vida indígena”. Outra vantagem que habilitava Nimuendajú para o serviço do Museum für Völkerkunde, segundo Snethlage, era o fato de ele ser alemão e se mostrar à disposição para cumprir qualquer plano formulado por Seler sem precisar se deslocar da Alemanha para o Brasil. Por essa razão, ela muito insistiu em recomendar sua contratação: “De outro modo, ele [Nimuendajú], provavelmente, será monopolizado [beschlagnahmt] pelos norte-americanos, que logo mandarão para cá uma expedição após outra. Por sorte, [William] Farabee está no alto Amazonas”.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 24 de março de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad. Snethlage refere-se ao antropólogo norte-americano William Curtis Farabee (1865-‍1925), que viajou pela Amazônia entre 1913 e 1916, visto como o grande concorrente dos etnólogos alemães na região.

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Nimuendajú entrava, assim, na disputa latente entre etnólogos e museus alemães e norte-americanos, como mais uma ‘arma’ ou recurso com o qual os primeiros podiam contar. E ele estava em condições, com o apoio do Museu Goeldi, de rapidamente acessar as áreas que interessavam a Steinen e Seler, enquanto Farabee, que personificava a ameaça à hegemonia alemã na pesquisa etnológica amazônica, em plena guerra mundial, mantinha-se relativamente distante. Essa questão, de feição geopolítica, aparentava ser ainda mais urgente pelo fato de Snethlage logo ter percebido o talento inato de Nimuendajú para a pesquisa etnográfica. Ao comentar com Koch-Grünberg a entrada em cena desse novo ‘ator’ na rede de museus, que ela resolvera pôr à prova ao enviá-lo, com recursos próprios, para fazer coleções e estudos nos rios Jari e Paru, Snethlage verbaliza uma impressão que se pode considerar, no mínimo, visionária em razão da carreira que Nimuendajú iria posteriormente desenvolver no Brasil:

Seler respondeu ao apelo de Snethlage de maneira sumária e terminante: ele gostaria de contratar Nimuendajú como coletor, mas isso era impossível dadas as circunstâncias adversas em que a Alemanha se encontrava. Além de não haver dinheiro, também não havia transporte e os meios de comunicação eram muito limitados em razão da guerra. Seler esperava, contudo, que os “inimigos” do país fossem logo “virados de cabeça para baixo para podermos fazer uma paz duradoura”.

Carta de Eduard Seler a Emilia Snethlage. Berlim, 29 de maio de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

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Esse conjunto de cartas de Snethlage, trocadas com Seler e Koch-Grünberg, demonstra bem a inflexão que Nimuendajú fez em sua vida quando deixou o SPI pela primeira vez, apostando em uma ocupação que iria notabiliza-lo internacionalmente: a coleta de objetos etnográficos e arqueológicos para museus e colecionadores. Isso demandava um estreito contato com pesquisadores interessados nessas ciências e em uma posição social que lhes permitissem encomendar objetos, vocabulários ou textos. No início de 1915, esse pareceu, a Nimuendajú, o arranjo ideal que lhe permitiria sobreviver em uma sociedade em profunda crise econômica e, ao mesmo tempo, viver entre povos indígenas. Foi nesse momento que a proximidade entre Nimuendajú e Koch-Grünberg começou a ser costurada a partir dos interesses que aproximavam o Museu Goeldi, o museu berlinense e a Gesellschaft für Anthropologie. Após Snethlage enviar o manuscrito de Nimuendajú sobre os Tembé para Koch-Grünberg para que ele a ajudasse a publicá-lo na Zeitschrift, este escreveu sua primeira carta a Nimuendajú, datada de 17 de março de 1915. Segundo Snethlage relatou a Koch-Grünberg, este primeiro contato deixou Nimuendajú “muito feliz”.

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Karl Arenz e Nelson Sanjad.

‍[45]
A resposta de Nimuendajú data de 18 de maio, na qual ele afirmou não saber (e, certamente, Snethlage também não o sabia), até aquele momento, que seu texto sobre os Guarani já havia sido publicado por Seler há quase um ano.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. NTKG, VK MR A.19.

‍[46]
Ou seja, foi Koch-Grünberg quem deu a notícia sobre a primeira publicação científica de Nimuendajú.

As dificuldades de comunicação que a guerra provocava, os problemas que o Museum für Völkerkunde enfrentava e a primeira expedição independente de Nimuendajú, viabilizada financeira e politicamente por Snethlage, aos Aparai, entre 1º. de junho e 15 de outubro de 1915, foram os elementos que propiciaram o início da correspondência entre Koch-Grünberg e Nimuendajú. Tanto que, poucos dias depois de retornar daquela viagem, Nimuendajú escreveu a Koch-Grünberg relatando suas incursões pelos rios Jari, Maracá e Paru, facilitadas pelas “pessoas que me foram gentilmente recomendadas pela Srta. Dra. Snethlage”.

Nimuendajú refere-se ao seringalista José Júlio Andrade, grande proprietário de terras e ‘dono’ dos rios Paru e Jari. Era mais um dos contatos de Snethlage no interior. Ela e outros pesquisadores do Museu Goeldi frequentemente se hospedavam em uma de suas fazendas no baixo Amazonas (Arumanduba).

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Em companhia de seringueiros, entrou em contato com os índios no Paru e conseguiu fazer uma boa coleção, mesmo estando doente e enfraquecido. Essa coleção – a primeira formada por Nimuendajú em campo – abrangia “exemplares de tudo o que pôde ser coletado e que esteve ao meu alcance na única aldeia que visitei (...)”.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 23 de outubro de 1915. NTKG, VK MR G.II.1. Tradução de Miriam Junghans. Nimuendajú publicou apenas um pequeno relato dessa viagem e muito tempo depois (

Nimuendajú, Curt (1927), “Streifzug vom Rio Jary zum Maracá”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 73, pp. 356-358.

Nimuendajú, 1927
). A expedição e a coleção dela originária foram estudadas por Hoffmann (

Hoffmann, Beatrix (2017), “Early journeys to the Brazilian Apalai: Kurt Nimuendajú, Felix Speiser and Protásio Frikel”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 15-68.

2017
), que divulgou um relato inédito de Nimuendajú preservado no Museum der Kulturen Basel, e Kraus (

Kraus, Michael (2017), “Nimuendajú, Farabee and the Aparai – some considerations on the process of collecting, digitizing and publishing ethnographic data”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 69-86.

2017
), particularmente os objetos adquiridos por Farabee e atualmente preservados no University of Pennsylvania Museum of Archaeology and Anthropology, nos Estados Unidos. Quanto aos objetos que permaneceram no Museu Goeldi, foram analisados por Guerra e Benchimol (

Guerra, Claudia Bucceroni; Benchimol, Alegria (2017), “Dois momentos da coleção Aparai no Museu Paraense Emilio Goeldi: Curt Nimuendajú em 1915 e Otto Schulz-Kampfhenkel em 1935-37”, Museologia e Patrimônio, 12 (2), pp. 92-116.

2017
).

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No final de seu relato a Koch-Grünberg, Nimuendajú ofereceu a coleção ao Museu Linden, com a expectativa de angariar recursos para pagar as despesas da viagem, um tratamento de saúde e financiar mais uma expedição de coleta. Segundo ele, “é um grande desejo meu e me daria muito contentamento se minha coleção não fosse para um museu norte-americano, e sim para um alemão”. Neste ponto, a sombra de Farabee é evidente, ficando implícito, na carta de Nimuendajú, que o norte-americano estava interessado na aquisição do material. A negociação financeira ficou sob a responsabilidade de Snethlage, pessoa que, segundo Nimuendajú, podia “avaliar melhor do que eu o preço de uma coleção (...).” Se todos chegassem a um acordo, a Casa Berringer & Cia., de propriedade do cônsul alemão no Pará e grande mecenas das artes e das ciências na Amazônia, adiantaria o valor e, depois da guerra, se responsabilizaria pela remessa das peças.

A Casa Berringer & Cia., sediada em Belém, pertencia a Christian Adolf Franz Berringer (1881?-?) e funcionou por mais de 50 anos como o principal entreposto comercial e financeiro entre a Alemanha e a Amazônia. Berringer foi um dos principais mecenas do Museu Goeldi. Há um estudo sobre uma das coleções etnográficas adquiridas por Berringer e depois transferida para o Museum für Völkerkunde Hamburg, de origem Wayana e Aparai (

Chávez, Christine (2017), “The Wayana and Apalai in the Museum für Völkerkunde Hamburg: History and Composition of the Berringer and Frikel Collections”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana…: objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 89-108.

Chávez, 2017
) e outros dois sobre uma grande coleção do rio Negro adquirida por Emil Zarges, que antecedeu Berringer à frente do consulado alemão em Belém e que posteriormente se tornaria seu sócio na Casa Zarges, Berringer & Cia. (

Herrera Vargas, Carolina (2014), “Coleccionando el Amazonas. Museos, caucho y el viaje de Schmidt y Weiss por el Alto río Negro”, Baukara, 6, pp. 9-35.

Herrera Vargas, 2014
;

Kurella, Doris (2018), “La Colección Zarges/Schmidt del alto río Negro en el Linden-Museum, Stuttgart”. In: Kraus, Michael; Halbmayer, Ernst; Kummels, Ingrid (eds.), Objetos como testigos del contacto cultural: perspectivas interculturales de la historia y del presente de las poblaciones indígenas del alto río Negro (Brasil/Colombia), Berlim, Ibero-Amerikanisches Institut, pp. 171-175.

Kurella, 2018
).

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No mesmo dia em que Nimuendajú escreveu para Koch-Grünberg, Snethlage escreveu para Seler, com a mesma finalidade: oferecer a coleção Aparai para compra. Mais uma vez, Snethlage apelou para um argumento de cunho nacionalista, iniciando sua carta da seguinte maneira: “A bela coleção que o Sr. N. [Nimuendajú] Unkel trouxe do Paru (a Apalai), da qual ele ainda não dispôs, apesar de dois americanos já terem demonstrado interesse, inspira-me a fazer nova tentativa de talvez salvá-la para a Alemanha”. Segundo Snethlage, o cônsul Berringer ofereceu-se para adiantar o dinheiro caso algum museu alemão de grande porte se interessasse pela coleção e prometesse ressarci-lo depois da guerra, de maneira que “a Alemanha não perca as coleções”. O preço estipulado para Seler foi de 3:000$000 (três contos de réis), um valor que estava na média das aquisições feitas pelo Museu Goeldi, mas Snethlage o avisou que Nimuendajú ofereceu o material aos “americanos” por 5:000$000 (cinco contos de réis). Caso Seler não pudesse comprar as peças, Snethlage pediu que ele a ajudasse a encontrar outro comprador dentro da Alemanha.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 23 de outubro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

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Nimuendajú fez o mesmo com Koch-Grünberg.

Dez dias depois, mais uma carta de Snethlage insistia com Seler sobre a compra de “uma coleção linda e bem conservada, dicionário e valiosas notas e observações de todo tipo”, feitas por Nimuendajú no rio Paru. A oferta de Berringer foi novamente mencionada, assim como as propostas que Nimuendajú recebera de Farabee e do American Museum of Natural History. Contudo, segundo Snethlage, ambas as propostas não o satisfaziam, pois ele queria “ardorosamente coletar para a Alemanha, também por causa das publicações”. Pelo teor da carta, Snethlage parecia estar sendo pressionada pelas necessidades financeiras de Nimuendajú e pelos compradores norte-americanos, mas deve ter relutado, até o último momento, antes de fechar negócio com Farabee. Conforme ela escreveu a Seler, Nimuendajú priorizaria um museu alemão, mas ele precisava “pensar também em seu futuro etnográfico”.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 2 de novembro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

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Koch-Grünberg respondeu a Snethlage e a Nimuendajú em 7 de dezembro de 1915, e Seler, em 4 de janeiro de 1916. Este foi sucinto, como nas demais cartas que escreveu, informando a Snethlage que não se candidatava para adquirir a coleção porque os recursos estavam escassos e certamente não voltariam aos mesmos patamares de antes da guerra. Seler afirmou, contudo, que continuaria publicando os trabalhos de Nimuendajú na Zeitschrift, “como tenho feito até agora”. Avisou, ainda, que havia entrado em contato com Koch-Grünberg para que ele viabilizasse, através do Museu Linden, a aquisição da coleção completa ou parte dela, “porque acho que devemos nos esforçar por salvar para a Alemanha a bela coleção, além de manter o Sr. Unkel a serviço do país”.

Carta de Eduard Seler a Emilia Snethlage. S.l., 4 de janeiro de 1916. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

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Quanto a Koch-Grünberg, escreveu para Snethlage e anexou, à carta dela, uma outra para Nimuendajú. Para a “Senhorita Colega”, Koch-Grünberg afirmou ter interesse na coleção, mas reclamou da falta de dinheiro, “uma vez que os esforços de guerra drenam todos os meios disponíveis”. Ele conseguira reunir apenas 2.500 marcos, valor bem abaixo do solicitado, e sugeriu que Snethlage apelasse à boa vontade de Berringer:

Se o Sr. Cônsul Berringer não intervier no último momento, como anjo salvador, e der a coleção dos Aparai de presente ao Museu Linden (...), então não sei o que podemos fazer, e ao Sr. Nimuendajú não restará mais nada a não ser vender a coleção, pelo maior preço possível, aos senhores norte-americanos, o que, naturalmente, dos pontos de vista da Alemanha e da ciência, como infelizmente as experiências que temos passado têm demonstrado, seria deveras lamentável.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Emilia Snethlage. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, Pasta A19. Tradução de Miriam Junghans.

‍[53]

Ao estimular a doação da coleção, Koch-Grünberg tentava evitar algo que desagradava a todos os envolvidos naquela rede de correspondentes: a ‘perda’ não apenas dos objetos, mas também de Nimuendajú para os norte-americanos:

Eu lamentaria imensamente se o Sr. Nimuendajú fosse obrigado a trabalhar para os norte-americanos, há anos nossos fortes concorrentes na Amazônia em razão dos muitos recursos financeiros de que dispõem. Mas, em todo caso, se isso vier a ocorrer, eu lhe peço que faça com que ao menos o Sr. Nimuendajú me envie sempre seus escritos, em especial seu material sobre linguística e mitologia. Eu me encarregaria de publicá-los em seu nome.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Emilia Snethlage. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, Pasta A19. Tradução de Miriam Junghans.

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Para Nimuendajú, tratado como “Excelentíssimo senhor”, Koch-Grünberg afirmou lamentar muito as circunstâncias da época, “tão desfavoráveis para a ciência”, que o impediam de apoiar integralmente os planos de viagem e coleta na Amazônia, os quais via “com a maior simpatia”. Contudo, mesmo sem poder adquirir a coleção Aparai e financiar novas viagens na região, Koch-Grünberg lançou sombras sobre os ditos norte-americanos, de quem Nimuendajú então se aproximava:

Na iminência da perda da coleção, Koch-Grünberg chegou a propor que Nimuendajú vendesse as duplicatas para os norte-americanos – “a um preço elevado, pois eles, provavelmente, podem e estão acostumados a pagar” – e “cedesse” ao Museu Linden a outra parte da coleção, “por um preço mais razoável, mais adequado às condições alemãs”. Pediu, ainda, que Nimuendajú desse a ele o material linguístico coletado durante a viagem ao Paru, pois, segundo Koch-Grünberg,

Para os colecionadores norte-americanos, que desejam encher seus museus com as peças mais chamativas possíveis, essa ciência pura não tem valor, e eu lamentaria muito se esse trabalho intelectual de um alemão caísse, justamente, nas mãos dos americanos. Suas anotações sobre os Aparai são especialmente interessantes para mim, pois, em breve, passarei a trabalhar no meu extenso material sobre as línguas Karib das Guianas.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, VK MR A.19. Tradução de Miriam Junghans. O grifo é do autor.

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Apesar do esforço coordenado de Snethlage e Nimuendajú em tentar vender a coleção para um museu alemão, e também apesar da positiva e também articulada reação de Seler e Koch-Grünberg, seja na forma de barganhar no preço ou de encontrar alternativas que lhes garantissem a posse do material, nada disto funcionou, pois nenhuma das três cartas – a de Seler (janeiro de 1916) e as duas de Koch-Grünberg (dezembro de 1915) – chegou a Belém. O acirramento da guerra, a partir de 1916, jogou a Alemanha em uma crise ainda maior, assim como ampliou o bloqueio oceânico feito pelos Aliados. Nem mesmo o esquema armado por Snethlage para garantir a comunicação com a Alemanha – enviar e receber cartas via Suíça, por meio de Sophie Huber-Müller, viúva de Jacques Huber, que se mudou para Basel depois do falecimento do marido – foi capaz de manter ativos os contatos do Museu Goeldi e dos seus funcionários com a Europa Central. Consequentemente, parte da coleção Aparai e os manuscritos de Nimuendajú acabaram nas mãos de Farabee, enquanto os correspondentes de ambos os lados do oceano ressentiam-se do silêncio e da falta de notícias.

Um ano depois, Koch-Grünberg ainda tentava obter notícias de Snethlage, de Nimuendajú, da coleção Aparai e do Museu Goeldi junto a Sophie Huber-Müller. Carta de Theodor Koch-Grünberg a Sophie Huber-Müller. Stuttgart, 6 de dezembro de 1916. NTKG, Pasta A20.

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O FIM DOS ANOS GERMÂNICOS NO MUSEU GOELDI[Subir]

Entre 1916 e 1919, tornam-se muito raros os vestígios documentais de Snethlage e Nimuendajú. O acirramento da guerra e do antigermanismo que dela redundou certamente os colocou em uma situação bastante frágil. Sobre Snethlage, sabe-se apenas que visitou o rio Negro em 1916, talvez a viagem menos conhecida dela, e que, após o Brasil cortar relações diplomáticas com a Alemanha, em abril de 1917, enfrentou sérios problemas junto ao governo do estado do Pará e à imprensa local ( ‍Snethlage, Emil-Heinrich (1930), “Dr. Emilie Snethlage zum Gedächtnis”, Journal für Ornithologie, 78 (1), pp. 123-134. Snethlage, 1930;  ‍Cunha, Osvaldo (1989), “Maria Elizabeth Emília Snethlage”. In: Cunha, Osvaldo, Talento e Atitude: estudos biográficos do Museu Emílio Goeldi, I. Belém, MPEG, pp. 83-102.Cunha, 1989). Acabou sendo exonerada de seu cargo no museu e se abrigou em uma missão dos capuchinhos no rio Maracanã, denominada Santo Antônio do Prata. Em carta a Seler, enviada após o final da guerra, ela dá algumas notícias sobre esse período:

Vivíamos [os alemães] aqui com bastante paz e tranquilidade, até que o Brasil declarou guerra [em outubro de 1917]. Fui então exonerada de meu cargo de diretora interina do Museu (que ocupava desde o falecimento do Dr. Huber), contudo o governo, que sempre teve uma conduta amistosa, quis me manter no cargo de curadora [Kustos] do departamento de Zoologia e só após insistentes ordens do governo federal no Rio [de Janeiro] é que me exonerou em abril do ano passado [1918]. No final de maio deste ano [1919] fui chamada de novo, e desde o início de agosto sou novamente diretora interina.

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 18 de novembro de 1919. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva. Há incongruências nas datas apresentadas por Snethlage nessa carta. Por exemplo, ela afirma que esteve desligada do Museu Goeldi entre abril de 1918 e maio de 1919, período em que viveu em uma “missão capuchinha na região de nascente do Maracanã”, onde coletou “material linguístico e alguns mitos (no original) dos índios Tembés (...)”. Outros registros apontam que a estadia dela entre os capuchinhos ocorreu entre o segundo semestre de 1917 e maio de 1918, como o próprio artigo que ela publicou sobre os Tembé (

Snethlage, Emilia (1917), “Nature and Man in Eastern Pará, Brazil”, The Geographical Review, 4, pp. 41-50.

Snethlage, 1917
). Resta, portanto, a dúvida sobre as atividades de Snethlage nesses anos.

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Quanto a Nimuendajú, esteve em Santo Antônio do Prata no início de 1916 e nos rios Xingu, Iriri e Curuá. É muito provável que sua visita ao Prata tenha sido agenciada por Snethlage, com o apoio da rede de relações sociais que ela mantinha. Segundo relato do próprio Nimuendajú, a finalidade da visita ao Prata foi estudar a língua Tembé e registrar as lendas que não havia conseguido obter no rio Gurupi – o que não conseguiu fazer.

Durante sua temporada na região do rio Gurupi a serviço do SPI, em 1914-‍1915, Nimuendajú coligiu dez lendas Tembé, publicadas em 1915 na Zeitschrift für Ethnologie (

Nimuendajú, Curt (1915a), “Sagen der Tembé-Indianer (Pará und Maranhão)”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 281-301.

Nimuendajú, 1915a
). No mesmo volume seria publicado mais um vocabulário, o quarto coligido por Nimuendajú, entre os Timbiras da fronteira do Pará e Maranhão (

Nimuendajú, Curt (1915b), “Vokabulare der Timbiras von Maranhão und Pará”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 302-305.

Nimuendajú, 1915b
).

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O mesmo objetivo moveu Snethlage em 1917, como ela relata a Seler na referida carta, o que nos permite pensar em um projeto de investigação conjunta que ela manteve com Nimuendajú. Ao retornar do Prata, Nimuendajú foi contratado pelo “famoso Senador José Porfírio”, o ‘dono do Xingu’, para “organizar a construção de uma estrada para automóveis na Grande Volta do Xingu”. Em seguida, a partir de fevereiro de 1917, esteve a serviço do ‘coronel’ Accioly nos rios Iriri e Curuá, até março de 1918. Nesse período, enfrentou vários problemas, retornou a Belém por algum tempo e depois voltou ao Xingu, onde permaneceu, também a serviço de Accioly, até junho de 1919. Em seguida, trabalhou novamente para Porfírio, como “gerente da estação de barcos a vapor de Vitória [do Xingu]”, até outubro de 1919, quando conseguiu “escapar” para Belém.

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Belém, 23 de abril de 1920. NTKG, VK MR G.II.1.

‍[60]

A primeira temporada de Nimuendajú no Xingu, portanto, foi de 1916 a outubro de 1919, com um breve intervalo em Belém. Apesar dos problemas de saúde e dos maus-tratos que sofreu, chegando a ser preso sob a acusação de espionagem, os contatos com os índios foram promissores para Nimuendajú ( ‍Schröder, Peter (2018), “Curt Nimuendajú und die Xipaya – Eine Episode aus der Geschichte der deutschen und der brasilianischen Ethnologie”. In: Bieker, Ulrike; Kraus, Michael; Rossbach de Olmos, Lioba; Schröder, Ingo W.; Palacios, Dagmar Schweitzer; Voell, Stéphane (eds.), Ich durfte den Jaguar am Waldrand sprechen. Festschrift für Mark Münzel zum 75. Geburtstag, Marburg, Curupira, pp. 65-85.Schröder, 2018). Além da carta na qual ele relata em detalhes esses contatos a Koch-Grünberg, Snethlage refere-se aos resultados dessa temporada a Seler, com quem retomou a correspondência em novembro de 1919, portanto, logo após o retorno definitivo de Nimuendajú para Belém:

Em outra carta, a Max Schmidt, que, após a guerra, substituiu Seler à frente da curadoria da coleção sul-americana do Museum für Völkerkunde, Snethlage deu mais informações sobre Nimuendajú:

O Sr. Unkel, que passou os últimos anos na região do Iriri, incluiu ou melhorou em meus dicionários aquilo em que eu ou os índios nos equivocamos. As palavras entre parênteses do dicionário Chipaya são Curuaya e vice-versa. O Unkel está ao mesmo tempo lhe mandando uma parte do manuscrito dele.

Carta de Emilia Snethlage a Max Schmidt. Pará, 22 de abril de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva.

‍[62]

Com investigações específicas e mais aprofundadas, a conexão entre as duas viagens de Snethlage e essa primeira temporada de Nimuendajú no Xingu tornar-se-iam visíveis, sobretudo nos trabalhos que ambos publicaram sobre os índios daquela região. Além dessas conexões, a correspondência de Snethlage com Seler e Schmidt, depois da guerra, também evidencia que ela continuava ‘agenciando’ as publicações de Nimuendajú na Alemanha, emprestando-lhe a autoridade que, àquela altura, ele ainda não possuía plenamente.

No segundo semestre de 1919, quando os serviços de correio com a Europa já estavam restabelecidos, Snethlage retomou seus contatos com o Museum für Völkerkunde, sobretudo no que diz respeito à remessa da sua coleção Xipaya e Kuruaya e à publicação dos escritos sobre as viagens dela e de Nimuendajú ao Xingu. Pouco depois, Nimuendajú retomou a correspondência com Koch-Grünberg. Em 23 de abril de 1920, ele escreveu relatando os acontecimentos locais nos últimos anos e informando sobre uma possível contratação pelo Museu Goeldi.

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Belém, 23 de abril de 1920. NTKG, VK MR G.II.1.

‍[63]
Koch-Grünberg respondeu de imediato, lamentando a falta de contato por quase cinco anos, que levou à perda da coleção Aparai e dos manuscritos de Nimuendajú para Farabee. Koch-Grünberg deu notícias, ainda, sobre as dificuldades enfrentadas pelo Museum für Völkerkunde, com graves repercussões na publicação da Zeitschrift für Ethnologie. Ele desaconselhou Nimuendajú de continuar publicando nessa revista e se prontificou a colocá-lo em contato com os editores da Anthropos, fundada em 1906 por padres católicos e considerada por Koch-Grünberg como “a única revista de etnologia que consegue ser publicada regularmente com um aspecto decente”.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 20 de maio de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

‍[64]

Um movimento semelhante fez Snethlage com relação a Schmidt. Em meio a uma infindável negociação para a remessa da coleção Xipaya-Kuruaya, Snethlage pediu a ele que enviasse os manuscritos de Nimuendajú para Koch-Grünberg, pois este havia garantido publicá-los, em pouco tempo, na Anthropos.

Carta de Emilia Snethlage a Max Schmidt. Pará, 2 de agosto de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Snethlage anexou a esta carta uma outra de Nimuendajú, também para Schmidt, com o mesmo pedido. Uma cópia dessa carta de Nimuendajú a Schmidt, datada de 28 de julho de 1920, foi enviada a Koch-Grünberg por Nimuendajú, em 29 de julho, o que atesta a circularidade das informações e dos manuscritos entre os quatro correspondentes.

‍[65]
Snethlage acreditava que esses textos, ao serem publicados em revistas importantes, no estrangeiro, seriam suficientes para comprovar o notório saber de Nimuendajú e o prestígio que ele angariava no meio científico internacional. Essa foi a maneira que ela encontrou para justificar a contratação de Nimuendajú pelo Museu Goeldi, uma vez que ele não possuía titulação acadêmica. De fato, Snethlage conseguiu novamente o seu intento, desta vez com o apoio de Koch-Grünberg: em 7 de setembro, Schmidt respondeu a Snethlage que já havia enviado os manuscritos de Nimuendajú para Stuttgart.

Carta de Max Schmidt para Emilia Snethlage. Berlim, 7 de setembro de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann.

‍[66]
Em 16 de setembro, Koch-Grünberg avisou Nimuendajú que recebera os papeis “prontos para impressão” e que já havia entrado em contato com os editores da Anthropos, “insistindo para que os publicassem o mais rápido possível”.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 16 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

‍[67]
Uma semana depois, nova carta de Koch-Grünberg informava que os editores haviam aprovado o trabalho e iriam publicá-lo imediatamente, sob um título dado por Koch-Grünberg. Segundo ele, “o senhor [Nimuendajú] pode ter certeza que ninguém na Alemanha publicaria tão rapidamente seus trabalhos, isso se chegassem a ser publicados”.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 23 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans. Esse artigo de Nimuendajú apareceu em duas partes na Anthropos. A primeira, nos volumes 14-‍15, relativos aos anos 1919-‍1920, mas publicados em março de 1921. A segunda, no tomo seguinte (

Nimuendajú, Curt (1919-1920), “Bruchstücke aus Religion und Überlieferung der Šipáia-Indianer: Beiträge zur Kenntnis der Indianerstämme des Xingú-Gebietes, Zentralbrasilien”, Anthropos, 14-15 (4-6), pp. 1002-1039.

Nimuendajú, 1919-‍1920
,

Nimuendajú, Curt (1921-1922), “Bruchstücke aus Religion und Überlieferung der Šipáia-Indianer: Beiträge zur Kenntnis der Indianerstämme des Xingú-Gebietes, Zentralbrasilien”, Anthropos, 16-17 (1-3), pp. 367-406.

1921-1922
). Para uma versão em português do trabalho, ver a tradução e edição de Schröder (

Schröder, Peter (Org.) (2019), Os índios Xipaya, cultura e língua: textos de Curt Nimuendajú, Campinas, Editora Curt Nimuendajú.

2019
).

‍[68]
Repetiu-se, nesse caso, o que ocorrera com os estudos sobre os Guarani e os Tembé: os (longos) textos de Nimuendajú causavam ótima impressão nos editores das revistas alemãs, que se apressavam em publicá-los, mesmo em uma situação desfavorável causada pela guerra.

O empenho de Snethlage e de Koch-Grünberg em favor das publicações de Nimuendajú era também justificado pelo interesse que ambos nutriam pelas coleções do Museu Goeldi. Em 1915, Snethlage já havia manifestado ao colega de Stuttgart que a razão de sua permanência no museu – em meio a uma crise financeira local e a uma guerra que fragilizou a posição social dos alemães no Brasil – eram as coleções: “Todas as minhas coleções estão aqui, assim como as de Huber, e ainda os valiosos objetos etnográficos, e sei muito bem que, no ano seguinte à minha partida, tudo estará desperdiçado e arruinado”.

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Nelson Sanjad e Karl Arenz.

‍[69]
A partir de agosto de 1919, quando ela reassumiu a direção do Museu Goeldi, essa mesma preocupação foi registrada em diversos relatórios feitos ao governo do estado. Segundo Snethlage, os recursos repassados ao museu não garantiam nem mesmo o que ela considerou como despesas mínimas da instituição: “1/ ser aberto ao público em estado limpo e asseado durante 3 dias da semana, 2/ conservar em bom estado as coleções científicas ali depositadas”.

Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 2 de janeiro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

‍[70]

Nesse segundo ponto, urgia proteger, sobretudo, a coleção etnográfica, razão pela qual Snethlage solicitou, em 19 de dezembro de 1919, a contratação de Nimuendajú. No ofício em que justificou ao governo a necessidade desse novo funcionário, ela alertou que essa coleção era “uma das mais valiosas, se não a mais valiosa das propriedades científicas do Museu” e que se encontrava “n’um estado de abandono deveras lastimável, devido principalmente à falta de pessoal científico”. Como já havia ocorrido tentativas de roubo, tornava-se “imperiosa” a necessidade de fazer um inventário e um catálogo completo da coleção. Para esse serviço, Snethlage apresentou Nimuendajú, que já havia prestado serviços ao museu gratuitamente e era um “etnógrafo de merecimentos verdadeiros e já favoravelmente conhecido no mundo científico, pelos seus trabalhos sobre os índios Guarani e outros (...)”. O plano de trabalho de Nimuendajú seria dividido em três principais tarefas:

I. [fazer] uma revisão completa das coleções etnográficas e arqueológicas do Museu Goeldi, II. a organização de um inventário completo das coleções etnográficas e a confecção de um catálogo que permita verificar a falta de objetos em pouco tempo, III. a reorganização das etiquetas da parte exposta ao público, medida sobremodo necessária.

Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 19 de dezembro de 1919. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

‍[71]

A autorização para a contratação de Nimuendajú foi dada em 9 de janeiro de 1920,

Ofício de Eládio Lima, Secretário Geral do Estado do Pará, à Diretora do Museu Goeldi. Pará, 9 de janeiro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

‍[72]
mas em maio ainda não havia sido efetivada. Em um novo ofício, Snethlage sustentou o pedido que havia formulado cinco meses antes, argumentando que “o estado das nossas inestimáveis coleções etnográficas é tal, que uma revisão das mesmas e antes de tudo, a organização de um catálogo completo e detalhado, é uma absoluta necessidade”. Segundo ela, seria “quase impossível encontrar-se pessoa mais idônea que o Sr. Unkel, que conhece bem as nossas coleções, tendo já feito estudos etnográficos no Museu desde o tempo do falecido Dr. J. Huber, e diversas vezes reunido coleções importantes (dos índios Apalai, Juruna etc.) para o nosso Museu”. O museu só teria a ganhar se conseguisse “segurar” Nimuendajú, uma “força promissora e deveras infatigável na sua dedicação à ciência etnográfica”.

Em junho de 1920, a nomeação de Nimuendajú foi efetivada como chefe interino da 4ª. Seção, intitulada Etnologia, Arqueologia e Antropologia.

Várias notícias. O Estado do Pará, Belém, n. 3.313, p. 3, 9 jun. 1920.

‍[73]
O inventário e a conservação da coleção etnográfica foi a missão que Nimuendajú recebeu de Snethlage – e foi este o aspecto comemorado por Koch-Grünberg ao ter notícia do “novo etnógrafo” da instituição:

Seria lamentável se as valiosas coleções etnográficas do Museu [Goeldi], a maravilhosa cerâmica antiga e tantas outras preciosidades fossem malbaratadas e ficassem perdidas para a ciência, para a qual nem se tornaram ainda verdadeiramente acessíveis! – Admiro a Srta. Dra. Snethlage, que cumpre fielmente seu dever e aguenta, para muito além dele, essa posição já meio perdida. Peço-lhe que não meta a viola no saco cedo demais, mas que permaneça fiel ao seu lado o tempo que for possível.

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 16 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

‍[74]

Este foi o primeiro vínculo formal de Nimuendajú com o Museu Goeldi, embora ele mesmo não parecesse muito animado com o cargo. Nimuendajú tinha consciência de quão frágil era a situação em que se encontrava naquele momento. Além da crise econômica, que se aprofundava a cada ano, a nacionalidade de Snethlage e Nimuendajú inviabilizava qualquer possibilidade de apoio ao museu enquanto ambos estivessem vinculados a ele. Em uma carta a Koch-Grünberg datada de julho de 1920, Nimuendajú expõe, de maneira extremamente lúcida e franca, mas um tanto dramática, a difícil situação do museu e de Snethlage, assim como seu ceticismo sobre a posição que havia adquirido na instituição:

Meu salário mensal é de 500$000, mas naturalmente não o recebo, como ninguém recebe nada aqui. A Srta. Dra. Snethlage pede dinheiro a Berringer e a Paaschen [sic]

Ernst Paschen, comerciante alemão estabelecido em Belém.

‍[75]
para si – e para mim. Inicialmente, eu não queria aceitar o cargo de jeito nenhum, primeiro porque sabia que iriam me deixar morrer de fome, depois porque considero o Museu Goeldi completamente condenado e creio que sua decadência é apenas questão de tempo. (...) Lamento, sinceramente, pela Srta. Dra. Snethlage – cujas realizações científicas tenho na mais alta conta –, que ela tenha se acorrentado dessa forma a essa instituição e que creia que tem consigo mesma a obrigação moral de aguentar até o fim.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 29 de julho de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

‍[76]

De certa maneira, Nimuendajú antevia, desde o início de seu contrato, a dificuldade quase intransponível que Snethlage enfrentaria para se manter e para mantê-lo no museu. Ele voltou a falar do assunto com Koch-Grünberg em novembro de 1920. Ao tomar conhecimento de que seu estudo sobre os Xipaya seria publicado na Anthropos somente em 1921, lamentou que isso se daria “tarde demais” para os planos que ele tinha em mente:

Ela [a publicação] deveria ter me ajudado a consolidar um pouco mais minha posição diante dos homens do governo brasileiro, para o que esses estudos sobre índios do Pará teriam sido bastante apropriados. Não pense o senhor que me importo com a opinião dos politiqueiros paraenses ou com um cargo público que me traz apenas prejuízos materiais. Mas eu queria conservar meu cargo de chefe de seção pelo bem do Museu, pelo bem da coleção – da qual a melhor parte é o material que o senhor coletou no [rio] Caiary [Uaupés] – e para ficar ao lado da Srta. Dra. Snethlage tanto tempo quanto fosse possível; pois, assim que eu me for, por certo algum jovem de grande inteligência e inteiramente de confiança em termos políticos – dos quais já temos alguns no Museu – tomará imediatamente meu lugar. Por isso, meu interesse na rápida publicação [do artigo].

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 12 de novembro de 1920. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

‍[77]

Em fevereiro de 1921, ao saber do anúncio de que o novo governador do estado, o médico Antônio Emiliano de Sousa Castro (1875-‍1951), não pagaria os dez meses de salários atrasados, Nimuendajú desabafou novamente com Koch-Grünberg em tom bastante ácido.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 19 de fevereiro de 1921. NTKG, VK MR A.31.

‍[78]
Este reagiu de maneira um tanto inusitada, mas compreensível se lembrarmos que a rede que havia caracterizado a etnologia de matriz germânica na Amazônia por várias décadas estava ruindo, tanto no Brasil quanto na Alemanha, e também se admitirmos que as coleções do Museu Goeldi materializavam o sucesso dessa rede, urgindo salvaguardar tanto o potencial de trabalho que Snethlage e Nimuendajú possuíam quanto o material preservado no museu:

Me dá muita pena, pelo senhor e pela Srta. Dra. Snethlage, que a situação do museu esteja tão ruim. Se não houver outro jeito, o melhor seria se o senhor pudesse voltar aos seus índios. Lá é o seu verdadeiro lugar, onde o senhor – acredito eu – se sente melhor. – Seria lamentável para a nossa ciência se as maravilhosas coleções [do Museu Goeldi] fossem dispersadas ou destruídas! Se as coisas acabarem sendo malbaratadas, será que o Sr. Berringer não poderia adquirir algumas delas, em especial as maravilhosas cerâmicas, para o Museu Linden?

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 8 de abril de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans. Diferentemente das previsões fatalistas de Nimuendajú, que fizeram Koch-Grünberg ambicionar as coleções do Museu Goeldi, a instituição sobreviveu.

‍[79]

Em abril, a situação de Snethlage e Nimuendajú ficou ainda pior. Uma denúncia anônima no jornal acusou Snethlage de desviar alimentos destinados aos animais do zoológico, provocando a morte por inanição de muitos deles, e outra denúncia, no mesmo jornal, acusou funcionários homens da instituição (Nimuendajú era um deles), embora sem lhes citar os nomes, de receberem prostitutas em seus aposentos, algo considerado um grave desrespeito.

Grave denúncia. O Estado do Pará, Belém, n. 3.828, p. 1, 19 abr. 1921; O caso do Museu Goeldi. O Estado do Pará, Belém, n. 3.829, p. 2, 20 abr. 1921.

‍[80]
As denúncias, consideradas por Cunha ( ‍Cunha, Osvaldo (1989), “Maria Elizabeth Emília Snethlage”. In: Cunha, Osvaldo, Talento e Atitude: estudos biográficos do Museu Emílio Goeldi, I. Belém, MPEG, pp. 83-102.1989) como falsas e destinadas à desmoralização pública de Snethlage, causaram escândalo e levaram à imediata demissão de Nimuendajú, em 1º. de maio. Logo em seguida, em 1º. de junho, Snethlage foi afastada da direção, mas mantida na chefia da seção zoológica. Em seu lugar, foi nomeado um médico e senador do Congresso Estadual, Antônio Ó de Almeida, sem nenhuma ligação ou experiência com a pesquisa científica.

Nessas circunstâncias, Snethlage começou a negociar sua transferência para o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Após contato com o diretor desse museu, o também médico Bruno Lobo (1884-‍1945), paraense, ela conseguiu a autorização do governador para enviar, em dezembro, ao Museu Nacional, uma parte de suas coleções ornitológicas e mastozoológicas. Em janeiro de 1922, Snethlage obteve uma licença do Museu Goeldi para tratar de assuntos pessoais. Em 1º. de julho, foi nomeada ‘naturalista viajante’ do Museu Nacional, sendo, no mesmo mês, definitivamente desligada do Museu Goeldi. No Rio, continuaria uma intensa atividade de pesquisa e coleta, sobretudo ornitológica, em todo o território nacional, com a finalidade de comprovar uma hipótese que vinha testando há algum tempo, relacionada ao papel dos grandes rios brasileiros como barreiras biogeográficas. Snethlage faleceu em 1929 durante uma expedição solitária ao rio Madeira, em Rondônia ( ‍Snethlage, Emil-Heinrich (1930), “Dr. Emilie Snethlage zum Gedächtnis”, Journal für Ornithologie, 78 (1), pp. 123-134. Snethlage, 1930;  ‍Cunha, Osvaldo (1989), “Maria Elizabeth Emília Snethlage”. In: Cunha, Osvaldo, Talento e Atitude: estudos biográficos do Museu Emílio Goeldi, I. Belém, MPEG, pp. 83-102.Cunha, 1989;  ‍Junghans, Miriam Elvira (2009), “Avis rara: a trajetória científica da naturalista alemã Emília Snethlage (1868-1929) no Brasil”, Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde), Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz.Junghans, 2009).

Quanto a Nimuendajú, conseguiu finalizar o pretendido inventário da coleção etnográfica do Museu Goeldi, um valioso documento que registra e descreve cada objeto do acervo, sua origem, data de coleta e nome do colecionador, mas certamente não recebeu seus salários atrasados.

Ver Catálogo das Coleções Etnográficas do Museu Goeldi. Belém, 3 de abril de 1921. Museu Paraense Emílio Goeldi, Coordenação de Ciências Humanas, Reserva Técnica Curt Nimuendajú.

‍[81]
Após o desligamento do museu, rumou para o rio Oiapoque, onde o governo federal estava construindo uma colônia militar destinada a fazer a vigilância da fronteira com a Guiana Francesa, manter presos degredados e controlar as populações indígenas. Contudo, ao relatar sua nova posição para Koch-Grünberg, Nimuendajú não se mostrou muito animado com o novo trabalho, apesar do contato que pôde manter com alguns grupos indígenas: “Aqui também me encontro em uma situação bastante desfavorável, não tenho condições nem de pagar parte das minhas dívidas, nas quais estou atolado até o pescoço, que dirá conseguir juntar dinheiro para pesquisas”.

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Colônia Oiapoque, 26 de junho de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS[Subir]

Em setembro de 1921, Nimuendajú foi recontratado pelo SPI com a finalidade de instalar um posto do serviço e conduzir o processo de ‘pacificação’ dos Parintintim [Kagwahiva], no rio Madeira, que vinham de um longo histórico de conflitos com seringalistas e seringueiros que invadiam suas terras e também com outros grupos indígenas. Segundo Nimuendajú, desde 1919 ele vinha negociando um possível retorno ao SPI, mas com algumas exigências em razão da experiência negativa que viveu alguns anos antes. Ao relatar a novidade a Koch-Grünberg, ele, mais uma vez, demonstrou a relação ambígua que mantinha com essa instituição: “Fui bem pouco receptivo a esses senhores. Ainda não esqueci que, em 1915, me descartaram por ser alemão e, se pensam que, desde então, ‘melhorei’, estão bastante enganados”. Como o conflito com os Parintintim parecia ser grave e urgente, Nimuendajú foi contratado de maneira rápida e em condições bem mais favoráveis do que as que conhecera no Museu Goeldi e na Colônia Oiapoque.

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Manaus, 21 de setembro de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

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Creio que, nesse ponto, teve início uma nova etapa na vida de Nimuendajú. O afastamento do Museu Goeldi – instituição que ocupou um lugar importante na sua formação, seja pelas coleções que ali pôde estudar ou pelas viagens que pôde realizar – e também de Snethlage, com quem construiu fértil e solidária amizade, que lhe permitiu não apenas sobreviver em uma sociedade em crise, mas também ampliar suas perspectivas profissionais, seja pelos contatos que ela estabeleceu (Seler, Koch-Grünberg, Farabee etc.) ou pelas publicações que ela agenciou, acabou obrigando Nimuendajú a agir com mais autonomia, fora do círculo de relações que manteve desde sua chegada a Belém, e com mais ousadia, assumindo os desafios que então se apresentaram, como foi o caso da ‘pacificação’ dos Parintintim.

Por outro lado, o vínculo de Nimuendajú com o Museu Goeldi, formal ou informal, por quase oito anos, também foi importante para Snethlage, pois permitiu que ela prolongasse sua permanência à frente da instituição em uma situação política bastante desfavorável causada pela Primeira Guerra Mundial. A demissão de Snethlage também representou uma nova fase na vida dela, que lhe permitiu manter suas pesquisas e viagens no Museu Nacional, embora em uma posição profissional mais discreta. Em razão dos problemas que enfrentou durante os últimos anos em Belém, ela talvez preferisse assim.

Não há indícios se Nimuendajú e Snethlage voltariam a se encontrar. Provavelmente, não. Eles mantiveram, contudo, uma correspondência, pelo menos durante os primeiros anos longe um do outro. Ao retornar definitivamente do rio Madeira, em fevereiro de 1923, ele relatou a ela sua longa experiência junto aos Parintintim por meio de uma notável carta, reproduzida, quase literalmente, para Koch-Grünberg.

A carta de Nimuendajú para Snethlage, preservada no arquivo da família dela, foi transcrita, traduzida e publicada por Mere (

Mere, Gleice (2013), “Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939): nota biográfica, expedições e legado de uma carreira interrompida”, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 8 (3), pp. 773-804.

2013
). O inverso também seria possível: a carta talvez tenha sido escrita para Koch-Grünberg e depois reproduzida para Snethlage. Uma terceira possibilidade seria o aproveitamento, por Nimuendajú, de um diário, reproduzido para ambos. Ver carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Posto de Pacificação dos Parintintim, 25 de dezembro de 1922 [carta redigida em várias datas, sendo a última a de 11 de fevereiro de 1923, em Belém]. NTKG, VK MR G.II.1.

‍[84]
Isso atesta, mais uma vez, a triangularidade dessa relação e a inserção de ambos, Snethlage e Koch-Grünberg, no rol das afinidades eletivas de Nimuendajú. Posicionados em museus importantes da época, no Brasil e na Alemanha, e, portanto, capazes de articular e colocar em movimento pessoas e objetos, os dois influenciaram na formação intelectual de Nimuendajú e tiveram alguma responsabilidade pelo início da carreira que ele viria a desenvolver como coletor e etnólogo.

Entretanto, se a relação de Koch-Grünberg com Nimuendajú tornar-se-ia bem conhecida e evidenciada nas publicações de ambos, o mesmo não aconteceu com Snethlage. A obra etnográfica dela, pequena, mas relevante para o caso dos povos indígenas do Xingu, apenas recentemente tornou-se mais conhecida ( ‍Corrêa, Mariza (1995), “A Doutora Emília e a tradição naturalista”, Horizontes Antropológicos, 1(1), pp. 37-46.Corrêa, 1995,  ‍Corrêa, Mariza (2001), “A Doutora Emília e o detalhe etnográfico”. In: Faulhaber, Priscila; Toledo, Peter Mann (orgs.), Conhecimento e fronteira: História da Ciência na Amazônia, Brasília, Paralelo 15, pp. 161-179.2001;  ‍Junghans, Miriam Elvira (2009), “Avis rara: a trajetória científica da naturalista alemã Emília Snethlage (1868-1929) no Brasil”, Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde), Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz.Junghans, 2009;  ‍Hoffmann, Beatrix (2015), “100 Jahre Xipaya- und Kuruaya-Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin”, Baessler-Archiv, 62, pp. 45-66.Hoffmann, 2015) e ainda demanda traduções e análises epistemológicas e históricas no âmbito da Völkerkunde. A amizade que ela manteve com Nimuendajú tornou-se completamente invisível, assim como sua fundamental participação na projeção internacional que ele obteve depois de se mudar para Belém. Até mesmo nos escritos que ele deixou são poucos os rastros existentes dessa relação, como é possível perceber em apenas um de seus textos sobre os índios do Xingu ( ‍Nimuendajú, Curt (1948), “Tribes of the Lower and Middle Xingú River”. In: Steward, Julian H. (ed.), Handbook of South American Indians, v. 3, The Tropical Forest Tribes, Washington, Smithsonian Institution, pp. 213-243.Nimuendajú, 1948).

Esse fato tem uma conotação política se considerarmos a invisibilidade das mulheres, de maneira geral, no mundo da ciência até a segunda metade do século XX, inclusive entre historiadores e antropólogos. Snethlage não fugiu a esse padrão, apesar de ter sido uma liderança científica em sua época, de ter elaborado o primeiro catálogo de aves amazônicas, de ter estabelecido as bases da biogeografia de aves no Brasil, de ter sido a primeira cientista a fazer uma expedição no interflúvio amazônico e, finalmente, de ter revelado, para a ciência, na década de 1910, um homem com extraordinário talento em investigações etnológicas e que viria a transformar definitivamente esse campo nas terras baixas sul-americanas.

Para finalizar, cabem algumas palavras sobre o subtítulo do presente artigo. Nos últimos anos, são recorrentes as críticas à teoria do ator-rede (actor-network theory) e a conceitos que foram amplamente utilizados por historiadores da ciência, como ‘difusão’, ‘centro-periferia’ e ‘transferência’, particularmente em análises sobre o processo de institucionalização e globalização da ciência ( ‍Secord, James (2004), “Knowledge in Transit”, Isis, 95, pp. 654-672.Secord, 2004;  ‍Roberts, Lissa (2009), “Situating Science in Global History: Local Exchanges and Networks of Circulation”, Itinerario, 33 (1), pp. 9-30.Roberts, 2009;  ‍Raj, Kapil (2013), “Beyond Postcolonialism… and Postpositivism: Circulation and the Global History of Science”, Isis, 104 (2), pp. 337-347.Raj, 2013,  ‍Raj, Kapil (2017), “Networks of knowledge, or spaces of circulation? The birth of British cartography in colonial south Asia in the late eighteenth century”, Global Intellectual History, 2(1), pp. 49-66.2017). No lugar daquela teoria e dos citados conceitos, criticados, principalmente, por considerarem relações lineares entre os membros da rede e omitirem relações de poder e hierarquia, assim como processos intermediários de tradução, defende-se a ideia de ‘circulação do conhecimento’ e de ‘espaços de circulação’. O primeiro termo pressupõe a negociação e reconfiguração do conhecimento nas interações interculturais, as influências mútuas entre os sujeitos sociais, as assimetrias de poder e resistências que podem provocar. O segundo “sugere um tecido [social] com desníveis topográficos, assimetrias (de poder) e também a possibilidade de explorar um continuum já existente, ou nuvem, de relações, em vez de meramente construir ligações individuais” ( ‍Raj, Kapil (2017), “Networks of knowledge, or spaces of circulation? The birth of British cartography in colonial south Asia in the late eighteenth century”, Global Intellectual History, 2(1), pp. 49-66.Raj, 2017: 52). Permite, ainda, delinear um espaço geográfico onde ocorrem as relações sociais, com múltiplas escalas, que pode variar no tempo e cujas fronteiras seriam difusas, porosas e suscetíveis à inserção/exclusão de indivíduos ou grupos sociais.

Foi nesse sentido que o termo foi utilizado no presente artigo, ao destacar espaços institucionais (os museus), comunidades epistêmicas (os etnólogos) e até mesmo epítetos nacionais e linguísticos (o mundo germânico e a língua alemã). Esses elementos, alinhados no início do século XX, aproximaram não apenas cidades tão distintas quanto Belém, Berlim e Stuttgart, mas também uma geografia física pouco considerada por historiadores: o espaço constituído pelos rios e pelas florestas – e seus habitantes. Refiro-me aos rios Negro, Jari, Paru, Xingu, Araguaia, Maracanã e Gurupi – e aos grupos sociais que os habitavam (povos indígenas, ‘coronéis’, comerciantes, ribeirinhos, seringueiros, missionários etc.) e que também definiram, a partir de sua mobilidade e interesses, o tipo de conhecimento e a maneira como ele circulou. Essa geografia física e topografia social variou ao longo dos anos aqui analisados, mas foi relativamente estável em seus elementos constitutivos: os museus, os cientistas, os intermediários (go-betweens), os povos indígenas e sua cultura material.

Por outro lado, penso que o conceito de rede, pelo menos em seu sentido descritivo, não analítico, continua sendo útil do ponto de vista metodológico para mapear os sujeitos históricos que aparecem conectados, de alguma forma, em determinado espaço-tempo. Essa conexão, obviamente, não obscurece as diferenças sociais e culturais, as distintas perspectivas, os múltiplos fluxos de conhecimento. Ela apenas implica algum nível de interação, de influência mútua, de ação recíproca. Ao delinear, no presente artigo, uma rede de sujeitos que se conectou no início do século XX para viabilizar a investigação etnológica e a coleta de artefatos indígenas na Amazônia, aproximando diferentes grupos sociais, instituições e espaços, pretendi jogar luz sobre processos ainda não muito claros relacionados à construção do conhecimento etnológico nessa região, como o das relações de gênero e o papel dos grandes proprietários de terras e comerciantes, frequentemente atuando como intermediários, gatekeepers e mecenas. Outros processos estão por ser investigados, como o protagonismo indígena na relação com os etnólogos e os intercâmbios existentes no pensamento antropológico desenvolvido pelos sujeitos aqui citados. Esses são temas complexos que exigem pesquisas específicas.

AGRADECIMENTOS[Subir]

Esta pesquisa foi possível graças à generosidade de várias pessoas e ao apoio de algumas instituições. Agradeço aos descendentes de Emília Snethlage, na pessoa do Dr. Rotger Snethlage, e de Jacques Huber, na pessoa do Dr. Martin Huber, pelo acesso ao espólio dos referidos cientistas e pelo fundamental suporte que deram ao trabalho; ao Dr. Ernst Halbmayer e Dr. Michael Kraus, pela interlocução e acesso ao espólio de Theodor Koch-Grünberg; à Dra. Beatrix Hoffmann, pela interlocução e por compartilhar documentos de Emília Snethlage; ao Dr. Peter Schröder, pela interlocução; aos colegas do Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Paraense Emílio Goeldi, pela colaboração; à Dra. Miriam Junghans, Dr. Karl Arenz e MSc. João Batista Poça da Silva, pela tradução dos documentos aqui citados; aos pareceristas anônimos desta revista, pela cuidadosa revisão do trabalho; ao Naturhistorisches Museum der Burgergemeinde Bern, Suíça, pelo apoio logístico e financeiro; à Fundação Capes (Processo 18109-‍12-8), pela concessão de uma bolsa de pós-doutorado no exterior (2013-‍2014); ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 431149/2016-0) e à Stiftung Emilia-Guggenheim-Schnurr der Naturforschenden Gesellschaft in Basel, pela concessão de auxílios financeiros no Brasil e na Suíça, respectivamente.

NOTAS[Subir]

[1]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. Philipps-Universität Marburg, Fachgebiet Kultur- und Sozialanthropologie Völkerkundliche Sammlung, Nachlass Theodor Koch-Grünberg (doravante, NTKG), VK MR A.19. Tradução de Miriam Junghans.

[2]

Essa primeira carta de Koch-Grünberg a Nimuendajú, que deu origem à correspondência de ambos, não consta no espólio documental preservado na Philipps-Universität Marburg.

[3]

Alguns autores merecem referência por terem apontado na direção que pretendo seguir: Welper ( ‍Welper, Elena (2002), Curt Unckel Nimuendajú: um capítulo alemão na tradição etnográfica brasileira, Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional.2002: 58), que chamou a atenção para a possibilidade de Snethlage ter “contribuído para a introdução de Nimuendajú na academia científica europeia”, incluindo na mediação do contato com Koch-Grünberg e com os editores da Zeitschrift für Ethnologie; Schröder ( ‍Schröder, Peter (2011), “Curt Nimuendajú e os museus etnológicos na Alemanha”, Anthropológicas, 22 (1), pp. 141-160.2011), que também mencionou a possibilidade de Snethlage ter estabelecido os primeiros contatos de Nimuendajú com os círculos acadêmicos europeus; e Hoffmann ( ‍Hoffmann, Beatrix (2015), “100 Jahre Xipaya- und Kuruaya-Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin”, Baessler-Archiv, 62, pp. 45-66.2015,  ‍Hoffmann, Beatrix (2017), “Early journeys to the Brazilian Apalai: Kurt Nimuendajú, Felix Speiser and Protásio Frikel”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 15-68.2017), que vem destacando o papel pioneiro de Snethlage na coleta de artefatos indígenas e na investigação etnológica na Amazônia, inclusive no agenciamento da carreira de Nimuendajú. Deixo claro que a análise do pensamento antropológico e do trabalho de campo dos sujeitos aqui citados não está entre meus objetivos.

[4]

Além desses arquivos, o levantamento bibliográfico de Schröder ( ‍Schröder, Peter (2013), “Curt Unckel Nimuendajú– um levantamento bibliográfico”, Tellus, 24, pp. 39-76.2013) foi de fundamental importância para esta pesquisa.

[5]

Muitos autores, sob diferentes perspectivas e abordagens teóricas, analisaram a expansão do sistema universitário alemão, a ‘diáspora científica’ decorrente desse processo e as questões políticas e culturais que permitiram a inserção de cientistas alemães em várias regiões do mundo, incluindo a América Latina. Ver, por exemplo, os clássicos Ringer ( ‍Ringer, Fritz K. (1969), The decline of the German Mandarins: the German academic community, 1890-1933, Harvard University Press.1969), Ben-David ( ‍Ben-David, Joseph (1971), The Scientist’s Role in Society. A Comparative Study, Englewood Cliffs, N.J., Prentice-Hall.1971) e Pyenson ( ‍Pyenson, Lewis (1985), Cultural imperialism and Exact Sciences: German expansion overseas, 1900-1930, New York, Peter Lang.1985). Sobre o desenvolvimento da etnologia alemã (Völkerkunde) e dos museus etnográficos, ver Penny ( ‍Penny, H. Glenn (2003), Objects of culture. Ethnology and ethnographic museums in Imperial Germany, Chapel Hill, The University of North Carolina Press.2003), Fischer et al. ( ‍Fischer, Manuela; Bolz, Peter; Kamel, Susan (eds.) (2007), Adolf Bastian and his Universal Archive of Humanity: The origins of German Anthropology. Hildesheim, Georg Olms Verlag. 2007), particularmente o estudo de Kraus ( ‍Kraus, Michael (2007), “Philological Embedments – Ethnological research in South America in the ambiance of Adolf Bastian”. In: Fischer, Manuela; Bolz, Peter; Kamel, Susan (eds.), Adolf Bastian and his Universal Archive of Humanity: The origins of German Anthropology, Hildesheim, Georg Olms Verlag, pp. 140-152.2007), e Viertler ( ‍Viertler, Renate Brigitte (2018), Os fundamentos da teoria antropológica alemã. Etnologia e antropologia em países de língua alemã: 1700-1950, São Paulo, Annablume.2018).

[6]

Para o caso brasileiro, ver os seguintes estudos sobre as relações científicas com a Europa Central no âmbito das ciências naturais, da medicina e saúde pública: Figueirôa ( ‍Figueirôa, Silvia (1990), “German-Brazilian relations in the field of geological sciences during 19th century”, Earth Sciences History, 9 (2), pp. 132-137.1990), Silva ( ‍Silva, André Felipe Cândido (2011), A trajetória científica de Henrique da Rocha Lima e as relações Brasil-Alemanha (1901-1956), Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde), Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz.2011), Benchimol ( ‍Benchimol, Jaime (2013), “O Brasil e o mundo germânico na medicina e saúde pública (1850-1918): uma história a voo de pássaro”, História (São Paulo), 32 (2), pp. 105-138.2013), Silva e Benchimol ( ‍Silva, André Felipe Cândido; Benchimol, Jaime (2014), “Malaria and Quinine Resistance: A Medical and Scientific Issue between Brazil and Germany (1907–19)”, Medical History, 58 (1), pp. 1-26.2014), Sanjad e Güntert ( ‍Sanjad, Nelson; Güntert, Marcel (2015), “Emil August Göldi (1859-1917) – a life between Switzerland and Brazil”, Mitteilungen der Naturforschenden Gesellschaft in Bern, 72, pp. 21-71.2015).

[7]

Goeldi, Emilio. Relatório apresentado pelo Diretor do Museu Paraense ao Sr. Dr. Lauro Sodré, Governador do Estado do Pará. Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, v. 2, n. 1, p. 14, 1897.

[8]

As exceções foram o botânico Charles Fuller Baker (1872-‍1927) e o taxidermista Paul Fair, ambos norte-americanos contratados por Jacques Huber em 1907 por indicação de David Starr Jordan (1851-‍1931), fundador da Universidade de Stanford. A contratação dos dois foi excepcional e ocorreu em razão dos interesses de Jordan no Brasil, que acabaram por criar vínculos com as instituições locais.

[9]

Goeldi, Emilio. Duas cartas do Dr. Theodor Koch, relativas à sua actual expedição ethnographica entre os índios do alto rio Negro, dirigidas ao Director do Museu. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, v. 4, n. 2-‍3, p. 481-‍488, 1904.

[10]

Carta de Emílio Goeldi a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1904. NTKG, Pasta A1.

[11]

Ofício de Emílio Goeldi ao Secretário da Justiça, Interior e Instrução Pública do Pará. Belém, 2 de março de 1906. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Museu Paraense Emílio Goeldi (doravante, FMPEG), Gestão Emílio Goeldi, Livro de cópias de ofícios enviados.

[12]

Carta de Emílio Goeldi a Theodor Koch. Pará, 14 de março de 1907. NTKG, Pasta A3. Sobre a coleção de Koch-Grünberg preservada no Museu Paraense Emílio Goeldi, ver López Garcés ( ‍López Garcés, Claudia Leonor (2018), “Las colecciones etnográficas del alto río Negro en el Museu Paraense Emílio Goeldi: notas históricas y diálogos contemporâneos”. In: Kraus, Michael; Halbmayer, Ernst; Kumels, Ingrid (eds.), Objetos como testigos del contacto cultural: perspectivas interculturales de la historia y del presente de las poblaciones indígenas del alto río Negro (Brasil/Colombia), Berlim, Ibero-Amerikanisches Institut, pp. 155-170.2018).

[13]

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 4 de abril de 1907. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Jacques Huber (doravante FJH), Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

[14]

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 8 de dezembro de 1902. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

[15]

Segundo Koch-Grünberg, a fonte dessa informação havia sido um livro de Henri Coudreau (1859-‍1899), “Voyage au Tapajoz”, publicado em 1897. Contudo, ele enganou-se duas vezes: o livro em que Coudreau dá notícias sobre missionários que atuavam no rio Araguaia é “Voyage au Tocantins-Araguaya”, também de 1897; e os missionários eram dominicanos, e não franciscanos, liderados pelo francês Frei Gil de Vilanova (1851-‍1904).

[16]

Carta de Theodor Koch a Jacques Huber. Berlim, 16 de dezembro de 1907. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

[17]

Carta de Jacques Huber para Theodor Koch. Pará, 17 de janeiro de 1908. NTKG, Pasta A4.

[18]

Raimundo da Rocha Pereira era um dos ‘coronéis de barranco’ existentes na Amazônia da época, homens ricos que se consideravam donos dos rios, se apropriavam de grandes extensões de terra, exploravam a navegação e os recursos naturais e submetiam aos seus desígnios os ribeirinhos e os indígenas, frequentemente os escravizando. Estavam na base do poder político da região e mantinham estreitas relações com o governo. Muitos atuavam como mecenas de artistas e protetores de viajantes, inclusive dos pesquisadores do Museu Goeldi. A citada carta de Huber deixa claro que, sem a autorização do ‘coronel’, Kissenberth não conseguiria subir o rio.

[19]

Carta de Jacques Huber a Theodor Koch. Pará, 7 de fevereiro de 1908. NTKG, Pasta A4.

[20]

Carta de Theodor Koch para Jacques Huber. Berlim, 28 de fevereiro de 1908. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg.

[21]

Faulhaber ( ‍Faulhaber, Priscila (1997), “Nos varadouros das representações: redes etnográficas na Amazônia do início do século XX”, Revista de Antropologia, 40 (2), pp.101-143.1997) trabalhou com o conceito de “rede etnográfica” na Amazônia do início do século XX, entendida como relações de saber e poder que conectavam etnólogos e instituições, como museus, associações científicas e editoras. Foram estudados os intercâmbios na obra de Constant Tastevin, Theodor Koch-Grünberg, Ermanno Stradelli e Curt Nimuendajú. Diferentemente, o que proponho neste artigo é a ampliação da ideia de ‘rede’ por meio da incorporação de outros sujeitos que interferiram, direta ou indiretamente, na produção do conhecimento etnológico e na coleta de artefatos indígenas. O termo é usado por mim no seu sentido descritivo, isto é, para designar um conjunto de pessoas que interage em determinado tempo e espaço.

[22]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

[23]

Sitzung vom 28. Mai 1910. Zeitschrift für Ethnologie, v. 42, p. 609, 1910.

[24]

A crônica da viagem seria publicada posteriormente, em português, no Boletim do Museu Goeldi, juntamente com vocabulários das línguas Xipaya e Kuruaya ( ‍Snethlage, Emilia (1913a), “A travessia entre o Xingu e o Tapajóz”, Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, 7, pp. 49-92.Snethlage, 1913a,  ‍Snethlage, Emilia (1913b), “Vocabulário comparativo dos índios Chipaya e Curuahé”, Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia, 7, pp. 93-99.1913b).

[25]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage. A mesma estratégia política – centrada no deliberado desejo de elipsar o gênero de quem fala para que o narrador possa se impor – foi utilizada pela exploradora Octavie Coudreau (1867-‍1938), que também viajou pela Amazônia e evitava assinar seu nome nas suas publicações e cartas, limitando-se a um “O. Coudreau” ( ‍Ferretti, Federico (2017), “Imperial ambivalences. Histories of lady travellers and the French explorer Octavie Renard-Coudreau (1867-1938)”, Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, 99 (3), pp. 238-255.Ferretti, 2017).

[26]

Carta de Theodor Koch a Emilia Snethlage. Freiburg im Bresgau, 22 de abril de 1910; Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 6 de agosto de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

[27]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Jacques Huber. Freiburg im Breisgau, 22 de agosto de 1910. FJH, Dossiê Theodor Koch-Grünberg. Grifo do autor.

[28]

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Belém, 26 de maio de 1911. Museu Paraense Emílio Goeldi, Arquivo Guilherme de La Penha, Fundo Emilia Snethlage (doravante, FES), Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[29]

Em 16 de março de 1910, Snethlage enviou notícias de Kissenberth para Koch-Grünberg, dando destaque para a coleção que ele estava reunindo: “Será de seu interesse saber que Dr. Kissenberth está temporariamente aqui [em Belém]. Ele está, aparentemente, bastante satisfeito e tem feito belas coleções”. Kissenberth, contudo, retornou a Berlim com material considerado insuficiente por Koch-Grünberg. Ver Kraus ( ‍Kraus, Michael (2015), “More news will follow”– Wilhelm Kissenberth’s ethnographic photographs from Northeast and Central Brazil”. In: Fischer, Manuela; Kraus, Michael (eds.), Exploring the Archive: Historical Photography from Latin America. The Collection of the Ethnologisches Museum Berlin, Köln, Böhlau, pp. 244-278.2015: 278, nota 79); e Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch. Pará, 16 de março de 1910. NTKG, Pasta A8. Transcrição de Rotger Snethlage.

[30]

De fato, no Museu Goeldi, Schüller dedicou-se à pesquisa histórica e ao levantamento de fontes documentais relacionadas à Amazônia em bibliotecas brasileiras e europeias. Ver “Inventário analítico do Fundo Rudolf Schüller”, Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi, 1987.

[31]

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Belém, 26 de maio de 1911. FES, Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[32]

Carta de Wilhelm Kissenberth a Jacques Huber. Berlim [dezembro de 1913]; Carta de Jacques Huber a Wilhelm Kissenberth. Belém, 7 de janeiro de 1914. FJH, Dossiê Wilhelm Kissenberth. A nova viagem de Kissenberth não se concretizou.

[33]

O mapa fora desenhado a pedido de Snethlage, a partir de suas anotações de campo, consideradas por Mayr ( ‍Mayr, Max (1912), “Die Routenaufnahme von Dr. E. Snethlage vom Xingú zum Tapajoz”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 58, pp. 209-213. 1912, p. 210) como “valiosas” por apresentarem informações geográficas de áreas pouco ou nada conhecidas. Ver carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Pará, 16 de fevereiro de 1911. FES, Correspondência.

[34]

Carta de Emilia Snethlage a Jacques Huber. Berlim [provavelmente, 15 de maio de 1913]. FES, Correspondência. Transcrição de Rotger Snethlage. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[35]

Carta de Eduard Seler para Emilia Snethlage. Berlim, 20 de fevereiro de 1914. Ethnologisches Museum Berlin, Archiv, E 231/14, Acta betreffend die Erwerbung ethnologischer Gegenstände aus Amerika, v. 37, Pars IB. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[36]

No original, a frase foi construída no masculino, conforme advertência feita a mim pela Dra. Beatrix Hoffmann. Esse é mais um indício de como Snethlage se impunha profissionalmente, apropriando-se de formas comumente usadas no mundo masculino. Além da elipse de gênero, mencionada anteriormente, Snethlage construiu uma variante de sua personalidade que existiu apenas na sua narrativa, criada para viabilizar o diálogo com seus pares homens. Novamente, a comparação com Octavie Coudreau é inevitável, pois ela também escrevia no masculino ( ‍Ferretti, Federico (2017), “Imperial ambivalences. Histories of lady travellers and the French explorer Octavie Renard-Coudreau (1867-1938)”, Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, 99 (3), pp. 238-255.Ferretti, 2017).

[37]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 17 de março de 1914. Ethnologisches Museum Berlin, Archiv, E 231/14, E 979/14, E 383/15, Acta betreffend die Erwerbung ethnologischer Gegenstände aus Amerika, v. 38, Pars IB (doravante, EMB, Acta). Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[38]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 4 de fevereiro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad. Snethlage entregaria pessoalmente a coleção ao Museum für Völkerkunde, mas somente em 1925, quando visitou a Alemanha pela última vez. Essa coleção foi estudada por Hoffmann (2015), segundo a qual seria a segunda coleção etnográfica feita por uma mulher na Amazônia (precedida por Therese von Bayern em 1888) e a única existente para os povos Xipaya e Kuruaya. Esse é um interessante caso para um estudo sobre gênero e colecionismo, tema que vem ganhando visibilidade nos últimos anos ( ‍Belk, Russell W.; Wallendorf, Melanie (1994), “Of mice and men: gender identity in collecting”. In: Pierce, Susan (ed.), Interpreting Objects and Collections, London, Routledge, pp. 240-253.Belk e Wallendorf, 1994;  ‍Oliveira, Ana Cristina Audebert Ramos (2018), “Colecionismo a partir da perspectiva de gênero”, Museologia & Interdisciplinaridade, 7 (13), pp. 15-30.Oliveira, 2018).

[39]

No oficio, Snethlage pede e justifica a renovação do contrato de Nimuendajú com o Museu Goeldi. Ver Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 19 de novembro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

[40]

Conforme Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. NTKG, VK MR A.19.

[41]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Karl Arenz e Nelson Sanjad. O ‘ensaio’ foi publicado assim que Seler o recebeu, nos fascículos 2-‍3 da Zeitschrift, que vieram conjuntamente à luz em julho de 1914. Apareceu com 120 páginas e 14 fotografias, bastante extenso para o padrão da revista ( ‍Nimuendajú, Curt (1914a), “Die Sagen von der Erschaffung und Vernichtung der Welt als Grundlagen der Religion der Apapocúva-Guaraní”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 284-403.Nimuendajú, 1914a). Ainda em 1914, apareceram, na mesma revista, mas nos fascículos 4-‍5, três vocabulários coligidos por Nimuendajú em entrevistas que ele realizou com indígenas de diferentes etnias em Belém e São Luís ( ‍Nimuendajú, Curt (1914b), “Vocabulários da Língua Geral do Brazil nos dialectos dos Manajé do Rio Ararandéua, Tembé do Rio Acará Pequeno e Turiwára do Rio Acará Grande, Est. do Pará”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 615-618.Nimuendajú, 1914b,  ‍Nimuendajú, Curt (1914c), “Vokabular der Pararí-Sprache”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 619-625.1914c,  ‍Nimuendajú, Curt (1914d), “Vokabular und Sagen der Crengêz- Indianer (Tājé)”, Zeitschrift für Ethnologie, 46, pp. 626-636.1914d).

[42]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 24 de março de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad. Snethlage refere-se ao antropólogo norte-americano William Curtis Farabee (1865-‍1925), que viajou pela Amazônia entre 1913 e 1916, visto como o grande concorrente dos etnólogos alemães na região.

[43]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Karl Arenz e Nelson Sanjad. Hoffmann (2017: 17-‍18) defende que Snethlage foi a primeira cientista a fazer registros linguísticos dos Aparai, em 1912, possivelmente durante uma breve estadia na fazenda Arumanduba, próxima à foz do rio Jari. Nessa ocasião, ela teria observado o potencial desse grupo indígena para pesquisas etnológicas, particularmente a “relação histórica entre os Apalai e a margem sul do Amazonas, especialmente a região do rio Xingu”. A viagem de Nimuendajú teria sido planejada por Snethlage para dar continuidade a essa investigação, projeto que acabou, segundo Hoffmann (2017), dando origem a uma série de expedições aos Aparai entre 1915 e 1956, conduzidas, além de Nimuendajú, por Felix Speiser, Otto Schulz-Kampfhenkel, Manfred Rauschert e Protásio Frikel.

[44]

Carta de Eduard Seler a Emilia Snethlage. Berlim, 29 de maio de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[45]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Karl Arenz e Nelson Sanjad.

[46]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 18 de maio de 1915. NTKG, VK MR A.19.

[47]

Nimuendajú refere-se ao seringalista José Júlio Andrade, grande proprietário de terras e ‘dono’ dos rios Paru e Jari. Era mais um dos contatos de Snethlage no interior. Ela e outros pesquisadores do Museu Goeldi frequentemente se hospedavam em uma de suas fazendas no baixo Amazonas (Arumanduba).

[48]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém do Pará, 23 de outubro de 1915. NTKG, VK MR G.II.1. Tradução de Miriam Junghans. Nimuendajú publicou apenas um pequeno relato dessa viagem e muito tempo depois ( ‍Nimuendajú, Curt (1927), “Streifzug vom Rio Jary zum Maracá”, Petermanns Geographische Mitteilungen, 73, pp. 356-358.Nimuendajú, 1927). A expedição e a coleção dela originária foram estudadas por Hoffmann ( ‍Hoffmann, Beatrix (2017), “Early journeys to the Brazilian Apalai: Kurt Nimuendajú, Felix Speiser and Protásio Frikel”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 15-68.2017), que divulgou um relato inédito de Nimuendajú preservado no Museum der Kulturen Basel, e Kraus ( ‍Kraus, Michael (2017), “Nimuendajú, Farabee and the Aparai – some considerations on the process of collecting, digitizing and publishing ethnographic data”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana… objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 69-86.2017), particularmente os objetos adquiridos por Farabee e atualmente preservados no University of Pennsylvania Museum of Archaeology and Anthropology, nos Estados Unidos. Quanto aos objetos que permaneceram no Museu Goeldi, foram analisados por Guerra e Benchimol ( ‍Guerra, Claudia Bucceroni; Benchimol, Alegria (2017), “Dois momentos da coleção Aparai no Museu Paraense Emilio Goeldi: Curt Nimuendajú em 1915 e Otto Schulz-Kampfhenkel em 1935-37”, Museologia e Patrimônio, 12 (2), pp. 92-116.2017).

[49]

A Casa Berringer & Cia., sediada em Belém, pertencia a Christian Adolf Franz Berringer (1881?-?) e funcionou por mais de 50 anos como o principal entreposto comercial e financeiro entre a Alemanha e a Amazônia. Berringer foi um dos principais mecenas do Museu Goeldi. Há um estudo sobre uma das coleções etnográficas adquiridas por Berringer e depois transferida para o Museum für Völkerkunde Hamburg, de origem Wayana e Aparai ( ‍Chávez, Christine (2017), “The Wayana and Apalai in the Museum für Völkerkunde Hamburg: History and Composition of the Berringer and Frikel Collections”. In: Hoffmann, Beatrix; Noack, Karoline (eds.), Apalai – Tiriyó – Wayana…: objects_collections_databases, Aachen, Shaker Verlag, pp. 89-108.Chávez, 2017) e outros dois sobre uma grande coleção do rio Negro adquirida por Emil Zarges, que antecedeu Berringer à frente do consulado alemão em Belém e que posteriormente se tornaria seu sócio na Casa Zarges, Berringer & Cia. ( ‍Herrera Vargas, Carolina (2014), “Coleccionando el Amazonas. Museos, caucho y el viaje de Schmidt y Weiss por el Alto río Negro”, Baukara, 6, pp. 9-35.Herrera Vargas, 2014;  ‍Kurella, Doris (2018), “La Colección Zarges/Schmidt del alto río Negro en el Linden-Museum, Stuttgart”. In: Kraus, Michael; Halbmayer, Ernst; Kummels, Ingrid (eds.), Objetos como testigos del contacto cultural: perspectivas interculturales de la historia y del presente de las poblaciones indígenas del alto río Negro (Brasil/Colombia), Berlim, Ibero-Amerikanisches Institut, pp. 171-175.Kurella, 2018).

[50]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 23 de outubro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[51]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 2 de novembro de 1915. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[52]

Carta de Eduard Seler a Emilia Snethlage. S.l., 4 de janeiro de 1916. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva e Nelson Sanjad.

[53]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Emilia Snethlage. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, Pasta A19. Tradução de Miriam Junghans.

[54]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Emilia Snethlage. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, Pasta A19. Tradução de Miriam Junghans.

[55]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, VK MR A.19. Tradução de Miriam Junghans. Neste trecho, Koch-Grünberg refere-se à encomenda feita pelo museu nova-iorquino a Hermann Schmidt e Louis Weiss, que viajaram pelo rio Negro entre 1907 e 1910. Depois da coleção ter sido enviada a New York, o American Museum of Natural History decidiu não adquiri-la. Os objetos acabaram dispersos entre colecionadores privados, entre eles Emil Zarges, que posteriormente doou ou vendeu sua coleção ao Museu Linden (ver nota 49;  ‍Herrera Vargas, Carolina (2014), “Coleccionando el Amazonas. Museos, caucho y el viaje de Schmidt y Weiss por el Alto río Negro”, Baukara, 6, pp. 9-35.Herrera Vargas, 2014).

[56]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 7 de dezembro de 1915. NTKG, VK MR A.19. Tradução de Miriam Junghans. O grifo é do autor.

[57]

Um ano depois, Koch-Grünberg ainda tentava obter notícias de Snethlage, de Nimuendajú, da coleção Aparai e do Museu Goeldi junto a Sophie Huber-Müller. Carta de Theodor Koch-Grünberg a Sophie Huber-Müller. Stuttgart, 6 de dezembro de 1916. NTKG, Pasta A20.

[58]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 18 de novembro de 1919. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva. Há incongruências nas datas apresentadas por Snethlage nessa carta. Por exemplo, ela afirma que esteve desligada do Museu Goeldi entre abril de 1918 e maio de 1919, período em que viveu em uma “missão capuchinha na região de nascente do Maracanã”, onde coletou “material linguístico e alguns mitos (no original) dos índios Tembés (...)”. Outros registros apontam que a estadia dela entre os capuchinhos ocorreu entre o segundo semestre de 1917 e maio de 1918, como o próprio artigo que ela publicou sobre os Tembé ( ‍Snethlage, Emilia (1917), “Nature and Man in Eastern Pará, Brazil”, The Geographical Review, 4, pp. 41-50.Snethlage, 1917). Resta, portanto, a dúvida sobre as atividades de Snethlage nesses anos.

[59]

Durante sua temporada na região do rio Gurupi a serviço do SPI, em 1914-‍1915, Nimuendajú coligiu dez lendas Tembé, publicadas em 1915 na Zeitschrift für Ethnologie ( ‍Nimuendajú, Curt (1915a), “Sagen der Tembé-Indianer (Pará und Maranhão)”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 281-301.Nimuendajú, 1915a). No mesmo volume seria publicado mais um vocabulário, o quarto coligido por Nimuendajú, entre os Timbiras da fronteira do Pará e Maranhão ( ‍Nimuendajú, Curt (1915b), “Vokabulare der Timbiras von Maranhão und Pará”, Zeitschrift für Ethnologie, 47, pp. 302-305.Nimuendajú, 1915b).

[60]

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Belém, 23 de abril de 1920. NTKG, VK MR G.II.1.

[61]

Carta de Emilia Snethlage a Eduard Seler. Pará, 18 de novembro de 1919. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva. O material linguístico recolhido por Nimuendajú entre os Xipaya foi, de fato, publicado, mas na Anthropos ao longo de cinco anos ( ‍Nimuendajú, Curt (1923-1924), “Zur Sprache der Sipáia-Indianer”, Anthropos, 18-19, pp. 836-857.Nimuendajú, 1923-‍1924,  ‍Nimuendajú, Curt (1928), “Wortliste der Sipáia-Sprache”, Anthropos, 23 (5-6), pp. 821-850.1928,  ‍Nimuendajú, Curt (1929), “Wortliste der Sipáia-Sprache (Schluß)”, Anthropos, 24 (5-6), pp. 863-896.1929). O material dos Kuruaya apareceu pouco depois no Journal de la Société des Américanistes ( ‍Nimuendajú, Curt (1930), “Zur Sprache der Kuruáya-Indianer”, Journal de la Société des Américanistes, 22(2), pp. 317-345.Nimuendajú, 1930).

[62]

Carta de Emilia Snethlage a Max Schmidt. Pará, 22 de abril de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Tradução de João Batista Poça da Silva.

[63]

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Belém, 23 de abril de 1920. NTKG, VK MR G.II.1.

[64]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 20 de maio de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

[65]

Carta de Emilia Snethlage a Max Schmidt. Pará, 2 de agosto de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann. Snethlage anexou a esta carta uma outra de Nimuendajú, também para Schmidt, com o mesmo pedido. Uma cópia dessa carta de Nimuendajú a Schmidt, datada de 28 de julho de 1920, foi enviada a Koch-Grünberg por Nimuendajú, em 29 de julho, o que atesta a circularidade das informações e dos manuscritos entre os quatro correspondentes.

[66]

Carta de Max Schmidt para Emilia Snethlage. Berlim, 7 de setembro de 1920. EMB, Acta. Transcrição de Beatrix Hoffmann.

[67]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 16 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

[68]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 23 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans. Esse artigo de Nimuendajú apareceu em duas partes na Anthropos. A primeira, nos volumes 14-‍15, relativos aos anos 1919-‍1920, mas publicados em março de 1921. A segunda, no tomo seguinte ( ‍Nimuendajú, Curt (1919-1920), “Bruchstücke aus Religion und Überlieferung der Šipáia-Indianer: Beiträge zur Kenntnis der Indianerstämme des Xingú-Gebietes, Zentralbrasilien”, Anthropos, 14-15 (4-6), pp. 1002-1039.Nimuendajú, 1919-‍1920,  ‍Nimuendajú, Curt (1921-1922), “Bruchstücke aus Religion und Überlieferung der Šipáia-Indianer: Beiträge zur Kenntnis der Indianerstämme des Xingú-Gebietes, Zentralbrasilien”, Anthropos, 16-17 (1-3), pp. 367-406.1921-1922). Para uma versão em português do trabalho, ver a tradução e edição de Schröder ( ‍Schröder, Peter (Org.) (2019), Os índios Xipaya, cultura e língua: textos de Curt Nimuendajú, Campinas, Editora Curt Nimuendajú.2019).

[69]

Carta de Emilia Snethlage a Theodor Koch-Grünberg. Pará, 21 de junho de 1915. NTKG, Pasta A19. Transcrição de Karl Arenz. Tradução de Nelson Sanjad e Karl Arenz.

[70]

Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 2 de janeiro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

[71]

Ofício de Emília Snethlage ao Secretário Geral do Estado do Pará. Belém, 19 de dezembro de 1919. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

[72]

Ofício de Eládio Lima, Secretário Geral do Estado do Pará, à Diretora do Museu Goeldi. Pará, 9 de janeiro de 1920. FMPEG, Gestão Emília Snethlage, Correspondência.

[73]

Várias notícias. O Estado do Pará, Belém, n. 3.313, p. 3, 9 jun. 1920.

[74]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 16 de setembro de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

[75]

Ernst Paschen, comerciante alemão estabelecido em Belém.

[76]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 29 de julho de 1920. NTKG, VK MR A.29. Tradução de Miriam Junghans.

[77]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 12 de novembro de 1920. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

[78]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Belém, 19 de fevereiro de 1921. NTKG, VK MR A.31.

[79]

Carta de Theodor Koch-Grünberg a Curt Nimuendajú. Stuttgart, 8 de abril de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans. Diferentemente das previsões fatalistas de Nimuendajú, que fizeram Koch-Grünberg ambicionar as coleções do Museu Goeldi, a instituição sobreviveu.

[80]

Grave denúncia. O Estado do Pará, Belém, n. 3.828, p. 1, 19 abr. 1921; O caso do Museu Goeldi. O Estado do Pará, Belém, n. 3.829, p. 2, 20 abr. 1921.

[81]

Ver Catálogo das Coleções Etnográficas do Museu Goeldi. Belém, 3 de abril de 1921. Museu Paraense Emílio Goeldi, Coordenação de Ciências Humanas, Reserva Técnica Curt Nimuendajú.

[82]

Carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Colônia Oiapoque, 26 de junho de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

[83]

Carta de Curt Nimuendajú a Theodor Koch-Grünberg. Manaus, 21 de setembro de 1921. NTKG, VK MR A.31. Tradução de Miriam Junghans.

[84]

A carta de Nimuendajú para Snethlage, preservada no arquivo da família dela, foi transcrita, traduzida e publicada por Mere ( ‍Mere, Gleice (2013), “Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939): nota biográfica, expedições e legado de uma carreira interrompida”, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 8 (3), pp. 773-804.2013). O inverso também seria possível: a carta talvez tenha sido escrita para Koch-Grünberg e depois reproduzida para Snethlage. Uma terceira possibilidade seria o aproveitamento, por Nimuendajú, de um diário, reproduzido para ambos. Ver carta de Curt Nimuendajú para Theodor Koch-Grünberg. Posto de Pacificação dos Parintintim, 25 de dezembro de 1922 [carta redigida em várias datas, sendo a última a de 11 de fevereiro de 1923, em Belém]. NTKG, VK MR G.II.1.

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